Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Luiz Nicanor
Luiz Nicanor Araújo da Silva nasceu em Santo Antônio da Patrulha em 8/4/1944.
Publicou nove livros desde 1980: Cinco volumes de poesias, três de contos e um de crônicas.
Em 2012 foi Patrono da Feira do Livro em nossa cidade.
Em 2015 foi escolhido pelo Mestre em Literatura Professor Eduardo Jablonski para a publicação de um livro: Biografia Literária de Luiz Nicanor.
Participou de diversos concursos literários, sendo duas vezes premiado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem e três vezes no Histórias de Trabalho, todos da Secretaria da Cultura de Porto Alegre.





O outro eu

    Infelizmente as suas chances são mínimas, sem contar ser o senhor um paciente impaciente, não faz as fisioterapias direito, não tolera as massagens… Isso aumentará a sua atrofia muscular…

    Chega, doutor, chega!… Não tolero essas massagens; sinto dores insuportáveis…

    O doutor se despediu e Mirno ficou entregue aos próprios pensamentos, por sinal cada vez mais lúgubres e apavorantes. Não teve coragem de contar sobre o seu sonho e sobre as roupas fora do armário, suspeitando de alguma armação entre a enfermeira daquela noite, ou de todas as enfermeiras, com os pestes dos enteados, loucos de vê-lo decolar de uma vez, na obrigatória viagem sem volta.

    O dia transcorreu sem maiores novidades.

    Após o frugal lanchinho da tarde, Mirno tomou o sonífero e foi ajeitado na cama pela enfermeira da noite. Mal ele percebeu o peso dos olhos e o sonho já se materializava. Levantou-se lépido, foi ao banheiro novamente escanhoar o rosto, fez a escolha cuidadosa de outro traje, vestiu-se a capricho, verificou cauteloso todos os lados e desta vez saiu com a chave do carro e foi pé ante pé a sua garagem privativa, passando com bastante cuidado frente ao quarto da enfermeira de plantão.

    Abriu com toda a cautela a porta da garagem e tirou o carro sem acionar o motor, apenas destravando e empurrando o mesmo, pois a entrada era um aclive. Lá fora fez uso novamente do freio, abriu o portão do pátio, ligou a máquina e caiu no mundo.

    Caiu no mundo é uma informação vaga. Na realidade foi direto ao clube da garota esgalga da noite anterior, a qual o esperava de cenho cerrado.

    Por que esta cara amarrada? perguntou ele.

    Meu antigo marido está aqui. Tenha cuidado.

    Mas você não disse estar livre e desimpedida?

    Sou separada, mas ele é muito ciumento…

    Posso saber o que está acontecendo? Uma voz grossa e rascante na nuca de Mirno, ameaçadora.

    Ainda não fui apresentado ao cavalheiro, foi dizendo Mirno.

    Eu me apresento! disse o cavalheiro; e num movimento brusco e inesperado acertou um murro no rosto de Mirno derrubando-o sobre as mesas.

    Mirno ergueu-se atarantado. Por minutos sentiu-se atônito, mas logo recobrou o senso e munido de uma garrafa de espumante apanhada numa mesa próxima, sem pestanejar, partiu-a no cocuruto do agressor, o qual já estava com uma adaga em punho. O agressor caiu e neste momento os leões de chácara já empurravam os dois brigões para a rua no meio da assuada que se seguiu e o ruído das sirenes dos carros da polícia, pois certamente alguém, mais apavorado, chamou a mesma.

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Luiz Nicanor
O outro eu

    Infelizmente as suas chances são mínimas, sem contar ser o senhor um paciente impaciente, não faz as fisioterapias direito, não tolera as massagens… Isso aumentará a sua atrofia muscular…

    Chega, doutor, chega!… Não tolero essas massagens; sinto dores insuportáveis…

    O doutor se despediu e Mirno ficou entregue aos próprios pensamentos, por sinal cada vez mais lúgubres e apavorantes. Não teve coragem de contar sobre o seu sonho e sobre as roupas fora do armário, suspeitando de alguma armação entre a enfermeira daquela noite, ou de todas as enfermeiras, com os pestes dos enteados, loucos de vê-lo decolar de uma vez, na obrigatória viagem sem volta.

    O dia transcorreu sem maiores novidades.

    Após o frugal lanchinho da tarde, Mirno tomou o sonífero e foi ajeitado na cama pela enfermeira da noite. Mal ele percebeu o peso dos olhos e o sonho já se materializava. Levantou-se lépido, foi ao banheiro novamente escanhoar o rosto, fez a escolha cuidadosa de outro traje, vestiu-se a capricho, verificou cauteloso todos os lados e desta vez saiu com a chave do carro e foi pé ante pé a sua garagem privativa, passando com bastante cuidado frente ao quarto da enfermeira de plantão.

    Abriu com toda a cautela a porta da garagem e tirou o carro sem acionar o motor, apenas destravando e empurrando o mesmo, pois a entrada era um aclive. Lá fora fez uso novamente do freio, abriu o portão do pátio, ligou a máquina e caiu no mundo.

    Caiu no mundo é uma informação vaga. Na realidade foi direto ao clube da garota esgalga da noite anterior, a qual o esperava de cenho cerrado.

    Por que esta cara amarrada? perguntou ele.

    Meu antigo marido está aqui. Tenha cuidado.

    Mas você não disse estar livre e desimpedida?

    Sou separada, mas ele é muito ciumento…

    Posso saber o que está acontecendo? Uma voz grossa e rascante na nuca de Mirno, ameaçadora.

    Ainda não fui apresentado ao cavalheiro, foi dizendo Mirno.

    Eu me apresento! disse o cavalheiro; e num movimento brusco e inesperado acertou um murro no rosto de Mirno derrubando-o sobre as mesas.

    Mirno ergueu-se atarantado. Por minutos sentiu-se atônito, mas logo recobrou o senso e munido de uma garrafa de espumante apanhada numa mesa próxima, sem pestanejar, partiu-a no cocuruto do agressor, o qual já estava com uma adaga em punho. O agressor caiu e neste momento os leões de chácara já empurravam os dois brigões para a rua no meio da assuada que se seguiu e o ruído das sirenes dos carros da polícia, pois certamente alguém, mais apavorado, chamou a mesma.

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