Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Zé da Talha (Parte 01)

O motorista salta da Belina Branca e liga uma grande lanterna holofote posicionada sobre o capô do carro. A luz dos postes desapareceram durante o temporal deixando tudo no breu. A cena do crime é iluminada apenas pelas luzes dos faróis das viaturas. O perito, um homem negro e magro, vestido dos pés à cabeça de branco, coloca com cuidado o par de luvas de látex. Antes de iniciar os procedimentos, tira de dentro do jaleco um escapulário e o beija murmurando uma ladainha.

Fito Manuel e seguro uma gargalhada, o gordinho bigodudo puxava mais uma arara do bolso e apostava no desencarne do perito ao ver o cadáver. E assim se faz, quando o legista remove o papelão solta um berro de cruz credo que ecoa pela rua, excitando os desocupados que se acotovelam tentando ver o que acontecia.

Num esforço de se recompor, o legista apalpa freneticamente os bolsos do jaleco gaguejando frações de uma palavra que demoro a decifrar, era cigarro. Tiro de trás da orelha um crivo que guardo de estimação e entrego para o homem que treme como vara verde.

Ele traga o fumo durante dez segundos, inflando os pulmões e recupera o rubor do rosto. Com um único golpe, mergulha as mãos dentro da cabeça da menina, revirando carne e cartilagem, até soltar o objeto usado para assassiná-la.

Liberando, calmamente, a fumaça pelas narinas, analisa o objeto e com as pontas dos dedos o coloca dentro do saco de evidências. Espreitando os olhos ele arremessa a bituca no chão e coloca-se a revirar o resto do corpo até encontrar no bojo do sutiã uma nota de vinte reais e uma carteira de identidade.

Manuel se agita e se voluntaria para ajudar o homem a guardar o corpo. O velho sorri e aceita de bom grado, arremessando no banco do camburão o saco de evidências. Surpreso com a proatividade de Manuel, que é um boçal convicto, vou para a viatura e fico tentando sintonizar o canal da DP para liberar a cena do crime.

Manuel volta apressado, senta ao meu lado e ordena que eu ligue o carro. Sem entender aquela excitação súbita, hesito e questiono o motivo da pressa, recebo, como resposta, o saco de evidências surrupiada do tonto do perito. O artefato usado no assassinato foi uma ferramenta com cabo vermelho e fitas rosas, azuis e brancas, do Senhor do Bonfim, amarradas na base de madeira laqueada que se une ao metal. É uma talha e é do Zé da Talha.

O Zé se criou, desde guri, nas ruas do centro de Porto Alegre, era mais um entre os muitos abandonados à própria sorte. A expectativa de vida destas crianças é baixa, geralmente, não passam dos quinze anos, idade que se afundam no crack e em outras drogas baratas. Para manter o vício, roubam e se prostituem contraindo todo o tipo de doenças, definhando até ficarem completamente dementes e morrerem ao relento. A profissão de policial me tornou indiferente a essa situação. No início da carreira, eu até me revoltava, mas com o tempo fui obrigado a conviver com o mal que orquestra a cidade.

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Leonardo Duprates
Zé da Talha (Parte 01)

O motorista salta da Belina Branca e liga uma grande lanterna holofote posicionada sobre o capô do carro. A luz dos postes desapareceram durante o temporal deixando tudo no breu. A cena do crime é iluminada apenas pelas luzes dos faróis das viaturas. O perito, um homem negro e magro, vestido dos pés à cabeça de branco, coloca com cuidado o par de luvas de látex. Antes de iniciar os procedimentos, tira de dentro do jaleco um escapulário e o beija murmurando uma ladainha.

Fito Manuel e seguro uma gargalhada, o gordinho bigodudo puxava mais uma arara do bolso e apostava no desencarne do perito ao ver o cadáver. E assim se faz, quando o legista remove o papelão solta um berro de cruz credo que ecoa pela rua, excitando os desocupados que se acotovelam tentando ver o que acontecia.

Num esforço de se recompor, o legista apalpa freneticamente os bolsos do jaleco gaguejando frações de uma palavra que demoro a decifrar, era cigarro. Tiro de trás da orelha um crivo que guardo de estimação e entrego para o homem que treme como vara verde.

Ele traga o fumo durante dez segundos, inflando os pulmões e recupera o rubor do rosto. Com um único golpe, mergulha as mãos dentro da cabeça da menina, revirando carne e cartilagem, até soltar o objeto usado para assassiná-la.

Liberando, calmamente, a fumaça pelas narinas, analisa o objeto e com as pontas dos dedos o coloca dentro do saco de evidências. Espreitando os olhos ele arremessa a bituca no chão e coloca-se a revirar o resto do corpo até encontrar no bojo do sutiã uma nota de vinte reais e uma carteira de identidade.

Manuel se agita e se voluntaria para ajudar o homem a guardar o corpo. O velho sorri e aceita de bom grado, arremessando no banco do camburão o saco de evidências. Surpreso com a proatividade de Manuel, que é um boçal convicto, vou para a viatura e fico tentando sintonizar o canal da DP para liberar a cena do crime.

Manuel volta apressado, senta ao meu lado e ordena que eu ligue o carro. Sem entender aquela excitação súbita, hesito e questiono o motivo da pressa, recebo, como resposta, o saco de evidências surrupiada do tonto do perito. O artefato usado no assassinato foi uma ferramenta com cabo vermelho e fitas rosas, azuis e brancas, do Senhor do Bonfim, amarradas na base de madeira laqueada que se une ao metal. É uma talha e é do Zé da Talha.

O Zé se criou, desde guri, nas ruas do centro de Porto Alegre, era mais um entre os muitos abandonados à própria sorte. A expectativa de vida destas crianças é baixa, geralmente, não passam dos quinze anos, idade que se afundam no crack e em outras drogas baratas. Para manter o vício, roubam e se prostituem contraindo todo o tipo de doenças, definhando até ficarem completamente dementes e morrerem ao relento. A profissão de policial me tornou indiferente a essa situação. No início da carreira, eu até me revoltava, mas com o tempo fui obrigado a conviver com o mal que orquestra a cidade.

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