O tempo é uma velha decrépita - Luciano Pires
Luciano Pires
Nascido em Osasco, em 14 de abril de 1978.
Formado em Letras e músico nos bares mais vagabundos da cidade.
Quase terminando um romance passado na cidade de Osasco, onde um pombo é o narrador principal, com cenas na estação de trem e no antigo Arena Metal.
Uma mente em fúria.
Profundos e minúsculos terremotos de dor, caos e sonhos perfurados.
Nuvens carregadas em pílulas, engasgadas na garganta de Deus.
Ópio e pálpebras acesas.
Acompanhe o autor no blog: https://prozacfiles.blogspot.com.br/





O tempo é uma velha decrépita

A noite era fria, congelante, daquelas que quem não fuma fica brincando de soltar fumaça pelo canto da boca, feito vapor.

No posto de gasolina não tinha nenhum frentista, todos escondidos, abrigados, encolhidos, fora de visão.

Comprei duas heinekens, paguei pela janelinha, bebi a primeira quase de imediato e fui caminhando para o bar com a segunda long neck na mão, parecia um daqueles velhos robôs dos antigos filmes, camadas de roupas e agasalhos e cachecol e touca, os olhos lacrimejando com o vento cortante.

Desci as escadas, em cada degrau havia uma vela acesa tremendo de frio.

Um instrumento desafinado projetava notas quebradas e desfiguradas pelo ambiente, havia apenas uma pessoa quase adormecida no balcão e um velho estático segurando um violão.

Pedi um bombeirinho pro dono do bar, que sem abrir a boca colocou a mistura no copo e voltou a se sentar, calado.

O tempo ali não andava como lá fora.

Parecia que todos os demônios de todas as religiões marcavam encontro ali, desde a eternidade.

Sentei-me e passei a olhar com um certo desconforto para a figura que arranhava as cordas.

De vez em quando alguém saía do banheiro sem que eu tivesse visto entrar, ninguém conversava, nenhuma palavra.

As notas cambaleantes espantavam o silêncio como uma prece mal resolvida.

Pedi outro bombeirinho e mais outro.

Espremi os olhos, nesse momento toda a atmosfera ficou mais quente e um cheiro forte estacionou no ar.

Uma névoa pesada preenchia cada minúsculo canto e uma pequena luz, fraca e tremida, se movia até o palco.

Nesse instante ouvi uma voz longínqua, como que saída de um antigo disco de cera, percebi ser Robert Johnson cantando Crossroads blues, o som parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo e em lugar nenhum.

Não saía dos alto falantes, apenas existia, flutuante.

Aos poucos vi a figura imponente sentada em uma cadeira de plástico, o negro de aparência fantasmagórica dedilhava o violão envolto por uma aura amarelada e ao seu redor todo o peso de séculos desfilavam com gemidos abafados.

Olhei para os lados e todos estavam distraídos.

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Luciano Pires
O tempo é uma velha decrépita

A noite era fria, congelante, daquelas que quem não fuma fica brincando de soltar fumaça pelo canto da boca, feito vapor.

No posto de gasolina não tinha nenhum frentista, todos escondidos, abrigados, encolhidos, fora de visão.

Comprei duas heinekens, paguei pela janelinha, bebi a primeira quase de imediato e fui caminhando para o bar com a segunda long neck na mão, parecia um daqueles velhos robôs dos antigos filmes, camadas de roupas e agasalhos e cachecol e touca, os olhos lacrimejando com o vento cortante.

Desci as escadas, em cada degrau havia uma vela acesa tremendo de frio.

Um instrumento desafinado projetava notas quebradas e desfiguradas pelo ambiente, havia apenas uma pessoa quase adormecida no balcão e um velho estático segurando um violão.

Pedi um bombeirinho pro dono do bar, que sem abrir a boca colocou a mistura no copo e voltou a se sentar, calado.

O tempo ali não andava como lá fora.

Parecia que todos os demônios de todas as religiões marcavam encontro ali, desde a eternidade.

Sentei-me e passei a olhar com um certo desconforto para a figura que arranhava as cordas.

De vez em quando alguém saía do banheiro sem que eu tivesse visto entrar, ninguém conversava, nenhuma palavra.

As notas cambaleantes espantavam o silêncio como uma prece mal resolvida.

Pedi outro bombeirinho e mais outro.

Espremi os olhos, nesse momento toda a atmosfera ficou mais quente e um cheiro forte estacionou no ar.

Uma névoa pesada preenchia cada minúsculo canto e uma pequena luz, fraca e tremida, se movia até o palco.

Nesse instante ouvi uma voz longínqua, como que saída de um antigo disco de cera, percebi ser Robert Johnson cantando Crossroads blues, o som parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo e em lugar nenhum.

Não saía dos alto falantes, apenas existia, flutuante.

Aos poucos vi a figura imponente sentada em uma cadeira de plástico, o negro de aparência fantasmagórica dedilhava o violão envolto por uma aura amarelada e ao seu redor todo o peso de séculos desfilavam com gemidos abafados.

Olhei para os lados e todos estavam distraídos.

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