O Enforcamento - Luiz Nicanor
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O Enforcamento

     – E por que esta tal de casa é chamada de castelinho?

     – Porque foi construída no alto de uma colina, os fundos fazendo limite com um precipício. É como um castelo roqueiro da Idade Média. O local é totalmente cercado de mata nativa e dizem ser o mesmo assombrado. É moradia permanente de fantasmas!

     – Tu perdeste mesmo o juízo! Por acaso tu pensas eu não saber nada a respeito daquela casa? O fato é até folclórico.

     – Sabes? – Ele voltou-se vivamente a ela fazendo o carro bater numa série de arbustos às margens do caminho. – O que tu sabes?

     – Bem, eu sei, de comentários de meus avôs, que Deus os tenha, aquela casa foi construída ainda no tempo do Império por um conde francês, ou holandês, ou português, não me lembro bem, e o mesmo teve um filho meio pirado, fraco da bola, porém o tal era o degas, o disputado.  O famoso filho, maior partido nos saraus e nas quadrilhas, casou e teve duas filhas, mas soube que as filhas não eram dele. Soube mais ainda, a esposa o escolhera apenas pela posição dele, todos sabiam ele não bater bem da telha e sua mulher mantinha um caso escondido com um simplório empregado, como solução do problema sexual dela. O fâmulo era um moço pobre, mas bem apessoado. De vingança ele encarcerou a esposa viva num paredão da casa, junto com dois gatos do mato, deixados em cativeiro por mais de uma semana sem água nem comida… Ele deu algum narcótico para a mulher e quando a mesma acordou estava trancada num cubículo escuro com os dois gatos loucos… Três dias depois o maluco teria derrubado a parede e a cena era dantesca. A mulher estava completamente estraçalhada pelos gatos, os quais chegaram até a comer partes do corpo dela. Entretanto, na luta horrenda, os gatos também morreram de tanto ela bater com a cabeça dos dois felinos contra a parede, na tentativa de se defender, nos estertores da morte. Não sei se foi infecção pela perda de partes do corpo, pelos inúmeros arranhões e mordidas, falta de ar, mas a mulher morreu. Quando as filhas chegaram a casa (se não me engano estavam em viagem pela Europa) o pai as mandou descerem ao porão à procura da mãe, que as esperava lá embaixo. Elas levaram o maior susto do mundo e correram ao pai em desespero, no entanto o pai mantinha um sorriso sinistro e de repente, sem mais nem menos, trespassou as duas na espada. Isso é tudo o que eu sei. Aliás, soube também que os herdeiros do castelinho não conseguiram viver nem um dia ali: sempre havia algum episódio de assombração. Falava-se até em fantasmas de gatos! Só não sabia deste nome de castelinho!

     – Tu sabes mais ou menos as mesmas coisas que eu sei.

     – E agora então, mesmo já estando a caminho, a pergunta básica, séria, sem enrolação: o que é que nós vamos fazer lá? Entrevistar algum fantasma?

     Enquanto patinava numa poça, soltou uma risada forçada e sinistra, histérica, imitando um personagem de filme de terror:

     – Tenho planos! Mirabolantes planos! Estupendos planos!

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Luiz Nicanor
O Enforcamento

     – E por que esta tal de casa é chamada de castelinho?

     – Porque foi construída no alto de uma colina, os fundos fazendo limite com um precipício. É como um castelo roqueiro da Idade Média. O local é totalmente cercado de mata nativa e dizem ser o mesmo assombrado. É moradia permanente de fantasmas!

     – Tu perdeste mesmo o juízo! Por acaso tu pensas eu não saber nada a respeito daquela casa? O fato é até folclórico.

     – Sabes? – Ele voltou-se vivamente a ela fazendo o carro bater numa série de arbustos às margens do caminho. – O que tu sabes?

     – Bem, eu sei, de comentários de meus avôs, que Deus os tenha, aquela casa foi construída ainda no tempo do Império por um conde francês, ou holandês, ou português, não me lembro bem, e o mesmo teve um filho meio pirado, fraco da bola, porém o tal era o degas, o disputado.  O famoso filho, maior partido nos saraus e nas quadrilhas, casou e teve duas filhas, mas soube que as filhas não eram dele. Soube mais ainda, a esposa o escolhera apenas pela posição dele, todos sabiam ele não bater bem da telha e sua mulher mantinha um caso escondido com um simplório empregado, como solução do problema sexual dela. O fâmulo era um moço pobre, mas bem apessoado. De vingança ele encarcerou a esposa viva num paredão da casa, junto com dois gatos do mato, deixados em cativeiro por mais de uma semana sem água nem comida… Ele deu algum narcótico para a mulher e quando a mesma acordou estava trancada num cubículo escuro com os dois gatos loucos… Três dias depois o maluco teria derrubado a parede e a cena era dantesca. A mulher estava completamente estraçalhada pelos gatos, os quais chegaram até a comer partes do corpo dela. Entretanto, na luta horrenda, os gatos também morreram de tanto ela bater com a cabeça dos dois felinos contra a parede, na tentativa de se defender, nos estertores da morte. Não sei se foi infecção pela perda de partes do corpo, pelos inúmeros arranhões e mordidas, falta de ar, mas a mulher morreu. Quando as filhas chegaram a casa (se não me engano estavam em viagem pela Europa) o pai as mandou descerem ao porão à procura da mãe, que as esperava lá embaixo. Elas levaram o maior susto do mundo e correram ao pai em desespero, no entanto o pai mantinha um sorriso sinistro e de repente, sem mais nem menos, trespassou as duas na espada. Isso é tudo o que eu sei. Aliás, soube também que os herdeiros do castelinho não conseguiram viver nem um dia ali: sempre havia algum episódio de assombração. Falava-se até em fantasmas de gatos! Só não sabia deste nome de castelinho!

     – Tu sabes mais ou menos as mesmas coisas que eu sei.

     – E agora então, mesmo já estando a caminho, a pergunta básica, séria, sem enrolação: o que é que nós vamos fazer lá? Entrevistar algum fantasma?

     Enquanto patinava numa poça, soltou uma risada forçada e sinistra, histérica, imitando um personagem de filme de terror:

     – Tenho planos! Mirabolantes planos! Estupendos planos!

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