Zé da Talha - parte 2 - Leonardo Duprates
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Zé da Talha – parte 2

Leia a primeira parte do conto: http://maldohorror.com.br/leonardo-duprates/ze-da-talha-parte-01/

Manuel continua me surpreendendo, ele desliga o rádio e ordena que eu dirija para a Rodoviária imediatamente, ele parecia ter um plano, mas não o revela. Prefiro não questionar, enfim conheço o português há dez anos e ele nunca nos colocou em nenhuma fria.

Pego a avenida Mauá pela contramão e chegamos em tempo recorde à Rodoviária. As luzes do giroflex iluminam o edifício que está mergulhado na escuridão. Manuel coloca a cabeça para fora da viatura e com os dois dedos indicadores entre os lábios solta um assobio que ecoa pelas galerias da estação de trem. Um mendigo salta da escuridão correndo freneticamente em nossa direção.

O homem se ajoelha em frente à janela da viatura chamando Manuel de padrinho, beijando o anel de cristal vermelho no mindinho da mão esquerda. Meu companheiro tira do bolso uma papeleta de cocaína e entrega ao rapaz que a cheira em uma única tragada e em seguida come vorazmente o invólucro da droga

Manoel pega uma caixa de cigarros e remove do interior o papel que embrulha o tabaco e começa a escrever:

“Meus sentimentos, Gaúcho. Tua guria mais nova foi assassinada por um maloqueiro chamado Zé da Talha. O valor do porongo do assassino é oitenta mil reais não negociáveis. A corporação agradece a preferência.”

A mensagem é colocada no saco de evidências junto a talha e a carteira de identidade da menina e entregue para o mendigo que compreende facilmente a ordem e sai em disparada até desaparecer na escuridão para os lados da Rua Voluntários da Pátria.

Reclino o banco e início um interrogatório, algumas questões perturbam o meu pensamento, mas Manuel é escorregadio e consegue se livrar com bom humor de todas as minhas perguntas. Por fim, quando começo a ficar frustrado com o fracasso das minhas investidas, o mendigo reaparece quase desfalecendo. Apressado, entrega uma caixa de pizza com a talha e vinte mil reais em garoupas. Ofegante, repete a mensagem do traficante:

– Gaúcho quer as mãos do matungo cortadas com a talha até às quatro da manhã e paga mais sessenta mil reais. Escutaram bem? Mão. Com a talha. Quatro da manhã. Sessenta mil reais.

Manuel sorri e tira cem reais da caixa de pizza e entrega ao mendigo, que lambe a nota, coloca dentro das calças e volta troteando, desaparecendo no breu das escadarias do Trensurb.

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Leonardo Duprates
Zé da Talha – parte 2

Leia a primeira parte do conto: http://maldohorror.com.br/leonardo-duprates/ze-da-talha-parte-01/

Manuel continua me surpreendendo, ele desliga o rádio e ordena que eu dirija para a Rodoviária imediatamente, ele parecia ter um plano, mas não o revela. Prefiro não questionar, enfim conheço o português há dez anos e ele nunca nos colocou em nenhuma fria.

Pego a avenida Mauá pela contramão e chegamos em tempo recorde à Rodoviária. As luzes do giroflex iluminam o edifício que está mergulhado na escuridão. Manuel coloca a cabeça para fora da viatura e com os dois dedos indicadores entre os lábios solta um assobio que ecoa pelas galerias da estação de trem. Um mendigo salta da escuridão correndo freneticamente em nossa direção.

O homem se ajoelha em frente à janela da viatura chamando Manuel de padrinho, beijando o anel de cristal vermelho no mindinho da mão esquerda. Meu companheiro tira do bolso uma papeleta de cocaína e entrega ao rapaz que a cheira em uma única tragada e em seguida come vorazmente o invólucro da droga

Manoel pega uma caixa de cigarros e remove do interior o papel que embrulha o tabaco e começa a escrever:

“Meus sentimentos, Gaúcho. Tua guria mais nova foi assassinada por um maloqueiro chamado Zé da Talha. O valor do porongo do assassino é oitenta mil reais não negociáveis. A corporação agradece a preferência.”

A mensagem é colocada no saco de evidências junto a talha e a carteira de identidade da menina e entregue para o mendigo que compreende facilmente a ordem e sai em disparada até desaparecer na escuridão para os lados da Rua Voluntários da Pátria.

Reclino o banco e início um interrogatório, algumas questões perturbam o meu pensamento, mas Manuel é escorregadio e consegue se livrar com bom humor de todas as minhas perguntas. Por fim, quando começo a ficar frustrado com o fracasso das minhas investidas, o mendigo reaparece quase desfalecendo. Apressado, entrega uma caixa de pizza com a talha e vinte mil reais em garoupas. Ofegante, repete a mensagem do traficante:

– Gaúcho quer as mãos do matungo cortadas com a talha até às quatro da manhã e paga mais sessenta mil reais. Escutaram bem? Mão. Com a talha. Quatro da manhã. Sessenta mil reais.

Manuel sorri e tira cem reais da caixa de pizza e entrega ao mendigo, que lambe a nota, coloca dentro das calças e volta troteando, desaparecendo no breu das escadarias do Trensurb.

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