Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...

E-mail: mariadapazguerreiro@yahoo.com.br
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Twitter: @mana-paz





Natal sem luz

O vento agourento, implacável, arranca silvos das árvores que perdem suas últimas folhas. A neve encarregou-se de ressecar a paisagem daquele vilarejo esquecido entre as montanhas dos Alpes Bávaros. A civilização não parecia ter chegado ali onde tudo era miserável, como se um mal milenar espreitasse, enraizado naquela terra infértil.

O velho e desconjuntado portão, único acesso à vila de vinte casas toscas também range ao som daquele vento enfadonho. Depois, todos os lamentos do vento perdem-se nas paredes geladas das montanhas, sem saída, como aquelas pessoas que em todos os natais, religiosas, clamam um milagre dos céus.

Não menos desolada que a paisagem, Karissa espera o desfecho de um pacto. Os longos cabelos negros escondem em parte o rosto branco, com expressivos olhos verdes. Sua beleza singular começou a arrancar suspiros de meia dúzia de meninos que povoa a região. E ali se perde, singela, apagada…

Seu pensamento regressa para um Natal de infância. Uma carruagem fugia de um grupo de cavaleiros vestidos de negro. Uma parelha de cavalos cansados que cai. Homens que seguravam tochas flamejantes e gritavam ameaças de morte, enquanto seus pais corriam desesperadamente.

E surpresos, vindo do nada, viram aparecer uma imponente carruagem, com cavalos negros que reluziam ante o fogo das tochas. A pequena Karissa e seus pais se viram em seu interior, protegidos, enquanto a carruagem seguia seu caminho, deixando atrás de si um rastro de fogo, que transformava a neve em fogo líquido, que carbonizava os corpos dos perseguidores.

Um homem moreno e alto, iluminado pelo fogo. Seus olhos inesquecíveis, jamais vistos em outro ser. O rosto daquele homem jamais foi esquecido por Karissa. Assim como a promessa. Em troca de suas vidas preservadas, os pais dela prometeram o que tivessem de mais precioso… porém, só tinham a ela. Assim, chegaram no pé da montanha onde havia a pequena vila.

Ao longo de anos, por vezes chegara um viajante sem rumos, que fora ficando e construindo um lugar para morar. Três ou quatro famílias maiores formavam a etnia que agora ocupava as vinte casas. Os meios de comunicação não haviam chegado, nem a educação… apenas a religião fanática classificava todos os atos como bons ou maus, céu e inferno para onde vão os anjos ou demônios. E para os fanáticos, a menina esquisita, bonita e muda era o símbolo do mal.

Aquele homem não pudera ser esquecido, pois aparecia nos sonhos de Karissa, avisando de sua chegada no Natal. Treze anos haviam se passado. O aniversário do pacto e da menina. Restos de uma tradição religiosa dos antepassados, velhos pares de meias rasgadas estavam pendurados nos umbrais corroídos pelo tempo e pela umidade. Balançavam alucinadas ao vento, vazias, esperando o presente que as crianças esperavam todos os anos, sem que os mesmos viessem. A curiosidade de conhecer o bom velhinho era unânime naquele momento…

Ou quase… na escuridão da noite, sozinha, uma menina mulher proferia palavras desconhecidas… de sua boca antes muda, palavras arcaicas brotavam, coincidindo com o relincho de cavalos alados, que traziam uma carruagem suntuosa. Meia noite. É Natal e crianças em todos os lugares do mundo esperam os presentes natalinos.

Para os mais velhos, que ensinaram aos filhos que na meia noite do dia 24 de dezembro um velhinho barrigudo de roupas vermelhas e grandes barbas brancas traz presentes para as crianças comportadas, pareceu injusto a carruagem parar na casa da menina muda e estranha.

Tão estranha quanto a carruagem negra da qual desceu um homem alto e belo. Beleza que se esvaiu quando seus olhos soltaram chamas, que começaram a queimar as meias dos umbrais. Sem uma palavra, entrou na casa de Karissa. Gritos horripilantes ressoaram dentro de casa, quando ele saiu com a menina em seus braços, inerte. E a carruagem partiu, deixando um rastro de fogo, junto com um corpo de menina, estranhamente envelhecido, que caiu dos ares, sendo consumido pela lava escaldante que devastou a vila.

