O diário da demência - Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...






O diário da demência

O inacreditável estava em seu tronco e rosto. A criatura exibia um par de enormes seios de onde escorria um líquido viscoso e escuro, que dois homens, se podiam ser chamados assim, sugavam. Abaixo, um enorme pênis ereto. A criatura era indecifrável, horrenda… E o rosto… O terror de olhar para o rosto. Nele, estava o espelho. O rosto da criatura era o meu…

Os tambores mudaram o ritmo e de um lugar próximo, que parecia ser um túnel, surgiram gritos cortantes, parecidos com gritos de crianças. E na realidade, quase o eram. Dali surgiu três mulheres. Duas, magras, nuas e encardidas, com cabelos desgrenhados, a idade indefinida em rostos cheios de rugas e ferimentos. Magras, exibiam seios flácidos e nádegas caídas.

Entretanto, a terceira… Ah, ela parecia um anjo, perdida no meio daquele inferno. Deveria ter quinze anos, no máximo. A pele branca era ressaltada pelas vestes longas e negras. Os cabelos louros e brilhantes estavam presos em duas tranças, cuidadosamente penteadas. Porém, o branco do rosto estava mais acentuado pelo medo. Os olhos azuis estavam desmesuradamente abertos, mediante o terror jamais imaginado. E quando boca vermelha e carnuda se abriu num grito, esse jamais saiu da garganta. A gigantesca criatura novamente alçara voo, cravando as garras em seu pescoço e levando-a para os ares. Depois, seu corpo sem vida, coberto de sangue foi despedaçado e engolido. O monstro, que depois eu soube ser Kahadlok, parecera satisfeito.

Então, houve outro estrondo e a terra novamente se abriu, levando aquele ser para suas profundezas. Os tambores voltaram a ficar lentos e os estranhos e esqueléticos homens e mulheres voltaram a executar a dança macabra, enquanto desmembravam e desossavam os que estavam assando na fogueira. Estranhamente, aqueles indivíduos que assavam na fogueira não se pareciam com os seguidores do culto.

Então, a partir daquele instante, eu saberia qual era a minha missão. As duas mulheres que haviam trazido a menina para Kahadlok, me seguraram pelos braços e eu pensei que a minha vida havia terminado ali. Mas não. Elas apenas me levaram de volta ao túnel de onde tinham saído. Parecia com algo quase civilizado. Corredores com enormes espelhos por todos os lugares. Aquilo me trouxe desconforto. Eu, que sempre fugira do espelho, eu sempre fugira da minha imagem, odiava ser feia. Odiava a todos, por ser feia e gorda e porque um dia eu seria simplesmente uma velha. Horrível, a cada minuto vivido.

Depois de um dos muitos corredores, uma sala. Branca, perfumada e clara, num contraste gritante com o culto que eu acabara de presenciar. Uma grande mesa negra, uma cadeira de espaldar alto… Um homem olhava para a parede. Voltou-se para mim, como se me conhecesse. Era alto, moreno e tinha penetrantes olhos verdes. Vestia-se de branco e se eu estivesse num lugar diferente e acreditasse em lugares como céu e inferno, eu diria que estava no céu e que aquele era um anjo. Ele me disse seu nome… Mas parece que um bloqueio fez com que jamais eu voltasse a lembrar… Aliás… Eu nem mesmo sei se ele existiu, ou se foi mais um devaneio de minha mente tão absurdamente doente…

Então, ele me disse para que havia me chamado ali. Sem que eu soubesse, tinha atendido a todos os meus chamados, nas noites em que eu dormia perto do poço. Aquele poço seria o portal para o que eu deveria fazer. Em troca, eu teria a beleza e a imortalidade.

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Maria da Paz Guerreiro
O diário da demência

O inacreditável estava em seu tronco e rosto. A criatura exibia um par de enormes seios de onde escorria um líquido viscoso e escuro, que dois homens, se podiam ser chamados assim, sugavam. Abaixo, um enorme pênis ereto. A criatura era indecifrável, horrenda… E o rosto… O terror de olhar para o rosto. Nele, estava o espelho. O rosto da criatura era o meu…

Os tambores mudaram o ritmo e de um lugar próximo, que parecia ser um túnel, surgiram gritos cortantes, parecidos com gritos de crianças. E na realidade, quase o eram. Dali surgiu três mulheres. Duas, magras, nuas e encardidas, com cabelos desgrenhados, a idade indefinida em rostos cheios de rugas e ferimentos. Magras, exibiam seios flácidos e nádegas caídas.

Entretanto, a terceira… Ah, ela parecia um anjo, perdida no meio daquele inferno. Deveria ter quinze anos, no máximo. A pele branca era ressaltada pelas vestes longas e negras. Os cabelos louros e brilhantes estavam presos em duas tranças, cuidadosamente penteadas. Porém, o branco do rosto estava mais acentuado pelo medo. Os olhos azuis estavam desmesuradamente abertos, mediante o terror jamais imaginado. E quando boca vermelha e carnuda se abriu num grito, esse jamais saiu da garganta. A gigantesca criatura novamente alçara voo, cravando as garras em seu pescoço e levando-a para os ares. Depois, seu corpo sem vida, coberto de sangue foi despedaçado e engolido. O monstro, que depois eu soube ser Kahadlok, parecera satisfeito.

Então, houve outro estrondo e a terra novamente se abriu, levando aquele ser para suas profundezas. Os tambores voltaram a ficar lentos e os estranhos e esqueléticos homens e mulheres voltaram a executar a dança macabra, enquanto desmembravam e desossavam os que estavam assando na fogueira. Estranhamente, aqueles indivíduos que assavam na fogueira não se pareciam com os seguidores do culto.

Então, a partir daquele instante, eu saberia qual era a minha missão. As duas mulheres que haviam trazido a menina para Kahadlok, me seguraram pelos braços e eu pensei que a minha vida havia terminado ali. Mas não. Elas apenas me levaram de volta ao túnel de onde tinham saído. Parecia com algo quase civilizado. Corredores com enormes espelhos por todos os lugares. Aquilo me trouxe desconforto. Eu, que sempre fugira do espelho, eu sempre fugira da minha imagem, odiava ser feia. Odiava a todos, por ser feia e gorda e porque um dia eu seria simplesmente uma velha. Horrível, a cada minuto vivido.

Depois de um dos muitos corredores, uma sala. Branca, perfumada e clara, num contraste gritante com o culto que eu acabara de presenciar. Uma grande mesa negra, uma cadeira de espaldar alto… Um homem olhava para a parede. Voltou-se para mim, como se me conhecesse. Era alto, moreno e tinha penetrantes olhos verdes. Vestia-se de branco e se eu estivesse num lugar diferente e acreditasse em lugares como céu e inferno, eu diria que estava no céu e que aquele era um anjo. Ele me disse seu nome… Mas parece que um bloqueio fez com que jamais eu voltasse a lembrar… Aliás… Eu nem mesmo sei se ele existiu, ou se foi mais um devaneio de minha mente tão absurdamente doente…

Então, ele me disse para que havia me chamado ali. Sem que eu soubesse, tinha atendido a todos os meus chamados, nas noites em que eu dormia perto do poço. Aquele poço seria o portal para o que eu deveria fazer. Em troca, eu teria a beleza e a imortalidade.

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