Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O outro eu

    Perguntando se eu já morri, a senhora quis dizer…

    Bem, eu não disse isso…

    Mas eu sei perfeitamente o que a senhora quis dizer! Desde a minha viuvez os meus três enteados estão rezando pela minha morte. Estão loucos para agadanharem a minha grana…

     Mas eles não trabalham?

    A senhora se torna até patética com esta mania de gentileza falsa! A senhora sabe muito bem que aqueles três alarifes sempre viveram às minhas custas! Nunca! mas nunca mesmo, botaram a mão no serviço. Como eu fui um cego apaixonado pela mãe deles, nunca dei bola para a vida perdulária dos mequetrefes. E agora, o que a senhora acha? Desde a minha viuvez, e já lá vão quatro anos, eles nunca mais me visitaram. Só telefonam se por algum motivo eu atraso o depósito das mesadas; e, como a senhora sabe, são três marmanjos na faixa dos vinte a trinta anos!

    Mas, imagino, eles vão herdar tudo…

    Só se eu modificar o testamento. Deixei documentado só um quarto dos meus bens para eles. Tenho outros parentes.

    A conversa ficou por aí porque Mirno Rupertius deu sinais de muito cansaço e a nova serviçal chegou para render a guarda, iniciar a faxina do dia, ou seja: barba, banho, remédios, troca de roupa de cama, trazer o jornal tal ou o livro tal, abrir alguma correspondência, levar o telefone ou o celular até ele, agendar alguma visita…

    Porém a única visita daquela manhã foi a do médico.

    Quais as minhas chances, doutor?

    Não quero ser pessimista, mas o senhor está sofrendo de uma doença degenerativa; a tendência é piorar…

    Trocando em miúdos: tenho pouco tempo de vida.

    Não me refiro bem a tempo de vida, mas à expectativa de vida.

    Não posso, então, caminhar, sair, namorar…

    Como já disse em outras ocasiões, a Medicina é uma caixa de surpresas…

    Não me venha com essas frescuras de tropos de linguagem. Quero um parecer concreto. Tenho muito a fazer e a realizar, mesmo sendo um aposentado perto dos setenta anos.

Páginas: 1 2 3 4 5 6

Luiz Nicanor
O outro eu

    Perguntando se eu já morri, a senhora quis dizer…

    Bem, eu não disse isso…

    Mas eu sei perfeitamente o que a senhora quis dizer! Desde a minha viuvez os meus três enteados estão rezando pela minha morte. Estão loucos para agadanharem a minha grana…

     Mas eles não trabalham?

    A senhora se torna até patética com esta mania de gentileza falsa! A senhora sabe muito bem que aqueles três alarifes sempre viveram às minhas custas! Nunca! mas nunca mesmo, botaram a mão no serviço. Como eu fui um cego apaixonado pela mãe deles, nunca dei bola para a vida perdulária dos mequetrefes. E agora, o que a senhora acha? Desde a minha viuvez, e já lá vão quatro anos, eles nunca mais me visitaram. Só telefonam se por algum motivo eu atraso o depósito das mesadas; e, como a senhora sabe, são três marmanjos na faixa dos vinte a trinta anos!

    Mas, imagino, eles vão herdar tudo…

    Só se eu modificar o testamento. Deixei documentado só um quarto dos meus bens para eles. Tenho outros parentes.

    A conversa ficou por aí porque Mirno Rupertius deu sinais de muito cansaço e a nova serviçal chegou para render a guarda, iniciar a faxina do dia, ou seja: barba, banho, remédios, troca de roupa de cama, trazer o jornal tal ou o livro tal, abrir alguma correspondência, levar o telefone ou o celular até ele, agendar alguma visita…

    Porém a única visita daquela manhã foi a do médico.

    Quais as minhas chances, doutor?

    Não quero ser pessimista, mas o senhor está sofrendo de uma doença degenerativa; a tendência é piorar…

    Trocando em miúdos: tenho pouco tempo de vida.

    Não me refiro bem a tempo de vida, mas à expectativa de vida.

    Não posso, então, caminhar, sair, namorar…

    Como já disse em outras ocasiões, a Medicina é uma caixa de surpresas…

    Não me venha com essas frescuras de tropos de linguagem. Quero um parecer concreto. Tenho muito a fazer e a realizar, mesmo sendo um aposentado perto dos setenta anos.

Páginas: 1 2 3 4 5 6