Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...

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Twitter: @mana-paz





Halloween Macabro

    Enferrujados pelo peso dos anos de abandono, os velhos portões do cemitério São Lázaro rangem sob a ação dos empurrões de um grupo de jovens que certamente moram nas proximidades. E como acontece todos os anos, a solidão do cemitério será quebrada. É quarta feira, 31 de outubro de 2007 e a lua cheia tece paisagens assombrosas naquele lugar. Silencioso, um ser solitário esconde-se, agachando-se sobre sua tumba. Os longos e retorcidos ciprestes do cemitério São Lázaro oferecem o esconderijo perfeito. Tão perfeita quanto é a sensação de abandono…

    E novamente haverá a notícia de que corpos foram arrancados misteriosamente de seus túmulos e jogados ao relento. Em dezessete anos, sempre acontece o mesmo. Porém as pessoas nunca entenderão por que tal fato acontece. E nem por que as pessoas que desaparecem nessa noite jamais serão encontradas… Todos os anos, desde que ela chegou ali, se repete  o mesmo ritual. Somente ela poderia dizer a verdade. Mas jamais fará isso. Nenhum ser humano a verá e ficará vivo depois. Pobres criaturas inconseqüentes. Também a elas não seria dado o direito de recuar.

    Monique se lembrava bem daquele tempo… Ainda dava tempo de voltar ao passado, antes que as vozes inquietas chegassem.  Viera sozinha. Sempre sozinha, em suas visitas ao cemitério. Ela era feia e gorda, afinal. Ninguém quisera a sua companhia. Somente a moça vestida de negro. Ela se considerava diferente das demais moças da sua idade. Na década de 80, as noções de valores eram diferentes, o mundo também… Tão diferente do de hoje, que fora muito difícil conseguir a amizade daquela moça. As mães das adolescentes não queriam que suas filhas saíssem com aquela mulher misteriosa, vinda não se sabe de onde.

 

    Outubro de 1980. Tudo começara ali, no mesmo cemitério. Ejfél chegara à pequena cidade do interior do Rio no primeiro ano da década. Surgia nas noites, acompanhada sempre por seu cão negro, que nunca saia de seu encalço. Tinha cabelos vermelhos e longos e os olhos verdes e rasgados destacavam-se em sua pele alva e pontilhada de sardas. Sempre se vestia de negro e nunca era vista durante o dia. E Monique a encontrou, na noite em que voltava do cemitério de São Lázaro. Era Halloween.

    Retraída, Monique não tinha amigos e aquele cemitério era o único lugar que gostava de visitar. A sociedade a recriminava. Ela não era bonita, nem rica, nada, enfim. E somente ali se sentia bem. Talvez tenha até mesmo ficado muito feliz quando aquela bela criatura lhe deu atenção. Na verdade, a moça parecia esperá-la fora do cemitério. Sim, aquela mulher que também parecia viver sozinha deveria compreendê-la. Ela sempre achava que não se enquadrava em nada. Alienava-se e fingia-se de anti-social, simplesmente por não ser tão vencedora quanto à sociedade queria que ela fosse. Mas cansara de ser forte. Sentou-se no chão da entrada do cemitério e esperou simplesmente, conversar…

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Maria da Paz Guerreiro
Halloween Macabro

    Enferrujados pelo peso dos anos de abandono, os velhos portões do cemitério São Lázaro rangem sob a ação dos empurrões de um grupo de jovens que certamente moram nas proximidades. E como acontece todos os anos, a solidão do cemitério será quebrada. É quarta feira, 31 de outubro de 2007 e a lua cheia tece paisagens assombrosas naquele lugar. Silencioso, um ser solitário esconde-se, agachando-se sobre sua tumba. Os longos e retorcidos ciprestes do cemitério São Lázaro oferecem o esconderijo perfeito. Tão perfeita quanto é a sensação de abandono…

    E novamente haverá a notícia de que corpos foram arrancados misteriosamente de seus túmulos e jogados ao relento. Em dezessete anos, sempre acontece o mesmo. Porém as pessoas nunca entenderão por que tal fato acontece. E nem por que as pessoas que desaparecem nessa noite jamais serão encontradas… Todos os anos, desde que ela chegou ali, se repete  o mesmo ritual. Somente ela poderia dizer a verdade. Mas jamais fará isso. Nenhum ser humano a verá e ficará vivo depois. Pobres criaturas inconseqüentes. Também a elas não seria dado o direito de recuar.

    Monique se lembrava bem daquele tempo… Ainda dava tempo de voltar ao passado, antes que as vozes inquietas chegassem.  Viera sozinha. Sempre sozinha, em suas visitas ao cemitério. Ela era feia e gorda, afinal. Ninguém quisera a sua companhia. Somente a moça vestida de negro. Ela se considerava diferente das demais moças da sua idade. Na década de 80, as noções de valores eram diferentes, o mundo também… Tão diferente do de hoje, que fora muito difícil conseguir a amizade daquela moça. As mães das adolescentes não queriam que suas filhas saíssem com aquela mulher misteriosa, vinda não se sabe de onde.

 

    Outubro de 1980. Tudo começara ali, no mesmo cemitério. Ejfél chegara à pequena cidade do interior do Rio no primeiro ano da década. Surgia nas noites, acompanhada sempre por seu cão negro, que nunca saia de seu encalço. Tinha cabelos vermelhos e longos e os olhos verdes e rasgados destacavam-se em sua pele alva e pontilhada de sardas. Sempre se vestia de negro e nunca era vista durante o dia. E Monique a encontrou, na noite em que voltava do cemitério de São Lázaro. Era Halloween.

    Retraída, Monique não tinha amigos e aquele cemitério era o único lugar que gostava de visitar. A sociedade a recriminava. Ela não era bonita, nem rica, nada, enfim. E somente ali se sentia bem. Talvez tenha até mesmo ficado muito feliz quando aquela bela criatura lhe deu atenção. Na verdade, a moça parecia esperá-la fora do cemitério. Sim, aquela mulher que também parecia viver sozinha deveria compreendê-la. Ela sempre achava que não se enquadrava em nada. Alienava-se e fingia-se de anti-social, simplesmente por não ser tão vencedora quanto à sociedade queria que ela fosse. Mas cansara de ser forte. Sentou-se no chão da entrada do cemitério e esperou simplesmente, conversar…

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