O Enforcamento - Luiz Nicanor
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O Enforcamento

     A esposa, Letícia Maria Oliveira, 35 anos, sem filhos, alta e bonita, muito vistosa, antes a frequentar inúmeras festas, sentia-se burlada, tolhida, na sua vida de dissipação e mundanismo, sempre sendo o alvo da disputa de muitos homens, com a devida discrição para não comprometer o casamento. E o entrave a sua convivência social não era a falta de dinheiro, senão que o marido, quando se imbuía de escrever um livro, passava os dias e as noites, durante as semanas e os fins de semana, a rabiscar papéis e a datilografar como um maníaco depressivo, a corrigir e a destruir as laudas uma centena de vezes, a sair à noite, principalmente nas madrugadas, a percorrer cemitérios, a visitar o necrotério local, a assistir às cremações, exumações quando aconteciam e outro tanto de tempo ficava no IML deleitando-se com as mortes violentas.

     Essa rotina nunca era inferior a um ano, até a conclusão do livro. Parava uns dois meses e já começava com o plano de outro.

     Até aí a tolerância de Letícia suportou, isto quanto às excentricidades do marido, não quanto à perda do brilhantismo social.

     Esse fato representava uma dor maior em sua vida, uma sensação terrível de tempo perdido, tempo jamais recuperado, mesmo através de bruxaria…

     Então Letícia resolveu a falta de contato social, a premência de ser cortejada, de ouvir piadinhas picantes ao pé do ouvido, de receber comentários maliciosos da beleza dela e dos prazeres que ela poderia dar, sobre os seus dotes de satisfazer os homens, arranjando dois amantes, em cidades diversas, para ocasiões diferentes…

     Resolvido este problema, ouvindo a conversa maliciosa dos mesmos, deleitando-se sexualmente com eles, conseguia contornar as perdas sociais e em casa… Mas então as excentricidades do marido pioraram: ele resolveu viver cenas semelhantes com as escritas! “A melhor maneira de escrever uma cena é viver as emoções reais antes!” – dizia convicto.

     A primeira vez que ele praticou uma das cenas do novo livro, ela quase perdeu a cabeça. Era o conto “O Suicídio”, sobre um marido inconformado de a esposa ter amantes e decidiu, como vingança, de acordo com o título, suicidar-se. Subiria na torre da igreja matriz, na hora de uma das missas mais movimentadas e se jogaria nas lajes lá embaixo, com um cartaz preso ao pescoço: Minha esposa é adúltera. Ela matou-me.

     Ao ler as primeiras páginas do conto, vendo o esposo muito enigmático e arredio, ela não pôde evitar a suspeita de sua vida galante não ser mais segredo. E mais preocupada ficou quando percebeu, num entardecer de sábado, Pedro deixar a casa furtivo em direção à igreja matriz, com um cartaz enrolado. Estranhou aquela saída antes da missa e resolveu segui-lo. Quase meia hora depois o enxergou aparecer na janela da torre mais alta, esboçando um esgar sinistro como se soltasse uma gargalhada e pondo-se de pé no parapeito. Letícia abriu os braços e engasgou-se com um grito quando acompanhou o corpo de Pedro desabar no espaço. Ela foi tomada de uma vertigem e um desmaio. Quando deu acordo de si, o marido lhe dava um copo d’água dentro da igreja. Explicou que havia um acerto prévio com o pessoal do corpo de bombeiros o apararem lá embaixo, do outro lado da escadaria da frente, para não chamar a atenção de ninguém, alegando um treino especial, um exercício de como abrir paraquedas e outros detalhes, entretanto ela não quis saber de mais nada a respeito.

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Luiz Nicanor
O Enforcamento

     A esposa, Letícia Maria Oliveira, 35 anos, sem filhos, alta e bonita, muito vistosa, antes a frequentar inúmeras festas, sentia-se burlada, tolhida, na sua vida de dissipação e mundanismo, sempre sendo o alvo da disputa de muitos homens, com a devida discrição para não comprometer o casamento. E o entrave a sua convivência social não era a falta de dinheiro, senão que o marido, quando se imbuía de escrever um livro, passava os dias e as noites, durante as semanas e os fins de semana, a rabiscar papéis e a datilografar como um maníaco depressivo, a corrigir e a destruir as laudas uma centena de vezes, a sair à noite, principalmente nas madrugadas, a percorrer cemitérios, a visitar o necrotério local, a assistir às cremações, exumações quando aconteciam e outro tanto de tempo ficava no IML deleitando-se com as mortes violentas.

     Essa rotina nunca era inferior a um ano, até a conclusão do livro. Parava uns dois meses e já começava com o plano de outro.

     Até aí a tolerância de Letícia suportou, isto quanto às excentricidades do marido, não quanto à perda do brilhantismo social.

     Esse fato representava uma dor maior em sua vida, uma sensação terrível de tempo perdido, tempo jamais recuperado, mesmo através de bruxaria…

     Então Letícia resolveu a falta de contato social, a premência de ser cortejada, de ouvir piadinhas picantes ao pé do ouvido, de receber comentários maliciosos da beleza dela e dos prazeres que ela poderia dar, sobre os seus dotes de satisfazer os homens, arranjando dois amantes, em cidades diversas, para ocasiões diferentes…

     Resolvido este problema, ouvindo a conversa maliciosa dos mesmos, deleitando-se sexualmente com eles, conseguia contornar as perdas sociais e em casa… Mas então as excentricidades do marido pioraram: ele resolveu viver cenas semelhantes com as escritas! “A melhor maneira de escrever uma cena é viver as emoções reais antes!” – dizia convicto.

     A primeira vez que ele praticou uma das cenas do novo livro, ela quase perdeu a cabeça. Era o conto “O Suicídio”, sobre um marido inconformado de a esposa ter amantes e decidiu, como vingança, de acordo com o título, suicidar-se. Subiria na torre da igreja matriz, na hora de uma das missas mais movimentadas e se jogaria nas lajes lá embaixo, com um cartaz preso ao pescoço: Minha esposa é adúltera. Ela matou-me.

     Ao ler as primeiras páginas do conto, vendo o esposo muito enigmático e arredio, ela não pôde evitar a suspeita de sua vida galante não ser mais segredo. E mais preocupada ficou quando percebeu, num entardecer de sábado, Pedro deixar a casa furtivo em direção à igreja matriz, com um cartaz enrolado. Estranhou aquela saída antes da missa e resolveu segui-lo. Quase meia hora depois o enxergou aparecer na janela da torre mais alta, esboçando um esgar sinistro como se soltasse uma gargalhada e pondo-se de pé no parapeito. Letícia abriu os braços e engasgou-se com um grito quando acompanhou o corpo de Pedro desabar no espaço. Ela foi tomada de uma vertigem e um desmaio. Quando deu acordo de si, o marido lhe dava um copo d’água dentro da igreja. Explicou que havia um acerto prévio com o pessoal do corpo de bombeiros o apararem lá embaixo, do outro lado da escadaria da frente, para não chamar a atenção de ninguém, alegando um treino especial, um exercício de como abrir paraquedas e outros detalhes, entretanto ela não quis saber de mais nada a respeito.

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