Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Zé da Talha (Parte 01)

Felizmente, esse não foi o caso do Zé, o menino nasceu surdo e, consequentemente, acabou mudo e foi abandonado quando tinha uns onze anos de idade. Trabalhou por muito tempo nas fruteiras do terminal de ônibus da Praça Parobé, recebendo como pagamento restos de comida e um abrigo entre as lonas laranjas das bancas. O Zé nunca existiu para o mundo, seu próprio nome revelava isso. Descartado, sem saber falar, acabou ganhando um nome genérico como Zé Ninguém.

A mentalidade do infeliz não superou a de uma criança, certamente prejudicada pela falta de orientação de uma família. Para sorte do garoto ele era forte como um burro e sempre soube trabalhar duro, depois de algum tempo entre as tendas de frutas ele achou um amigo, o Tonho do Pexe.

Dono de uma banca de frutos do mar no Mercado Público, adotou Zé como um filho, dando-lhe um trabalho e um lugar para morar. A felicidade durou pouco, o comerciante morreu de infarto fulminante enquanto carregava as pesadas caixas de peixe congelado. Essa foi a primeira vez que Zé sentiu a dor da perda, antes disso jamais tinha entendido os infortúnios da vida. Deprimido voltou para a rua e vagou pelo centro, enfrentando as dificuldades de ser um sem teto e deficiente.

Isolado e com fome, Zé passou meses observando artesãos na Praça da Alfândega e começou a imitá-los, esculpindo imagens religiosas em madeira com uma única ferramenta, a talha. Em troca de comida e alguns trocados, ele criava imagens cada vez mais detalhadas e realistas que encantavam os frequentadores do centro.

Com o passar do tempo, o menino se tornou uma figura mítica do Centro, ganhando cadeira cativa entre os artesãos e artistas que emprestam a graça da arte ao emaranhado de aço e concreto das edificações. A beleza de suas esculturas lhe renderam quinze minutos de fama em uma série de reportagens de uma emissora de televisão local. Mas nem toda a comoção desta exposição fizeram com que ele ganhasse uma chance na sociedade. O Zé continuou nas ruas e parece que, desta vez, caiu na tentação e assassinou a pobre garota com o seu próprio ganha pão, a talha.

– Puta merda! Maria Aguirre! – exclama Manuel em voz alta quebrando meu momento de reflexão.

Pego o documento do saco de evidências. Freio a viatura bruscamente com o choque.

– Por que cargas d’agua o retardado foi assassinar logo a filha de um traficante? Quando o Gaúcho descobrir que a sua caçula foi assassinada vai iniciar o apocalipse até transformar o infeliz do Zé em pó para misturar em sua cocaína barata. – Manoel manda eu segurar a onda.

− Peixe grande, meu chapa! Patricinha de empresário pão duro não dá grana. O traficante vai encher a nossa mão de prata em troca do retardado. Não tem erro, essa noite a gente tira a barriga da miséria, vai ser churrasco todo o dia – confabula Manuel destilando o veneno da cobiça.

O Gaúcho é um dos mais emblemáticos traficantes de drogas de Porto Alegre, mistura de Carlos Gardel com Mano Lima, trata-se de um paraguaio excêntrico que anda sempre pilchado. Devido aos seus trejeitos e sua inventividade ficou conhecido como Vito Corleone dos Pampas. Todo o dinheiro ilícito do tráfico é esquentado com um esquema de importação de erva-mate do Uruguai.

O negócio parece promissor, o traficante não vai se mixar de pagar uma bolada pela cabeça do doente e esse negócio é a especialidade do papai aqui.

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Leonardo Duprates
Zé da Talha (Parte 01)

Felizmente, esse não foi o caso do Zé, o menino nasceu surdo e, consequentemente, acabou mudo e foi abandonado quando tinha uns onze anos de idade. Trabalhou por muito tempo nas fruteiras do terminal de ônibus da Praça Parobé, recebendo como pagamento restos de comida e um abrigo entre as lonas laranjas das bancas. O Zé nunca existiu para o mundo, seu próprio nome revelava isso. Descartado, sem saber falar, acabou ganhando um nome genérico como Zé Ninguém.

A mentalidade do infeliz não superou a de uma criança, certamente prejudicada pela falta de orientação de uma família. Para sorte do garoto ele era forte como um burro e sempre soube trabalhar duro, depois de algum tempo entre as tendas de frutas ele achou um amigo, o Tonho do Pexe.

Dono de uma banca de frutos do mar no Mercado Público, adotou Zé como um filho, dando-lhe um trabalho e um lugar para morar. A felicidade durou pouco, o comerciante morreu de infarto fulminante enquanto carregava as pesadas caixas de peixe congelado. Essa foi a primeira vez que Zé sentiu a dor da perda, antes disso jamais tinha entendido os infortúnios da vida. Deprimido voltou para a rua e vagou pelo centro, enfrentando as dificuldades de ser um sem teto e deficiente.

Isolado e com fome, Zé passou meses observando artesãos na Praça da Alfândega e começou a imitá-los, esculpindo imagens religiosas em madeira com uma única ferramenta, a talha. Em troca de comida e alguns trocados, ele criava imagens cada vez mais detalhadas e realistas que encantavam os frequentadores do centro.

Com o passar do tempo, o menino se tornou uma figura mítica do Centro, ganhando cadeira cativa entre os artesãos e artistas que emprestam a graça da arte ao emaranhado de aço e concreto das edificações. A beleza de suas esculturas lhe renderam quinze minutos de fama em uma série de reportagens de uma emissora de televisão local. Mas nem toda a comoção desta exposição fizeram com que ele ganhasse uma chance na sociedade. O Zé continuou nas ruas e parece que, desta vez, caiu na tentação e assassinou a pobre garota com o seu próprio ganha pão, a talha.

– Puta merda! Maria Aguirre! – exclama Manuel em voz alta quebrando meu momento de reflexão.

Pego o documento do saco de evidências. Freio a viatura bruscamente com o choque.

– Por que cargas d’agua o retardado foi assassinar logo a filha de um traficante? Quando o Gaúcho descobrir que a sua caçula foi assassinada vai iniciar o apocalipse até transformar o infeliz do Zé em pó para misturar em sua cocaína barata. – Manoel manda eu segurar a onda.

− Peixe grande, meu chapa! Patricinha de empresário pão duro não dá grana. O traficante vai encher a nossa mão de prata em troca do retardado. Não tem erro, essa noite a gente tira a barriga da miséria, vai ser churrasco todo o dia – confabula Manuel destilando o veneno da cobiça.

O Gaúcho é um dos mais emblemáticos traficantes de drogas de Porto Alegre, mistura de Carlos Gardel com Mano Lima, trata-se de um paraguaio excêntrico que anda sempre pilchado. Devido aos seus trejeitos e sua inventividade ficou conhecido como Vito Corleone dos Pampas. Todo o dinheiro ilícito do tráfico é esquentado com um esquema de importação de erva-mate do Uruguai.

O negócio parece promissor, o traficante não vai se mixar de pagar uma bolada pela cabeça do doente e esse negócio é a especialidade do papai aqui.

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