Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





De quem, o grito?

     Tinham quatro filhos, três homens e uma mulher.

     Aline, o mais velho, 25 anos, tratada com todo o carinho e exagero possível. Mas, iniciando a enumeração dos desgostos de Antônio Lampert, a filha não fugia da lista. Vivera com um namorado inimigo do trabalho, sustentado por mesada, carro e apartamento por conta do sogro… E, o mais patético ainda, quando Aline engravidou, o patife, além de roubar tudo o que pôde, desapareceu sem o mínimo vestígio. Aline não eriçou uma única pena; e, na maior das friezas, ainda submeteu-se a um aborto e livrou-se da descendência do calhorda garantindo nenhum laço mais existir entre eles. A todas as dores impostas a Antônio, ainda somou-se a espera da chegada de um neto, porém a mãe desalmada, na maior insensibilidade, desfez-se dele…

     Os dois filhos seguintes, João Inácio e João Aleixo, de 24 e 23 anos, com nomes montados de acordo com as avós maternas, não fugiam à regra de encompridar a lista de distúrbios. Ambos, terminados os primeiros estudos, para manter o status, exigiram dos pais cursos no estrangeiro, sem nenhum outro empecilho além de algum bate-boca e o choro da mãe. Havia dois anos estavam em Paris, com vida farta e regalada, só interrompida quando mais um terrível choque desceu como um ivirapema no crânio já bem malhado do pobre Lampert. Fora obrigado a mover céus e terras e assim impedir a prisão dos filhos envolvidos com tráfico e uso de drogas. Conseguiu expatriá-los e agora estavam em severo tratamento aqui no Brasil e sem nenhum bom prognóstico de um dia se tornarem cidadãos úteis à sociedade.

     O caçula, João Aloísio, de 18 anos, muito estudioso e sempre em companhia dos pais, também há cerca de seis meses quase matou a família de susto. Ao sair de uma festa com a namorada, já bastante alcoolizado, foi o responsável por um terrível acidente com o seu conversível; a namorada faleceu na hora e ele encontra-se em cadeira de rodas, por fratura da espinha dorsal.

     E além de milhares de outros pequenos dissabores, o dia de ontem culminou tudo; ao chegar cedo ao trabalho, a terrível notícia: todos os seus negócios estavam falidos; a quase totalidade dos seus bens fora à penhora para salvá-lo da total ruína e assim mesmo só lhe daria o gosto de distribuir uma simples vela a cada santo.

     Antônio Lampert sentiu o mundo desvanecer sob os pés quando soube do fato. Acordou-se no meio da tarde numa cama de hospital.

     – O que houve? Alguém pode me explicar? – gritou aparvalhado, sentando-se rápido na cama.

     A esposa, acompanhante, tentou detê-lo:

     – Calma, Antônio, calma; tu desmaiou, ficou muito tempo desacordado.

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Luiz Nicanor
De quem, o grito?

     Tinham quatro filhos, três homens e uma mulher.

     Aline, o mais velho, 25 anos, tratada com todo o carinho e exagero possível. Mas, iniciando a enumeração dos desgostos de Antônio Lampert, a filha não fugia da lista. Vivera com um namorado inimigo do trabalho, sustentado por mesada, carro e apartamento por conta do sogro… E, o mais patético ainda, quando Aline engravidou, o patife, além de roubar tudo o que pôde, desapareceu sem o mínimo vestígio. Aline não eriçou uma única pena; e, na maior das friezas, ainda submeteu-se a um aborto e livrou-se da descendência do calhorda garantindo nenhum laço mais existir entre eles. A todas as dores impostas a Antônio, ainda somou-se a espera da chegada de um neto, porém a mãe desalmada, na maior insensibilidade, desfez-se dele…

     Os dois filhos seguintes, João Inácio e João Aleixo, de 24 e 23 anos, com nomes montados de acordo com as avós maternas, não fugiam à regra de encompridar a lista de distúrbios. Ambos, terminados os primeiros estudos, para manter o status, exigiram dos pais cursos no estrangeiro, sem nenhum outro empecilho além de algum bate-boca e o choro da mãe. Havia dois anos estavam em Paris, com vida farta e regalada, só interrompida quando mais um terrível choque desceu como um ivirapema no crânio já bem malhado do pobre Lampert. Fora obrigado a mover céus e terras e assim impedir a prisão dos filhos envolvidos com tráfico e uso de drogas. Conseguiu expatriá-los e agora estavam em severo tratamento aqui no Brasil e sem nenhum bom prognóstico de um dia se tornarem cidadãos úteis à sociedade.

     O caçula, João Aloísio, de 18 anos, muito estudioso e sempre em companhia dos pais, também há cerca de seis meses quase matou a família de susto. Ao sair de uma festa com a namorada, já bastante alcoolizado, foi o responsável por um terrível acidente com o seu conversível; a namorada faleceu na hora e ele encontra-se em cadeira de rodas, por fratura da espinha dorsal.

     E além de milhares de outros pequenos dissabores, o dia de ontem culminou tudo; ao chegar cedo ao trabalho, a terrível notícia: todos os seus negócios estavam falidos; a quase totalidade dos seus bens fora à penhora para salvá-lo da total ruína e assim mesmo só lhe daria o gosto de distribuir uma simples vela a cada santo.

     Antônio Lampert sentiu o mundo desvanecer sob os pés quando soube do fato. Acordou-se no meio da tarde numa cama de hospital.

     – O que houve? Alguém pode me explicar? – gritou aparvalhado, sentando-se rápido na cama.

     A esposa, acompanhante, tentou detê-lo:

     – Calma, Antônio, calma; tu desmaiou, ficou muito tempo desacordado.

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