Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





De quem, o grito?

     Naquela estranha manhã Antônio Lampert acordou-se com uma inquietude a descambar paradoxalmente a uma paz interior inexplicável, uma total ataraxia. Vinham as preocupações, ainda assim uma placidez lhe consolava a alma. Em rompantes fugidios havia um bruxuleio em seu discernimento com uma nota sinistra. Era uma dor fugace, contudo uma angústia longínqua, como algo desconhecido e perigoso no fundo de um lago pútrido, mais imaginado do que comprovado, porém com indícios de existir concretamente lá. O esforço de captar a sensação pouco lhe trazia um lampejo de horror, mas de rápido desvanecimento. Nunca o seu espírito conturbado com tão variada gama de problemas e preocupações sentiu-se tão solto, tão à vontade, tão livre e até mesmo com o senso de as vivências aflitivas e consternadoras não passarem de um simplório déjà-vue, fruto da mais ridícula e inofensiva quimera, ou, no mais raso dos raciocínios, fruto único de sua paranóica imaginação.

     Aguçou as oiças, esfregando os cansados olhos, fixos com esforço à janela do quarto, com a atenção no toalete à cata de algum ruído, percebendo o travesseiro vazio ao lado… Tudo penumbroso, espalto, sombrio.

     Era morador de um sobrado em avenida bastante movimentada. No entanto, naquele estranho alvorecer, a colaborar com sua angustiante pasmaceira, nem um único sibilo do terrível trânsito que o acordava sobressaltado todas as manhãs ele percebia. Não esquecendo o chilreio dos pássaros desde o raiar da aurora a regerem uma orquestra no grande jardim da residência. Absolutamente nada de pássaros nem de qualquer outro inseto capaz de produzir som audível. E os olhos? Será que?… Sabia histórias de descolamento de retina durante a noite e a vítima invadir-se de pânico ao acordar. Entretanto ele enxergava um tênue brilho desenhado pela cortina do quarto, delimitando os contornos da janela. Divisou o cintilar fosco proveniente do banheiro, a despeito do opressivo silêncio… Convenceu-se, na débil claridade do aposento, que o travesseiro da esposa não fora tocado. Portanto, era fácil concluir não haver dano de seus sentidos… Mas tinha dúvidas num possível embotamento, numa diminuição significativa.

     Sua apreensão começou a aumentar produzindo-lhe um suor gelado em torno do pescoço, espraiando-se pelo tórax, reiniciando nas extremidades. – Não estou cego, mas estou surdo! – gritou. Ou foi imaginação o grito?, pois não ouviu o som da voz, apenas um reboo desagradável como um eco longínquo na abóbada craniana.

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Luiz Nicanor
De quem, o grito?

     Naquela estranha manhã Antônio Lampert acordou-se com uma inquietude a descambar paradoxalmente a uma paz interior inexplicável, uma total ataraxia. Vinham as preocupações, ainda assim uma placidez lhe consolava a alma. Em rompantes fugidios havia um bruxuleio em seu discernimento com uma nota sinistra. Era uma dor fugace, contudo uma angústia longínqua, como algo desconhecido e perigoso no fundo de um lago pútrido, mais imaginado do que comprovado, porém com indícios de existir concretamente lá. O esforço de captar a sensação pouco lhe trazia um lampejo de horror, mas de rápido desvanecimento. Nunca o seu espírito conturbado com tão variada gama de problemas e preocupações sentiu-se tão solto, tão à vontade, tão livre e até mesmo com o senso de as vivências aflitivas e consternadoras não passarem de um simplório déjà-vue, fruto da mais ridícula e inofensiva quimera, ou, no mais raso dos raciocínios, fruto único de sua paranóica imaginação.

     Aguçou as oiças, esfregando os cansados olhos, fixos com esforço à janela do quarto, com a atenção no toalete à cata de algum ruído, percebendo o travesseiro vazio ao lado… Tudo penumbroso, espalto, sombrio.

     Era morador de um sobrado em avenida bastante movimentada. No entanto, naquele estranho alvorecer, a colaborar com sua angustiante pasmaceira, nem um único sibilo do terrível trânsito que o acordava sobressaltado todas as manhãs ele percebia. Não esquecendo o chilreio dos pássaros desde o raiar da aurora a regerem uma orquestra no grande jardim da residência. Absolutamente nada de pássaros nem de qualquer outro inseto capaz de produzir som audível. E os olhos? Será que?… Sabia histórias de descolamento de retina durante a noite e a vítima invadir-se de pânico ao acordar. Entretanto ele enxergava um tênue brilho desenhado pela cortina do quarto, delimitando os contornos da janela. Divisou o cintilar fosco proveniente do banheiro, a despeito do opressivo silêncio… Convenceu-se, na débil claridade do aposento, que o travesseiro da esposa não fora tocado. Portanto, era fácil concluir não haver dano de seus sentidos… Mas tinha dúvidas num possível embotamento, numa diminuição significativa.

     Sua apreensão começou a aumentar produzindo-lhe um suor gelado em torno do pescoço, espraiando-se pelo tórax, reiniciando nas extremidades. – Não estou cego, mas estou surdo! – gritou. Ou foi imaginação o grito?, pois não ouviu o som da voz, apenas um reboo desagradável como um eco longínquo na abóbada craniana.

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