Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...

E-mail: mariadapazguerreiro@yahoo.com.br
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Wattpad: @Pazguerreiro
Twitter: @mana-paz





O diário da demência

E o apaixonado casal foi para o auditório. O prazer seria todo meu. A chave geral sempre estava desligada, porque a fiação era velha. Eu me encarregara de descascar os fios que se espalhavam pelo chão. E quando eles entraram, eu fechei a porta por fora. E liguei a chave geral. Se eu conseguisse ter prazer sexual, teria chegado ao orgasmo quando ouvi os dois gritando por socorro. Era sexta à tarde e ninguém ouviria. Os alunos estavam arrumando suas malas para retornarem para casa.

Palmas para mim! Meu plano dera certo. Minha missão estava consumada. Agora, o fogo unira os dois por toda a eternidade. Eles se foram unidos pela maior dor que um ser humano pode experimentar… A de morrer queimado. Naquele fim de semana, fui para casa me sentindo a mais feliz das criaturas… O desfecho seria segunda feira pela manhã. Por dentro minha alma, negra como deveriam estar os corpos carbonizados deles, ria vingada.

Como eu pensei segunda feira pela manhã os professores se interessaram em saber se a fiação do auditório fora consertada. Depois de quase um século de mesmices, inexplicavelmente incentivados pela nova diretora, os professores pareciam interessados em inovar.

Apenas o nerd professor de História sentiu falta da minha amiga burra. Mas poderia ter sido simplesmente uma fugida do colégio, como ela costumava dar. Porém ao nos aproximarmos do auditório, o esperado… Um fedor insuportável. Precavidamente a nova diretora chamou a polícia. Ela conseguia me surpreender a cada dia… Sempre agia friamente mediante qualquer situação.

 Naquele dia, eu chegara antes de todos e tivera o cuidado de reabrir a porta. Para que ninguém levantasse a possibilidade de assassinato.  Os policiais estranharam a chave geral ligada… E não foi necessário muito raciocínio para saberem o que encontrariam ali. Garotos inexperientes, descuidados, procuraram um local para um encontro furtivo e encontraram a morte.

Então, quando a policia entrou, viu apenas dois pedaços de carne podre e preta pela ação do fogo que se formara na fiação. Restos de sangue e linfa escorriam imundos, misturando se ao pó acumulado por anos de abandono. Eles eram tão parecidos antes… Tão bonitos, tão brancos, tão racistas… Agora estavam mais parecidos ainda… Pretos e podres, massas disformes misturadas… Podres de soberba vivos… Simples carniças de odor adocicado e insuportável agora.

Como último ato de minha magistral atuação, em gritos histéricos eu queria lançar-me sobre os dois, para chorar o amor e a amiga que eu havia perdido. A polícia isolou o local, a perícia forense levou os corpos apenas para os trâmites legais. Apenas constariam que haviam morrido eletrocutados.

A reforma do auditório deveria continuar, segundo a nova diretora. Afinal, aquele jovem casal dera a vida pela causa. As salas do auditório teriam os nomes deles, depois de concluídas. Na minha cabeça, a certeza do crime perfeito. Ninguém jamais descobriria. Mas eu estava enganada… Alguém sabia sim, e eu descobriria tal fato à noite.

Com a plena consciência do dever cumprido, fui para a solidão do meu dormitório ao ar livre. E naquela noite, eu deveria ir novamente falar com ele. Somente a ele eu poderia confiar meus segredos e minha vida. Afinal, eu cumprira todas as etapas do plano minuciosamente… Friamente matara o meu primeiro amor e a minha provável melhor e única amiga. Eu passara no teste e deveria começar a receber minha recompensa.

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Maria da Paz Guerreiro
O diário da demência

E o apaixonado casal foi para o auditório. O prazer seria todo meu. A chave geral sempre estava desligada, porque a fiação era velha. Eu me encarregara de descascar os fios que se espalhavam pelo chão. E quando eles entraram, eu fechei a porta por fora. E liguei a chave geral. Se eu conseguisse ter prazer sexual, teria chegado ao orgasmo quando ouvi os dois gritando por socorro. Era sexta à tarde e ninguém ouviria. Os alunos estavam arrumando suas malas para retornarem para casa.

Palmas para mim! Meu plano dera certo. Minha missão estava consumada. Agora, o fogo unira os dois por toda a eternidade. Eles se foram unidos pela maior dor que um ser humano pode experimentar… A de morrer queimado. Naquele fim de semana, fui para casa me sentindo a mais feliz das criaturas… O desfecho seria segunda feira pela manhã. Por dentro minha alma, negra como deveriam estar os corpos carbonizados deles, ria vingada.

Como eu pensei segunda feira pela manhã os professores se interessaram em saber se a fiação do auditório fora consertada. Depois de quase um século de mesmices, inexplicavelmente incentivados pela nova diretora, os professores pareciam interessados em inovar.

Apenas o nerd professor de História sentiu falta da minha amiga burra. Mas poderia ter sido simplesmente uma fugida do colégio, como ela costumava dar. Porém ao nos aproximarmos do auditório, o esperado… Um fedor insuportável. Precavidamente a nova diretora chamou a polícia. Ela conseguia me surpreender a cada dia… Sempre agia friamente mediante qualquer situação.

 Naquele dia, eu chegara antes de todos e tivera o cuidado de reabrir a porta. Para que ninguém levantasse a possibilidade de assassinato.  Os policiais estranharam a chave geral ligada… E não foi necessário muito raciocínio para saberem o que encontrariam ali. Garotos inexperientes, descuidados, procuraram um local para um encontro furtivo e encontraram a morte.

Então, quando a policia entrou, viu apenas dois pedaços de carne podre e preta pela ação do fogo que se formara na fiação. Restos de sangue e linfa escorriam imundos, misturando se ao pó acumulado por anos de abandono. Eles eram tão parecidos antes… Tão bonitos, tão brancos, tão racistas… Agora estavam mais parecidos ainda… Pretos e podres, massas disformes misturadas… Podres de soberba vivos… Simples carniças de odor adocicado e insuportável agora.

Como último ato de minha magistral atuação, em gritos histéricos eu queria lançar-me sobre os dois, para chorar o amor e a amiga que eu havia perdido. A polícia isolou o local, a perícia forense levou os corpos apenas para os trâmites legais. Apenas constariam que haviam morrido eletrocutados.

A reforma do auditório deveria continuar, segundo a nova diretora. Afinal, aquele jovem casal dera a vida pela causa. As salas do auditório teriam os nomes deles, depois de concluídas. Na minha cabeça, a certeza do crime perfeito. Ninguém jamais descobriria. Mas eu estava enganada… Alguém sabia sim, e eu descobriria tal fato à noite.

Com a plena consciência do dever cumprido, fui para a solidão do meu dormitório ao ar livre. E naquela noite, eu deveria ir novamente falar com ele. Somente a ele eu poderia confiar meus segredos e minha vida. Afinal, eu cumprira todas as etapas do plano minuciosamente… Friamente matara o meu primeiro amor e a minha provável melhor e única amiga. Eu passara no teste e deveria começar a receber minha recompensa.

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