Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Loures Jahnke
Não gosto muito de falar de mim mesmo, não ao público, pelo menos. Por mais narcisista que seja, prefiro lamber-me às escondidas e gozar minha satisfação no reflexo de minhas dúvidas... Talvez não seja bem assim... talvez sim, um pouquinho. Na verdade apenas considero notas autobiográficas quase tão maçantes quanto currículos acadêmicos, tomados de orgulho, pose e egos inflados. Ou seja, não tem como ser imparcial quando se fala de si mesmo. “Publique ou pereça” jamais foi meu lema! Mas poucas cervejas foram necessárias para convencer-me a participar do Projeto Maldohorror. Bastaram, na verdade, a amizade e o entusiasmo nos olhos do Baiestorf, do Toniolli e do Borto. Elio Copini não estava muito entusiasmado... estava um pouco ébrio e vestido de pastor pentecostal com um calor de 40 graus, mas fez algumas piadas infames que divertiram muito a assistência. Obrigado, a todos, pelo honroso convite. Então... sou quase, um pouco e muito de várias coisas. Quase administrador, quase cientista social, quase teólogo (grrrrr!). Sou um pouco agricultor, um pouco marceneiro, um pouco carpinteiro, um pouco ator, um pouco projetista. Sou muito marido (da Elisiane), sou muito pai (da Morgana, da Isabela e do Lourenzo), sou muito leitor, sou muito fã da Canibal... Noutro dia, conversando com J. P. Sartre, dizia-me ele: “Meu jovem, a liberdade é um preço que se paga à vida com prazer...” Por tudo isso, sou Poeta, sou Escritor. Gosto da liberdade na estrutura da pena, que baila solícita e maliciosa no virginal branco do papel. Aprecio a ‘desrotina’ que o escrever promove. Sou enamorado da linguagem, amante impetuoso da acidez, da malícia, da ironia, do escracho; sofrimento, dor, inquietação, angústia excitam e incitam a querer mais. Loucura, ah!, loucura humana, com suas longas e sensuais tranças escandinavas, quanto a dizer... quantos sussurros... quanto a calar....





O Velho Kurtz

Como fiquei sabendo nos dias que se seguiram, dos nove atacantes, seis morreram a tiros, pelos companheiros de Kurtz, e que ele mesmo foi responsável pela morte dos outros três, dois degolados e o último, o líder do bando, esfaqueado pelo menos vinte vezes enquanto encarava o riso amargo de seu executor.
Ao amanhecer, contabilizando as baixas, Kurtz percebeu que meu corpo não estava junto aos demais e despachou dois de seus companheiros à vila para levarem a notícia do acontecido, de modo que se organizasse o transporte dos corpos até suas famílias, enquanto ele e um negro chamado Silvério saíram a minha busca. Segundo o que Kurtz me contou depois, não foi difícil encontrar meu rastro e que ficou surpreso com minha capacidade de andar em linha reta na mata; também disse que se não tivesse desviado meu caminho ao encontrar o riacho, possivelmente teriam perdido minhas pegadas quando chegasse aos pinhais, dois dias ao norte. Disse que o fato de ter caminhado quebrando galhos e plantas jovens a cada poucos metros facilitou muito o trabalho dele; de fato fiz isso, mas não pensando em um resgate, apenas para demarcar meu caminho e evitar andar em círculos.
De qualquer forma, o acontecido criou uma espécie de laço entre nós… eu lhe devia a vida e ele sabia disso. Não que cobrasse qualquer coisa, na verdade jamais o fez, mas eu me sentia comprometido com aquela criatura, que todos, de uma ou outra maneira, temiam e evitavam. Se tirei algum proveito dessa estranha amizade, não sei dizer ao certo. Diretamente, penso que não; apenas as memórias e inúmeras histórias que imagino ter chegado o momento de serem contadas…

Funeral de Morte
Na pura arrogância da razão, todos nós fomos negligentes.
Edgar Allan Poe

O comportamento humano, mesmo em seu estágio mais evoluído do processo civilizatório, muitas das vezes, não condiz perfeitamente com as expectativas que se cria em torno do honroso conceito de civilização. Na verdade, acredito existir uma linha tênue, um divisor ou, melhor ainda, um complexo sistema limiar entre o que é civilização e o que é barbárie. Somos, de um modo geral, imbuídos de um sensível gatilho, pronto a disparar os mais repulsivos instintos de selvageria e barbárie, sim.
Ora, se nós, homens e mulheres modernos, cercados de recursos, informação e de alguma forma consumidores de cultura, estamos predispostos geneticamente ao pressuposto da liminaridade, o que dizer de alguém como Kurtz Schwantz, embrenhado, nas palavras de Lovecraft, “nos escuros cantos da Terra”…
(continua)

 

 

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8

Loures Jahnke
O Velho Kurtz

Como fiquei sabendo nos dias que se seguiram, dos nove atacantes, seis morreram a tiros, pelos companheiros de Kurtz, e que ele mesmo foi responsável pela morte dos outros três, dois degolados e o último, o líder do bando, esfaqueado pelo menos vinte vezes enquanto encarava o riso amargo de seu executor.
Ao amanhecer, contabilizando as baixas, Kurtz percebeu que meu corpo não estava junto aos demais e despachou dois de seus companheiros à vila para levarem a notícia do acontecido, de modo que se organizasse o transporte dos corpos até suas famílias, enquanto ele e um negro chamado Silvério saíram a minha busca. Segundo o que Kurtz me contou depois, não foi difícil encontrar meu rastro e que ficou surpreso com minha capacidade de andar em linha reta na mata; também disse que se não tivesse desviado meu caminho ao encontrar o riacho, possivelmente teriam perdido minhas pegadas quando chegasse aos pinhais, dois dias ao norte. Disse que o fato de ter caminhado quebrando galhos e plantas jovens a cada poucos metros facilitou muito o trabalho dele; de fato fiz isso, mas não pensando em um resgate, apenas para demarcar meu caminho e evitar andar em círculos.
De qualquer forma, o acontecido criou uma espécie de laço entre nós… eu lhe devia a vida e ele sabia disso. Não que cobrasse qualquer coisa, na verdade jamais o fez, mas eu me sentia comprometido com aquela criatura, que todos, de uma ou outra maneira, temiam e evitavam. Se tirei algum proveito dessa estranha amizade, não sei dizer ao certo. Diretamente, penso que não; apenas as memórias e inúmeras histórias que imagino ter chegado o momento de serem contadas…

Funeral de Morte
Na pura arrogância da razão, todos nós fomos negligentes.
Edgar Allan Poe

O comportamento humano, mesmo em seu estágio mais evoluído do processo civilizatório, muitas das vezes, não condiz perfeitamente com as expectativas que se cria em torno do honroso conceito de civilização. Na verdade, acredito existir uma linha tênue, um divisor ou, melhor ainda, um complexo sistema limiar entre o que é civilização e o que é barbárie. Somos, de um modo geral, imbuídos de um sensível gatilho, pronto a disparar os mais repulsivos instintos de selvageria e barbárie, sim.
Ora, se nós, homens e mulheres modernos, cercados de recursos, informação e de alguma forma consumidores de cultura, estamos predispostos geneticamente ao pressuposto da liminaridade, o que dizer de alguém como Kurtz Schwantz, embrenhado, nas palavras de Lovecraft, “nos escuros cantos da Terra”…
(continua)

 

 

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8