Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Mnêmico Onírico

Só então me dei conta da altura daquele inóspito corredor, e reparando nas superfícies das paredes azuladas identifiquei a origem do líquido empoçado.

Do início ao fim do soberbo corredor, rostos haviam sido emparedados. Não de forma regular e planejada, mas caótica e aleatória.

As faces, apesar de não mais conterem o brilho no olhar, comunicavam-me de modo sublime, passível à absorção, que habitavam nelas níveis de consciência, e ao julgar pelos semblantes, níveis que reconheciam o estímulo da dor por atrofia e sentimentos de agonia e desespero.

Toda a podridão que acometia aquele confuso local, provinha com saliva das almas emparedadas.

Não fosse a altura significativa demais para que eu alcançasse a primeira mandíbula aberta, eu teria escalado a imensa parede, agarrando-me a línguas desconhecidas, apoiando os pés nas bocas dos parasitas, e volta e meia, inserindo os dedos nas cavidades oculares, para sentir mais segurança quando chegasse ao topo.

Como a estatura limitava-me desisti do júbilo e segui a diante.

Ao aproximar-me da entrada percebi um som familiar… “Universal Mind” … Doors.

Com regozijo devido a canção, passei a reparar nas saliências que adornavam a entrada. Ossos pontiagudos colossais. Entre eles, espinhas humanas.

No cômodo, além de minha insignificância, havia uma grande poltrona vermelha de encosto alto. E nela, um indivíduo nu, o qual a princípio fui incapaz de notar as características devido a distância e péssima visão. Repousava a cabeça no peito e permanecia imóvel.

Olhei para os limites da grande sala, a iluminação alaranjada era proveniente de fogueiras laterais paralelas às paredes. O combustível? Corpos de crianças.

– Com seus corpos eu faço o fogo. Com sua inocência vos envio as chuvas.

A voz grave e rouca surgiu como um intruso pensamento.

Me virei e a figura acomodada na poltrona nutria agora postura ativa.

– Aproxime-se parasita… Deixe-me sentir com afinco o doce cheiro de sua tristeza.

A medida que me aproximava do estranho, voltava meus olhos ao chão e meus pés, efeito de minha crônica timidez.

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Murilo Salini
Mnêmico Onírico

Só então me dei conta da altura daquele inóspito corredor, e reparando nas superfícies das paredes azuladas identifiquei a origem do líquido empoçado.

Do início ao fim do soberbo corredor, rostos haviam sido emparedados. Não de forma regular e planejada, mas caótica e aleatória.

As faces, apesar de não mais conterem o brilho no olhar, comunicavam-me de modo sublime, passível à absorção, que habitavam nelas níveis de consciência, e ao julgar pelos semblantes, níveis que reconheciam o estímulo da dor por atrofia e sentimentos de agonia e desespero.

Toda a podridão que acometia aquele confuso local, provinha com saliva das almas emparedadas.

Não fosse a altura significativa demais para que eu alcançasse a primeira mandíbula aberta, eu teria escalado a imensa parede, agarrando-me a línguas desconhecidas, apoiando os pés nas bocas dos parasitas, e volta e meia, inserindo os dedos nas cavidades oculares, para sentir mais segurança quando chegasse ao topo.

Como a estatura limitava-me desisti do júbilo e segui a diante.

Ao aproximar-me da entrada percebi um som familiar… “Universal Mind” … Doors.

Com regozijo devido a canção, passei a reparar nas saliências que adornavam a entrada. Ossos pontiagudos colossais. Entre eles, espinhas humanas.

No cômodo, além de minha insignificância, havia uma grande poltrona vermelha de encosto alto. E nela, um indivíduo nu, o qual a princípio fui incapaz de notar as características devido a distância e péssima visão. Repousava a cabeça no peito e permanecia imóvel.

Olhei para os limites da grande sala, a iluminação alaranjada era proveniente de fogueiras laterais paralelas às paredes. O combustível? Corpos de crianças.

– Com seus corpos eu faço o fogo. Com sua inocência vos envio as chuvas.

A voz grave e rouca surgiu como um intruso pensamento.

Me virei e a figura acomodada na poltrona nutria agora postura ativa.

– Aproxime-se parasita… Deixe-me sentir com afinco o doce cheiro de sua tristeza.

A medida que me aproximava do estranho, voltava meus olhos ao chão e meus pés, efeito de minha crônica timidez.

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