Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Imber Sanguis

Já passava da 1 da manhã quando resolvi aliviar o acelerador da velha motocicleta HellBlade 4000 que há anos me acompanhava pelas rodovias decadentes daquela imensa e decrépita terra.

“A bomba Eterna trouxe aos habitantes sensatos deste planeta uma pitada de alívio”. Dizia meu pai, velho ranzinza infeliz que vez ou outra na minha infância erguia-me em seus braços e me abraçava de uma forma tão expressiva, que eu podia sentir o pedido de perdão que sustentava tal gesto.

Parei a motocicleta na beira de uma estrada com a bexiga no vermelho. Mijar no meio da rodovia era mais seguro, o campo de visão era maior.

Enquanto regozijava deste estranho prazer em expelir, tornei a mente aos devaneios.

Segundo o velho, naqueles dias o planeta havia perdido o seu eixo de rotação, e as pessoas que dominavam os elementos químicos, ao contrário do seu ódio pelos demais, criaram um gás que transformava ratazanas arredias em predadores esfomeados com duas vezes o tamanho de um ser humano. O gás surtia tal efeito em todos os seres com exceção dos humanos. Logo famílias foram predadas por poodles de uma tonelada e meia sedentos por sangue.

O objetivo era fazer com que os humanos passassem para a base da cadeia alimentar. Devido a materiais radioativos usados na bomba os bebês passaram a nascer passa problemas respiratórios ou de visão. Mas alguns, após os 12 anos de idade, tiveram a infelicidade de ter que conviver com tumores vermiformes e inteligentes de 3kg que brotavam dos seus pescoços, testas, costas ou até mesmo dos seus cus.

Bem, eu já nasci nesse cenário e confesso que a vida a mim é agradável em demasia. Minha ocupação, a qual eu mesmo optei por gosto, consiste em transitar em meio aos pontos de escambo pelas cidadelas em busca de obras de arte, músicas, livros e filmes. Registros que um dia significaram algo para alguém.

Eu absorvo tais significados, é um vício. O velho contava que antes todos os seres humanos eram dependentes de relações de poder. Ele amaldiçoava com afinco o primeiro ser humano que se sujeitou a situação de subordinação. Então esse cara que chamavam de Caos, o qual eu acredito na realidade ser uma Inteligência Artificial independente, criou o gás e a bomba Eterna, e acabou com todas as relações de poder.

Gotejado o último resquício de urina, fechei as calças e entrei novamente no carro. Eu andava no sul daquelas terras, um lugar por mim ainda não desbravado. Um cara que se apresentou como Lázaro, em um dos meus passeios em uma quarta feira chuvosa entre os destroços do que parecia ter sido um templo ou algo do gênero, foi quem me presenteou com a informação referente ao ponto de escambo mais generoso dessas terras “onde mau não precisa ser fecundado para nascer”, como ele mesmo se referiu.

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Murilo Salini
Imber Sanguis

Já passava da 1 da manhã quando resolvi aliviar o acelerador da velha motocicleta HellBlade 4000 que há anos me acompanhava pelas rodovias decadentes daquela imensa e decrépita terra.

“A bomba Eterna trouxe aos habitantes sensatos deste planeta uma pitada de alívio”. Dizia meu pai, velho ranzinza infeliz que vez ou outra na minha infância erguia-me em seus braços e me abraçava de uma forma tão expressiva, que eu podia sentir o pedido de perdão que sustentava tal gesto.

Parei a motocicleta na beira de uma estrada com a bexiga no vermelho. Mijar no meio da rodovia era mais seguro, o campo de visão era maior.

Enquanto regozijava deste estranho prazer em expelir, tornei a mente aos devaneios.

Segundo o velho, naqueles dias o planeta havia perdido o seu eixo de rotação, e as pessoas que dominavam os elementos químicos, ao contrário do seu ódio pelos demais, criaram um gás que transformava ratazanas arredias em predadores esfomeados com duas vezes o tamanho de um ser humano. O gás surtia tal efeito em todos os seres com exceção dos humanos. Logo famílias foram predadas por poodles de uma tonelada e meia sedentos por sangue.

O objetivo era fazer com que os humanos passassem para a base da cadeia alimentar. Devido a materiais radioativos usados na bomba os bebês passaram a nascer passa problemas respiratórios ou de visão. Mas alguns, após os 12 anos de idade, tiveram a infelicidade de ter que conviver com tumores vermiformes e inteligentes de 3kg que brotavam dos seus pescoços, testas, costas ou até mesmo dos seus cus.

Bem, eu já nasci nesse cenário e confesso que a vida a mim é agradável em demasia. Minha ocupação, a qual eu mesmo optei por gosto, consiste em transitar em meio aos pontos de escambo pelas cidadelas em busca de obras de arte, músicas, livros e filmes. Registros que um dia significaram algo para alguém.

Eu absorvo tais significados, é um vício. O velho contava que antes todos os seres humanos eram dependentes de relações de poder. Ele amaldiçoava com afinco o primeiro ser humano que se sujeitou a situação de subordinação. Então esse cara que chamavam de Caos, o qual eu acredito na realidade ser uma Inteligência Artificial independente, criou o gás e a bomba Eterna, e acabou com todas as relações de poder.

Gotejado o último resquício de urina, fechei as calças e entrei novamente no carro. Eu andava no sul daquelas terras, um lugar por mim ainda não desbravado. Um cara que se apresentou como Lázaro, em um dos meus passeios em uma quarta feira chuvosa entre os destroços do que parecia ter sido um templo ou algo do gênero, foi quem me presenteou com a informação referente ao ponto de escambo mais generoso dessas terras “onde mau não precisa ser fecundado para nascer”, como ele mesmo se referiu.

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