O Enforcamento - Luiz Nicanor
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O Enforcamento

     Letícia sentiu um pavor incrível pelo som daquela voz tão aziaga e diferente. Ela quis mandá-lo descer e amarrá-lo embaixo, porém resolveu não falar nada e subiu junto dele, onde estava a cadeira. Ela percebeu-lhe com um brilho pavoroso no olhar atando-o rapidamente. Pedro suplicou que ela ajeitasse melhor o laço da forca no pescoço e puxasse a cadeira.

     – Pode puxar a cadeira agora! – tornou ele, com aquela mesma voz soturna.

     Letícia, atarantada, levou as duas mãos aos pés da cadeira, puxou com força para vencer o peso dele e, com efeito, conseguiu retirar a mesma. Ele sofreu um estirão incrível no cachaço e seu corpo foi repuxado com um peso jamais intuído. Girou como um pião de um lado para o outro, sentindo uma asfixia do demônio e uma dor insana junto às vértebras, como se os ossos estivessem sendo estraçalhados, mais a certeza de a cabeça ser imediatamente decepada.

    – Chega! Chega! – grunhiu ele. – A cadeira…

     E balançou os pés atabalhoadamente com movimentos rápidos e catatônicos, como se pedalando freneticamente uma bicicleta invisível, à procura urgente de um apoio, sentindo os esfíncteres se abrirem quais comportas e urina e fezes correram dentro da roupa, de um modo jamais imaginado.

     Letícia o encarou imperturbável:

     – Não! – gritou ela. – Esta é a chance que eu tenho para me livrar de ti, seu doido varrido!

     – Pe… pe…  lo amor de… – balbuciou ele num ronco de glote onde o ar não entrava mais.

     – Eu não te aguento mais, entendeu! Há um bom tempo eu tenho dois amantes, cada um melhor que o outro. Um deles prometeu casar comigo se eu ficasse viúva, e, enfim, chegou a hora. Tu mesmo inventaste esta loucura. Depois eu solto os teus braços e todos pensarão que foi suicídio. Tu já eras visto como louco por muita gente…

     No entanto, Pedro não ouvia mais nada – estrebuchou na corda. Ela retirou-se soltando um estridente gargalhar histérico.

     – Agora eu vou escrever uma história de terror! – disse transfigurada. – Eu vou receber todo o dinheirão do livro, porque o editor vai pensar que tu és o autor. Ficarei com o dinheiro e livre de ti, seu desgraçado! Vou agora mesmo embora daqui. A lua está bem clara e não será difícil achar o caminho!

     E correndo de posse apenas da mala, procurou as chaves do carro e saiu para a rua, esquecendo as mãos de Pedro amarradas. Um frio de gelo lhe entorpeceu a espinha quando ela saiu. A noite estava terrível. De repente uma nuvem encobriu a lua e a escuridão foi total, apenas algum luzir de vaga-lume mostrava o negror não ser constante.

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Luiz Nicanor
O Enforcamento

     Letícia sentiu um pavor incrível pelo som daquela voz tão aziaga e diferente. Ela quis mandá-lo descer e amarrá-lo embaixo, porém resolveu não falar nada e subiu junto dele, onde estava a cadeira. Ela percebeu-lhe com um brilho pavoroso no olhar atando-o rapidamente. Pedro suplicou que ela ajeitasse melhor o laço da forca no pescoço e puxasse a cadeira.

     – Pode puxar a cadeira agora! – tornou ele, com aquela mesma voz soturna.

     Letícia, atarantada, levou as duas mãos aos pés da cadeira, puxou com força para vencer o peso dele e, com efeito, conseguiu retirar a mesma. Ele sofreu um estirão incrível no cachaço e seu corpo foi repuxado com um peso jamais intuído. Girou como um pião de um lado para o outro, sentindo uma asfixia do demônio e uma dor insana junto às vértebras, como se os ossos estivessem sendo estraçalhados, mais a certeza de a cabeça ser imediatamente decepada.

    – Chega! Chega! – grunhiu ele. – A cadeira…

     E balançou os pés atabalhoadamente com movimentos rápidos e catatônicos, como se pedalando freneticamente uma bicicleta invisível, à procura urgente de um apoio, sentindo os esfíncteres se abrirem quais comportas e urina e fezes correram dentro da roupa, de um modo jamais imaginado.

     Letícia o encarou imperturbável:

     – Não! – gritou ela. – Esta é a chance que eu tenho para me livrar de ti, seu doido varrido!

     – Pe… pe…  lo amor de… – balbuciou ele num ronco de glote onde o ar não entrava mais.

     – Eu não te aguento mais, entendeu! Há um bom tempo eu tenho dois amantes, cada um melhor que o outro. Um deles prometeu casar comigo se eu ficasse viúva, e, enfim, chegou a hora. Tu mesmo inventaste esta loucura. Depois eu solto os teus braços e todos pensarão que foi suicídio. Tu já eras visto como louco por muita gente…

     No entanto, Pedro não ouvia mais nada – estrebuchou na corda. Ela retirou-se soltando um estridente gargalhar histérico.

     – Agora eu vou escrever uma história de terror! – disse transfigurada. – Eu vou receber todo o dinheirão do livro, porque o editor vai pensar que tu és o autor. Ficarei com o dinheiro e livre de ti, seu desgraçado! Vou agora mesmo embora daqui. A lua está bem clara e não será difícil achar o caminho!

     E correndo de posse apenas da mala, procurou as chaves do carro e saiu para a rua, esquecendo as mãos de Pedro amarradas. Um frio de gelo lhe entorpeceu a espinha quando ela saiu. A noite estava terrível. De repente uma nuvem encobriu a lua e a escuridão foi total, apenas algum luzir de vaga-lume mostrava o negror não ser constante.

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