Maria da Paz Guerreiro
Natal sem luz

O vento agourento, implacável, arranca silvos das árvores que perdem suas últimas folhas. A neve encarregou-se de ressecar a paisagem daquele vilarejo esquecido entre as montanhas dos Alpes Bávaros. A civilização não parecia ter chegado ali onde tudo era miserável, como se um mal milenar espreitasse, enraizado naquela terra infértil.

O velho e desconjuntado portão, único acesso à vila de vinte casas toscas também range ao som daquele vento enfadonho. Depois, todos os lamentos do vento perdem-se nas paredes geladas das montanhas, sem saída, como aquelas pessoas que em todos os natais, religiosas, clamam um milagre dos céus.

Não menos desolada que a paisagem, Karissa espera o desfecho de um pacto. Os longos cabelos negros escondem em parte o rosto branco, com expressivos olhos verdes. Sua beleza singular começou a arrancar suspiros de meia dúzia de meninos que povoa a região. E ali se perde, singela, apagada…

Seu pensamento regressa para um Natal de infância. Uma carruagem fugia de um grupo de cavaleiros vestidos de negro. Uma parelha de cavalos cansados que cai. Homens que seguravam tochas flamejantes e gritavam ameaças de morte, enquanto seus pais corriam desesperadamente.

E surpresos, vindo do nada, viram aparecer uma imponente carruagem, com cavalos negros que reluziam ante o fogo das tochas. A pequena Karissa e seus pais se viram em seu interior, protegidos, enquanto a carruagem seguia seu caminho, deixando atrás de si um rastro de fogo, que transformava a neve em fogo líquido, que carbonizava os corpos dos perseguidores.

Um homem moreno e alto, iluminado pelo fogo. Seus olhos inesquecíveis, jamais vistos em outro ser. O rosto daquele homem jamais foi esquecido por Karissa. Assim como a promessa. Em troca de suas vidas preservadas, os pais dela prometeram o que tivessem de mais precioso… porém, só tinham a ela. Assim, chegaram no pé da montanha onde havia a pequena vila.

Ao longo de anos, por vezes chegara um viajante sem rumos, que fora ficando e construindo um lugar para morar. Três ou quatro famílias maiores formavam a etnia que agora ocupava as vinte casas. Os meios de comunicação não haviam chegado, nem a educação… apenas a religião fanática classificava todos os atos como bons ou maus, céu e inferno para onde vão os anjos ou demônios. E para os fanáticos, a menina esquisita, bonita e muda era o símbolo do mal.

Aquele homem não pudera ser esquecido, pois aparecia nos sonhos de Karissa, avisando de sua chegada no Natal. Treze anos haviam se passado. O aniversário do pacto e da menina. Restos de uma tradição religiosa dos antepassados, velhos pares de meias rasgadas estavam pendurados nos umbrais corroídos pelo tempo e pela umidade. Balançavam alucinadas ao vento, vazias, esperando o presente que as crianças esperavam todos os anos, sem que os mesmos viessem. A curiosidade de conhecer o bom velhinho era unânime naquele momento…

Ou quase… na escuridão da noite, sozinha, uma menina mulher proferia palavras desconhecidas… de sua boca antes muda, palavras arcaicas brotavam, coincidindo com o relincho de cavalos alados, que traziam uma carruagem suntuosa. Meia noite. É Natal e crianças em todos os lugares do mundo esperam os presentes natalinos.

Para os mais velhos, que ensinaram aos filhos que na meia noite do dia 24 de dezembro um velhinho barrigudo de roupas vermelhas e grandes barbas brancas traz presentes para as crianças comportadas, pareceu injusto a carruagem parar na casa da menina muda e estranha.

Tão estranha quanto a carruagem negra da qual desceu um homem alto e belo. Beleza que se esvaiu quando seus olhos soltaram chamas, que começaram a queimar as meias dos umbrais. Sem uma palavra, entrou na casa de Karissa. Gritos horripilantes ressoaram dentro de casa, quando ele saiu com a menina em seus braços, inerte. E a carruagem partiu, deixando um rastro de fogo, junto com um corpo de menina, estranhamente envelhecido, que caiu dos ares, sendo consumido pela lava escaldante que devastou a vila.