Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Luciano Pires
Nascido em Osasco, em 14 de abril de 1978.
Formado em Letras e músico nos bares mais vagabundos da cidade.
Quase terminando um romance passado na cidade de Osasco, onde um pombo é o narrador principal, com cenas na estação de trem e no antigo Arena Metal.
Uma mente em fúria.
Profundos e minúsculos terremotos de dor, caos e sonhos perfurados.
Nuvens carregadas em pílulas, engasgadas na garganta de Deus.
Ópio e pálpebras acesas.
E-mail: lucianovpires13@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/lucianovpires
Blog: prozacfiles.blogspot.com.br/






A casa vazia

          A arma apontada para a cabeça, os olhos pesados, as mãos tremulas, o suor profano cintilando no segundo eterno. Nenhum grito, nenhuma saudade, nenhuma suavidade sonora, nenhuma santidade esquecida que pudesse ser avisada. O cano pressionado carimbava um círculo mágico, que aos poucos ia ficando mais evidente, a pele marcada como boi, como bicho em sacrifício, como o próprio tiro antecipado, como alvo premonitório.

          A oração atravessava a linha do silêncio embalando em religiosidade a carne prestes a ser abatida.

          Lembrou-se do grito mudo. Lembrou-se da noite com a Lua apagada, pássaro mordendo e arrancando a língua do tempo. Lembrou-se da sanidade, que gemeu e se jogou do abismo, pairando no último segundo.

          Moveu-se um pouco, sacudiu as últimas lembranças.

          O tiro escorregou pela arma, bateu e vibrou como uma pedra saltitando na água, desviou do destino para se alojar no quadro pendurado na parede, um quadro de uma casa à beira de um lago, do outro lado do mundo, aquele dia a morte encontrou a casa vazia.

Luciano Pires
A casa vazia

          A arma apontada para a cabeça, os olhos pesados, as mãos tremulas, o suor profano cintilando no segundo eterno. Nenhum grito, nenhuma saudade, nenhuma suavidade sonora, nenhuma santidade esquecida que pudesse ser avisada. O cano pressionado carimbava um círculo mágico, que aos poucos ia ficando mais evidente, a pele marcada como boi, como bicho em sacrifício, como o próprio tiro antecipado, como alvo premonitório.

          A oração atravessava a linha do silêncio embalando em religiosidade a carne prestes a ser abatida.

          Lembrou-se do grito mudo. Lembrou-se da noite com a Lua apagada, pássaro mordendo e arrancando a língua do tempo. Lembrou-se da sanidade, que gemeu e se jogou do abismo, pairando no último segundo.

          Moveu-se um pouco, sacudiu as últimas lembranças.

          O tiro escorregou pela arma, bateu e vibrou como uma pedra saltitando na água, desviou do destino para se alojar no quadro pendurado na parede, um quadro de uma casa à beira de um lago, do outro lado do mundo, aquele dia a morte encontrou a casa vazia.