O diário da demência - Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...






O diário da demência

Agora, eu terei apenas que obedecer mais uma vez… Invadi a diretoria do manicômio onde estou presa. Tenho que dizer ao mundo que Eles existem e que são mais antigos que tudo, por isso jamais poderão ser esquecidos.  Não sei se é um instante de sanidade, ou se Eles estão digitando por mim, se as mãos são as minhas ou as deles, não me reconheço, nem sei quem sou e já não me importa muito a opinião dos que conhecerão a minha história. Apenas recebo ordens Deles, que estão dizendo que o fim está muito próximo e que Eles reinarão.

Estou condenada a viver nesse manicômio, com todos Eles me olhando, emparedados, camuflados em todos os lugares, me vigiando dia e noite. Sim, porque eu sei que eles ainda estão aqui, sempre estarão, a invadir o meu cérebro e implantar nele aqueles malditos pensamentos. Eu sei que existem botões lá, eu sei, eu sinto. Afinal, eles ordenavam e quando eu percebia havia novamente cometido as mesmas atrocidades.

Os meros mortais que não os têm no corpo não poderão jamais saber do que Eles nos fazem capazes. Então, enquanto os enfermeiros me procuram para me prender e administrar a próxima medicação que me colocará num sono profundo, letal, eu buscarei em minha memória uma explicação menos grotesca dos atos horríveis que cometi cujas lembranças me atormentam nos poucos momentos de lucidez que eu ainda consigo ter.

Eu sempre fora a esquisita da turma… Com inteligência, chatice e maldade paradoxais à solidão, eu sempre brincava sozinha. Eu não gostava de doces meninas que brincavam com suas bonecas, vestindo-lhes belos vestidos costurados por suas mães. As minhas bonecas, eu esfaqueava… Depois desmembrava. Eu já sabia que iria gostar de anatomia. Sonhava em ser médica. Ou uma professora de História Antiga.

Assim, comecei a estudar. Era a menina feia, assanhada e inteligente, que era odiada por não dar cola aos colegas burros. E fui enveredando por colégios cujos padrões me agradavam… Um sombrio colégio escuro, iluminado apenas nas salas por uma luz tênue de lampiões de gás… Nos corredores escuros, eu era esperada para ser surrada pelos colegas de sala. Sozinha, aprendi a fazer bonecos de papel e esquartejar… O ódio crescia em mim, a cada dia tinha mais raiva das pessoas… Atrás da minha casa, um verdadeiro cemitério de bonecos era constantemente visitado por mim.

Meus cabelos vermelhos eram sempre desgrenhados e eu não possuía roupas… Mas passei a estudar num dos melhores… E mais sombrios colégios da cidade. Era um internato de meninas ricas, onde eu, por ser pobre e ter boas notas, consegui uma bolsa integral. E aprendi História Antiga e pagã. Passei a participar de rituais de Magia Negra, onde os maus espíritos eram constantes. E até hoje são. Enquanto digito, posso senti-los ao meu lado, me arrepiando o lado esquerdo do corpo. Sempre relacionei o Bem e o Mal com a direita e a esquerda. E a direita nunca sente nada.

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Maria da Paz Guerreiro
O diário da demência

Agora, eu terei apenas que obedecer mais uma vez… Invadi a diretoria do manicômio onde estou presa. Tenho que dizer ao mundo que Eles existem e que são mais antigos que tudo, por isso jamais poderão ser esquecidos.  Não sei se é um instante de sanidade, ou se Eles estão digitando por mim, se as mãos são as minhas ou as deles, não me reconheço, nem sei quem sou e já não me importa muito a opinião dos que conhecerão a minha história. Apenas recebo ordens Deles, que estão dizendo que o fim está muito próximo e que Eles reinarão.

Estou condenada a viver nesse manicômio, com todos Eles me olhando, emparedados, camuflados em todos os lugares, me vigiando dia e noite. Sim, porque eu sei que eles ainda estão aqui, sempre estarão, a invadir o meu cérebro e implantar nele aqueles malditos pensamentos. Eu sei que existem botões lá, eu sei, eu sinto. Afinal, eles ordenavam e quando eu percebia havia novamente cometido as mesmas atrocidades.

Os meros mortais que não os têm no corpo não poderão jamais saber do que Eles nos fazem capazes. Então, enquanto os enfermeiros me procuram para me prender e administrar a próxima medicação que me colocará num sono profundo, letal, eu buscarei em minha memória uma explicação menos grotesca dos atos horríveis que cometi cujas lembranças me atormentam nos poucos momentos de lucidez que eu ainda consigo ter.

Eu sempre fora a esquisita da turma… Com inteligência, chatice e maldade paradoxais à solidão, eu sempre brincava sozinha. Eu não gostava de doces meninas que brincavam com suas bonecas, vestindo-lhes belos vestidos costurados por suas mães. As minhas bonecas, eu esfaqueava… Depois desmembrava. Eu já sabia que iria gostar de anatomia. Sonhava em ser médica. Ou uma professora de História Antiga.

Assim, comecei a estudar. Era a menina feia, assanhada e inteligente, que era odiada por não dar cola aos colegas burros. E fui enveredando por colégios cujos padrões me agradavam… Um sombrio colégio escuro, iluminado apenas nas salas por uma luz tênue de lampiões de gás… Nos corredores escuros, eu era esperada para ser surrada pelos colegas de sala. Sozinha, aprendi a fazer bonecos de papel e esquartejar… O ódio crescia em mim, a cada dia tinha mais raiva das pessoas… Atrás da minha casa, um verdadeiro cemitério de bonecos era constantemente visitado por mim.

Meus cabelos vermelhos eram sempre desgrenhados e eu não possuía roupas… Mas passei a estudar num dos melhores… E mais sombrios colégios da cidade. Era um internato de meninas ricas, onde eu, por ser pobre e ter boas notas, consegui uma bolsa integral. E aprendi História Antiga e pagã. Passei a participar de rituais de Magia Negra, onde os maus espíritos eram constantes. E até hoje são. Enquanto digito, posso senti-los ao meu lado, me arrepiando o lado esquerdo do corpo. Sempre relacionei o Bem e o Mal com a direita e a esquerda. E a direita nunca sente nada.

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