Mnêmico Onírico - Murilo Salini
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Mnêmico Onírico

O corredor era húmido e gelado, o ar que eu mal respirava tinha cheiro e gosto metálicos, como de metano incubado em intestinos podres.

Das poças d’água, azedume e rancidez exalavam. Parei para observar uma delas, a maior até então, bem no meio do caminho, como o verme burguês que te manipula. Na superfície da poça, manchas amareladas, gordura…

Pequenos pedaços de carne? Aquilo era tecido muscular sem dúvida alguma… Pus uma amostra na boca, mastiguei lentamente… Diria que estava cru, não fosse a textura esfarelenta gerada pela decomposição.

Percebo algo de coloração distinta na poça. Tomo em minhas mãos e chacoalho o pequeno objeto, livrando-o daquela água viçosa.

Um dente. Um belo molar.

Flashes de minha mãe extraindo-me os dentes por volta de meus nove anos afligiram minha mente, de forma que quando retornei do meu inconsciente mnêmico, segurava em minha mão esquerda junto com o dente desconhecido, minha chapa.
Massageava com o dedo indicador a parte superior direita de minha gengiva nua, enquanto meus quatro dentes me observavam com desprezo, por dividirem espaço com o semelhante de origem desconhecida.

Malditos mesquinhos…

Fascistas…

Não há no seu corpo, parte qualquer tão fascista quanto a dentição. Usam o mesmo uniforme, sua união gera dano ao fator esterno e ao contrário dos dedos, é impossível promover um encontro e conciliação total com indivíduos da mesma “espécie” de um “território” diferente.

Apenas os que estão à frente. As lideranças. Os vendidos como tais.

ARRANQUE OS MALDITOS! TODOS! SABOREIE A LIBERDADE! O SANGUE!

Encaixei a dentadura, joguei o desconhecido na poça e prossegui.

O corredor era comprido mas eu via o limite do mesmo. Uma entrada de tamanho significativo com saliências irregulares em seus limites. É claro que da distância a qual me situava era visível apenas a silhueta da entrada em questão, gerada pela luz alaranjada que ocupava a sala que viria a seguir.

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Murilo Salini
Mnêmico Onírico

O corredor era húmido e gelado, o ar que eu mal respirava tinha cheiro e gosto metálicos, como de metano incubado em intestinos podres.

Das poças d’água, azedume e rancidez exalavam. Parei para observar uma delas, a maior até então, bem no meio do caminho, como o verme burguês que te manipula. Na superfície da poça, manchas amareladas, gordura…

Pequenos pedaços de carne? Aquilo era tecido muscular sem dúvida alguma… Pus uma amostra na boca, mastiguei lentamente… Diria que estava cru, não fosse a textura esfarelenta gerada pela decomposição.

Percebo algo de coloração distinta na poça. Tomo em minhas mãos e chacoalho o pequeno objeto, livrando-o daquela água viçosa.

Um dente. Um belo molar.

Flashes de minha mãe extraindo-me os dentes por volta de meus nove anos afligiram minha mente, de forma que quando retornei do meu inconsciente mnêmico, segurava em minha mão esquerda junto com o dente desconhecido, minha chapa.
Massageava com o dedo indicador a parte superior direita de minha gengiva nua, enquanto meus quatro dentes me observavam com desprezo, por dividirem espaço com o semelhante de origem desconhecida.

Malditos mesquinhos…

Fascistas…

Não há no seu corpo, parte qualquer tão fascista quanto a dentição. Usam o mesmo uniforme, sua união gera dano ao fator esterno e ao contrário dos dedos, é impossível promover um encontro e conciliação total com indivíduos da mesma “espécie” de um “território” diferente.

Apenas os que estão à frente. As lideranças. Os vendidos como tais.

ARRANQUE OS MALDITOS! TODOS! SABOREIE A LIBERDADE! O SANGUE!

Encaixei a dentadura, joguei o desconhecido na poça e prossegui.

O corredor era comprido mas eu via o limite do mesmo. Uma entrada de tamanho significativo com saliências irregulares em seus limites. É claro que da distância a qual me situava era visível apenas a silhueta da entrada em questão, gerada pela luz alaranjada que ocupava a sala que viria a seguir.

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