O Enforcamento - Luiz Nicanor
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O Enforcamento

     – Tu não estás falando sério? Queres mesmo que eu retire a cadeira?

     – Claro! E quero também que tu me amarres as mãos às costas. Trouxe cordas. Assim a sensação será perfeitamente real!

     – E como vou saber quando botar a cadeira?

     – Ora! Tu ficas perto. É só tu notares eu ter alguma falta de ar ou dar algum sinal e colocas logo a cadeira… Depois vamos ao porão atrás dos caixões. Com as velas acesas em volta tu vais parecer um cadáver…

     – De jeito nenhum! – berrou ela. – Isso eu não aceito em hipótese alguma!

     – Ora! – gritou ele. – Qual o problema? Meu plano era fazermos isso num cemitério, à meia noite.

     – Decididamente eu estou diante de um louco. Mas juro por tudo de mais sagrado ser esta a última vez que eu participo das tuas maluquices. E mais uma: amanhã mesmo vamos embora!  Não fico nem mais um dia aqui!

     – Está bem! Está bem!… Então vou mudar os planos. Depois de me enforcar, tu vais para a máquina e descreve as minhas sensações, meus gritos, meus trejeitos, os movimentos do meu corpo, tudo que tu vires de anormal… Aí eu me aproximo sorrateiro e te estrangulo. Grudo as mãos no teu pescoço e vou vagarosamente te cortando o ar. Quando tu começares a ficar roxa, eu te solto e tu me ditas as sensações de ser asfixiada…

     – De jeito nenhum! De jeito nenhum!… E quer saber de uma coisa: não faço mais nada! Quer te enforcar te enforques por conta própria. E mais uma, depois vamos embora daqui hoje mesmo, não importa a noite e a estrada ruim! Tu estás louco!

     – Calma, mulher, calma… Vou já preparar a forca. Trouxe uma corda bem forte…

     Sem dar atenção aos protestos de Letícia, subiu correndo e assobiando as escadas com degraus esburacados e preparou, com alguma dificuldade, a corda, a qual transvestiu-se de uma aparência assustadora com a luz da lua de um lado e o das velas de outro, distribuindo sombras com aspectos de vivas e pegajosas pelas paredes. Empoleirado na cadeira, mediu a altura, colocando o laço no pescoço. Tudo a contento. Agora era só amarrar as mãos às costas e sentir de Letícia a retirada paulatina da cadeira para ele ter a experiência da proximidade da morte, contemplando a vastidão soturna lá fora, entrando em ressonância com os fantasmas…

     – Tudo pronto, Letícia. Venha amarrar as minhas mãos! – falou ele de cima, com o laço no pescoço, cuja voz retumbou pelos aposentos como se dentro de uma sepultura.

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Luiz Nicanor
O Enforcamento

     – Tu não estás falando sério? Queres mesmo que eu retire a cadeira?

     – Claro! E quero também que tu me amarres as mãos às costas. Trouxe cordas. Assim a sensação será perfeitamente real!

     – E como vou saber quando botar a cadeira?

     – Ora! Tu ficas perto. É só tu notares eu ter alguma falta de ar ou dar algum sinal e colocas logo a cadeira… Depois vamos ao porão atrás dos caixões. Com as velas acesas em volta tu vais parecer um cadáver…

     – De jeito nenhum! – berrou ela. – Isso eu não aceito em hipótese alguma!

     – Ora! – gritou ele. – Qual o problema? Meu plano era fazermos isso num cemitério, à meia noite.

     – Decididamente eu estou diante de um louco. Mas juro por tudo de mais sagrado ser esta a última vez que eu participo das tuas maluquices. E mais uma: amanhã mesmo vamos embora!  Não fico nem mais um dia aqui!

     – Está bem! Está bem!… Então vou mudar os planos. Depois de me enforcar, tu vais para a máquina e descreve as minhas sensações, meus gritos, meus trejeitos, os movimentos do meu corpo, tudo que tu vires de anormal… Aí eu me aproximo sorrateiro e te estrangulo. Grudo as mãos no teu pescoço e vou vagarosamente te cortando o ar. Quando tu começares a ficar roxa, eu te solto e tu me ditas as sensações de ser asfixiada…

     – De jeito nenhum! De jeito nenhum!… E quer saber de uma coisa: não faço mais nada! Quer te enforcar te enforques por conta própria. E mais uma, depois vamos embora daqui hoje mesmo, não importa a noite e a estrada ruim! Tu estás louco!

     – Calma, mulher, calma… Vou já preparar a forca. Trouxe uma corda bem forte…

     Sem dar atenção aos protestos de Letícia, subiu correndo e assobiando as escadas com degraus esburacados e preparou, com alguma dificuldade, a corda, a qual transvestiu-se de uma aparência assustadora com a luz da lua de um lado e o das velas de outro, distribuindo sombras com aspectos de vivas e pegajosas pelas paredes. Empoleirado na cadeira, mediu a altura, colocando o laço no pescoço. Tudo a contento. Agora era só amarrar as mãos às costas e sentir de Letícia a retirada paulatina da cadeira para ele ter a experiência da proximidade da morte, contemplando a vastidão soturna lá fora, entrando em ressonância com os fantasmas…

     – Tudo pronto, Letícia. Venha amarrar as minhas mãos! – falou ele de cima, com o laço no pescoço, cuja voz retumbou pelos aposentos como se dentro de uma sepultura.

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