Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
M. Lestrange
M. Lestrange é, antes de qualquer coisa, um pseudônimo.
Bióloga de formação, apaixonada por leitura e maníaca das livrarias, pertence à casa Corvinal e faz visitas ocasionais ao reino das fadas para reunir material (e cobaias) para suas histórias.
Dizem os rumores que as tais fadas colocaram sua cabeça a prêmio.
Suas primeiras publicações físicas estão contidas em antologias, escreve para o blog literário Noite do Bardo e vez ou outra dá o ar de sua graça no Wattpad.






O sotão

Foi no terceiro dia, quando era seguro entrar sem me contaminar com o veneno, que subi as escadas antigas que pendiam de um alçapão no teto. O sótão era amplo, como todos os outros cômodos da casa, e meus avós o usavam principalmente para guardar coisas que não usavam mais, ou que dificilmente usavam, como jogos de ferramentas. Fiquei maravilhada com a quantidade de caixas empilhadas, espelhos antigos há muito esquecidos, brinquedos dos quais já não me lembrava e uma série de outras coisas que já não consigo listar.

Dediquei um tempo desbravando as antiguidades, quando um objeto alongado coberto por um lençol me chamou a atenção. Prontamente pensei: o espelho da vovó! Sabe, quando eu era pequena, minha avó tinha um espelho grande em seu quarto, daqueles ovalados e dourados, como nos filmes antigos. Já fazia anos que eu não via aquele espelho, e tinha certeza que minha avó tinha se livrado dele.

Aproximei-me do lençol branco, pronta para puxá-lo e revelar o antigo espelho, quando algo me deteve. “E se não for o espelho?” – Algo sussurrou dentro da minha cabeça. Logo afastei o pensamento. Bobagem, o que mais seria?

Puxei o lençol com as mãos firmes, esperando encontrar meu reflexo magricela de olhos azuis. Para a minha surpresa, não encontrei meu reflexo. Não encontrei nada, na verdade. A estrutura do espelho estava toda lá: grande superfície lisa, bordas douradas, base decorada com um estilo antigo de arte em metal. Mas nada de reflexo.

Era como olhar para uma janela que dava para o fim do mundo.

Assustada, decidi correr. Era aventura o suficiente para um dia.

Quando dei as costas ao espelho, algo me agarrou com força pela cintura. Não me puxou ou empurrou, mas me impedia de correr.

Eu fechei os olhos. Meu coração saltava em meu peito e eu tremia de medo. Era minimamente irônico que uma garota medrosa como eu era também pudesse ser tão curiosa. “A curiosidade matou o gato”, diria minha avó.

Mantive os olhos fechados com força por muito tempo. Muito tempo. Tentando me convencer de que era apenas o meu medo. Que não havia nada lá. Que o aperto em minha cintura era uma peça da minha mente.

Quando se tem 11 anos, é muito fácil acreditar em algumas coisas. Principalmente em mentiras.

Em um rompante de coragem insana, decidi enfrentar meu medo. Fantasmas não existem. Demônios não existem. Nada daquelas besteiras de filme de terror existem. E se não tem nada assombrando o sótão dos meus avós, então a pressão em minha cintura só poderia ser obra da minha imaginação.

Eu abri os olhos. E o aperto em minha cintura desapareceu.

Talvez eu tenha formado em minha cabeça a melhor imagem que consegui, dentro do medo insano que estava sentindo. Talvez eu tivesse esperado tanto por ver meu reflexo no espelho antigo da vovó, que foi exatamente isso que minha cabeça me mostrou: meu reflexo. Com algumas diferenças. A menina estava fora do espelho, como se fosse minha irmã gêmea, prostrada à minha frente. E seus olhos eram vazios, como o espelho sem reflexo.

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M. Lestrange
O sotão

Foi no terceiro dia, quando era seguro entrar sem me contaminar com o veneno, que subi as escadas antigas que pendiam de um alçapão no teto. O sótão era amplo, como todos os outros cômodos da casa, e meus avós o usavam principalmente para guardar coisas que não usavam mais, ou que dificilmente usavam, como jogos de ferramentas. Fiquei maravilhada com a quantidade de caixas empilhadas, espelhos antigos há muito esquecidos, brinquedos dos quais já não me lembrava e uma série de outras coisas que já não consigo listar.

Dediquei um tempo desbravando as antiguidades, quando um objeto alongado coberto por um lençol me chamou a atenção. Prontamente pensei: o espelho da vovó! Sabe, quando eu era pequena, minha avó tinha um espelho grande em seu quarto, daqueles ovalados e dourados, como nos filmes antigos. Já fazia anos que eu não via aquele espelho, e tinha certeza que minha avó tinha se livrado dele.

Aproximei-me do lençol branco, pronta para puxá-lo e revelar o antigo espelho, quando algo me deteve. “E se não for o espelho?” – Algo sussurrou dentro da minha cabeça. Logo afastei o pensamento. Bobagem, o que mais seria?

Puxei o lençol com as mãos firmes, esperando encontrar meu reflexo magricela de olhos azuis. Para a minha surpresa, não encontrei meu reflexo. Não encontrei nada, na verdade. A estrutura do espelho estava toda lá: grande superfície lisa, bordas douradas, base decorada com um estilo antigo de arte em metal. Mas nada de reflexo.

Era como olhar para uma janela que dava para o fim do mundo.

Assustada, decidi correr. Era aventura o suficiente para um dia.

Quando dei as costas ao espelho, algo me agarrou com força pela cintura. Não me puxou ou empurrou, mas me impedia de correr.

Eu fechei os olhos. Meu coração saltava em meu peito e eu tremia de medo. Era minimamente irônico que uma garota medrosa como eu era também pudesse ser tão curiosa. “A curiosidade matou o gato”, diria minha avó.

Mantive os olhos fechados com força por muito tempo. Muito tempo. Tentando me convencer de que era apenas o meu medo. Que não havia nada lá. Que o aperto em minha cintura era uma peça da minha mente.

Quando se tem 11 anos, é muito fácil acreditar em algumas coisas. Principalmente em mentiras.

Em um rompante de coragem insana, decidi enfrentar meu medo. Fantasmas não existem. Demônios não existem. Nada daquelas besteiras de filme de terror existem. E se não tem nada assombrando o sótão dos meus avós, então a pressão em minha cintura só poderia ser obra da minha imaginação.

Eu abri os olhos. E o aperto em minha cintura desapareceu.

Talvez eu tenha formado em minha cabeça a melhor imagem que consegui, dentro do medo insano que estava sentindo. Talvez eu tivesse esperado tanto por ver meu reflexo no espelho antigo da vovó, que foi exatamente isso que minha cabeça me mostrou: meu reflexo. Com algumas diferenças. A menina estava fora do espelho, como se fosse minha irmã gêmea, prostrada à minha frente. E seus olhos eram vazios, como o espelho sem reflexo.

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