O Enforcamento - Luiz Nicanor
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O Enforcamento

     – No conto, naturalmente, eu descreverei com mais minúcias e tensão. Com bastante suspense…

     – Tudo bem; e aonde eu entro nisso?

     – Aí é que está. Segundo fui informado, os caixões de madeira bruta e pintados de preto permanecem lá no porão. Tu de deitarás num deles e teremos uma relação sexual ali, à luz dos archotes!

     – Basta! – gritou ela indignada. – Isto está fora de qualquer cogitação!

     – É o que veremos!

     Ela começou a espumar de raiva, gritando a todo pulmão: – Isto é um ultraje, é coisa de tarado, de degenerado, de doente incurável, de…

     No entanto, o diálogo foi interrompido. Cruzaram sobre um alto capinzal, entre um grande e vetusto arvoredo e em frente estava em toda a sua pujança de terror e lendas o famoso castelinho, uma ruína maciça e ameaçadora. Era um prédio de três andares, sem nenhuma pintura, paredes extremamente zurzidas, falhas de reboco por todos os lados, trepadeiras e ninhos de passarinhos na totalidade dos cantos, janelas sem vidros nenhum, muitas repregadas e pedaços de madeiras velhas presas com arames cobriam parte do espaço. E, no alto, os torreões. A casa era cercada por um souto soturno, menos num dos flancos, onde havia a torre maior, pois se limitava em talhe abrupto com um medonho penhasco.

     Pedro estacionou na frente da casa. A tarde já estava nas últimas horas, com os derradeiros brilhos de um fim de dia. Ele e a esposa sentiram um aperto no coração e uma enorme angústia ao afastarem os matos e as inúmeras teias de aranha que atravancavam a porta principal da casa. Um recôndito medo os invadiu, junto à ideia de uma possível desgraça anunciada, ao adentrarem a medonha casa, já no início da volumosa noite, mesmo vendo a lua cheia a caminho, e defrontarem-se com almas errantes ou outros tipos de criaturas do mundo das trevas e da malignidade…

     Procurou no bolso a grande, preta e enferrujada chave, à qual, já com alguma dificuldade causada pela escuridão, introduziu na fechadura, após remover um entulho de barro produzido por insetos. Depois de forçar bastante, quase achando inútil o gesto, a chave conseguiu um mínimo de afastamento da lingueta, que mal obstruía a fechadura. Vários e ominosos estalos, junto com o ranger das charneiras, retiniram no ar, como se a porta estivesse sendo despregada do umbral, pela sujeira do tempo – e a mesma protestasse contra isso. Nada se via no interior, salvo alguns fachos da lua já se preparando para subir nos céus e alcançar as aberturas dos torreões lá no alto da casa, torreões esses com acesso apenas através de escadas da sala da frente. Portanto, via-se uma tênue e assustadora fosforescência no topo das escadarias, uma bruxuleante luminosidade num jogo tétrico de sombras.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Luiz Nicanor
O Enforcamento

     – No conto, naturalmente, eu descreverei com mais minúcias e tensão. Com bastante suspense…

     – Tudo bem; e aonde eu entro nisso?

     – Aí é que está. Segundo fui informado, os caixões de madeira bruta e pintados de preto permanecem lá no porão. Tu de deitarás num deles e teremos uma relação sexual ali, à luz dos archotes!

     – Basta! – gritou ela indignada. – Isto está fora de qualquer cogitação!

     – É o que veremos!

     Ela começou a espumar de raiva, gritando a todo pulmão: – Isto é um ultraje, é coisa de tarado, de degenerado, de doente incurável, de…

     No entanto, o diálogo foi interrompido. Cruzaram sobre um alto capinzal, entre um grande e vetusto arvoredo e em frente estava em toda a sua pujança de terror e lendas o famoso castelinho, uma ruína maciça e ameaçadora. Era um prédio de três andares, sem nenhuma pintura, paredes extremamente zurzidas, falhas de reboco por todos os lados, trepadeiras e ninhos de passarinhos na totalidade dos cantos, janelas sem vidros nenhum, muitas repregadas e pedaços de madeiras velhas presas com arames cobriam parte do espaço. E, no alto, os torreões. A casa era cercada por um souto soturno, menos num dos flancos, onde havia a torre maior, pois se limitava em talhe abrupto com um medonho penhasco.

     Pedro estacionou na frente da casa. A tarde já estava nas últimas horas, com os derradeiros brilhos de um fim de dia. Ele e a esposa sentiram um aperto no coração e uma enorme angústia ao afastarem os matos e as inúmeras teias de aranha que atravancavam a porta principal da casa. Um recôndito medo os invadiu, junto à ideia de uma possível desgraça anunciada, ao adentrarem a medonha casa, já no início da volumosa noite, mesmo vendo a lua cheia a caminho, e defrontarem-se com almas errantes ou outros tipos de criaturas do mundo das trevas e da malignidade…

     Procurou no bolso a grande, preta e enferrujada chave, à qual, já com alguma dificuldade causada pela escuridão, introduziu na fechadura, após remover um entulho de barro produzido por insetos. Depois de forçar bastante, quase achando inútil o gesto, a chave conseguiu um mínimo de afastamento da lingueta, que mal obstruía a fechadura. Vários e ominosos estalos, junto com o ranger das charneiras, retiniram no ar, como se a porta estivesse sendo despregada do umbral, pela sujeira do tempo – e a mesma protestasse contra isso. Nada se via no interior, salvo alguns fachos da lua já se preparando para subir nos céus e alcançar as aberturas dos torreões lá no alto da casa, torreões esses com acesso apenas através de escadas da sala da frente. Portanto, via-se uma tênue e assustadora fosforescência no topo das escadarias, uma bruxuleante luminosidade num jogo tétrico de sombras.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12