Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...

E-mail: mariadapazguerreiro@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/mariadapaz.guerreiro
Wattpad: @Pazguerreiro
Twitter: @mana-paz





O diário da demência

Porém, embriagado pelo mesmo odor de sangue… E essa parte ninguém me contou, para isso eu não estava preparada… Cérbero lançou-se sobre Morgana e destroçou seu corpo, devorando-o depois. Era o último ato daquela tragédia. As criaturas apoderaram-se, aos punhados, dos filhos de Morgana e com eles desceram para o submundo. Chocada, vi que algo ainda se mexia, sob a luz claríssima da lua. Fui até lá e constatei ser uma linda criança viva, com lindos cabelos louros. Sem pensar, peguei-a nos braços e corri, fugindo dali.

Depois de anos a fio dentro do colégio, pois eu me desligara de tudo e de todos, eu já não tinha conhecimento do mundo exterior. Assim, eu corri desesperadamente para a rua, contando uma história que ninguém acreditou. A filha de Morgana foi salva e encaminhada para um abrigo de doação. Como era linda, logo foi adotada por uma família rica e sem filhos.

Ninguém acreditou em tudo que eu contei. Cérbero parecia um cão comum, que não devoraria ninguém. Nunca encontraram um osso humano sequer. Então, ele foi levado para um canil. Apareceu misteriosamente morto, sem sangue no corpo, ou em seus arredores.

Eu fui diagnosticada como doente mental. Nunca nem me disseram qual foi o diagnóstico. Afinal, são tantos os males da mente… Eu sei que o meu é a solidão. Quinze anos se passaram e minha juventude nunca veio. Apenas eu cumpri a minha parte no trato. Creio que já não desejo a imortalidade.

Hoje o antigo e sombrio colégio tornou-se a melhor e mais conceituada faculdade de Medicina do país, sendo referência mundial em educação. E localiza-se aqui, vizinho ao manicômio onde eu sou internada. Ele é construído no terreno onde havia o poço.

Katrina, a filha de Morgana vem todos os dias me visitar. A mim foi incumbida a tarefa de lhe dizer que Eles voltarão hoje. Descubro, então, que não haverá tempo. Sob meus pés, um estrondo. Kahadlok surge em minha frente, saindo do buraco que se formou onde antes havia o poço. Atrás dele, dezenas de seus filhos com Morgana. No momento em que senti garras de Kahadlok perfurarem minha carótida e seus filhos lançaram-se sobre mim, despedaçando-me, compreendi que seria imortal sim, pois viveria para sempre dentro deles.

 

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Maria da Paz Guerreiro
O diário da demência

Porém, embriagado pelo mesmo odor de sangue… E essa parte ninguém me contou, para isso eu não estava preparada… Cérbero lançou-se sobre Morgana e destroçou seu corpo, devorando-o depois. Era o último ato daquela tragédia. As criaturas apoderaram-se, aos punhados, dos filhos de Morgana e com eles desceram para o submundo. Chocada, vi que algo ainda se mexia, sob a luz claríssima da lua. Fui até lá e constatei ser uma linda criança viva, com lindos cabelos louros. Sem pensar, peguei-a nos braços e corri, fugindo dali.

Depois de anos a fio dentro do colégio, pois eu me desligara de tudo e de todos, eu já não tinha conhecimento do mundo exterior. Assim, eu corri desesperadamente para a rua, contando uma história que ninguém acreditou. A filha de Morgana foi salva e encaminhada para um abrigo de doação. Como era linda, logo foi adotada por uma família rica e sem filhos.

Ninguém acreditou em tudo que eu contei. Cérbero parecia um cão comum, que não devoraria ninguém. Nunca encontraram um osso humano sequer. Então, ele foi levado para um canil. Apareceu misteriosamente morto, sem sangue no corpo, ou em seus arredores.

Eu fui diagnosticada como doente mental. Nunca nem me disseram qual foi o diagnóstico. Afinal, são tantos os males da mente… Eu sei que o meu é a solidão. Quinze anos se passaram e minha juventude nunca veio. Apenas eu cumpri a minha parte no trato. Creio que já não desejo a imortalidade.

Hoje o antigo e sombrio colégio tornou-se a melhor e mais conceituada faculdade de Medicina do país, sendo referência mundial em educação. E localiza-se aqui, vizinho ao manicômio onde eu sou internada. Ele é construído no terreno onde havia o poço.

Katrina, a filha de Morgana vem todos os dias me visitar. A mim foi incumbida a tarefa de lhe dizer que Eles voltarão hoje. Descubro, então, que não haverá tempo. Sob meus pés, um estrondo. Kahadlok surge em minha frente, saindo do buraco que se formou onde antes havia o poço. Atrás dele, dezenas de seus filhos com Morgana. No momento em que senti garras de Kahadlok perfurarem minha carótida e seus filhos lançaram-se sobre mim, despedaçando-me, compreendi que seria imortal sim, pois viveria para sempre dentro deles.

 

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