Mnêmico Onírico - Murilo Salini
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Mnêmico Onírico

“Para nosso corpo, teu profano olhar não dignas

Se a vergonha te assombra, o medo te agride

Brota dele e de teu trauma, as atrocidades que imaginas

Precipitas em julgar acaso, a dor que em ti progride”

A voz que agora era suave e aguda, trouxe à tona um segundo flash. O Sol brilhava altivo enquanto executava com graciosidade o nado de costas naquela piscina bicentenária de meus antepassados, então cheia com o sangue e corpos que boiavam ao meu lado, dos carneiros que eu mesmo assassinei.

Ao ser recapturado pelo “agora”, flagrei-me a um passo médio da poltrona e do indivíduo.

– Mais um verme sonhador – Aquilo tocou meu rosto com sua mão direita – Podre! No entanto, lhe falta o doce aroma da putrefação.

A mão deslizou do lado esquerdo de meu rosto até o centro e seguiu até meu peito, parando no meu coração.

“Alcateia faminta, em teu coração habita

Será a Revolta ou a Saudade, o teu guia?

Barganhas-te inocência por uma alma aflita

Tua aura já brilhou, mas é opaca hoje em dia”

A mão que me tocava era magra em demasia, o braço direito por inteiro, para ser mais preciso. A estrutura óssea do membro era nítida debaixo da pele fina amarelada.

Estranheza e contemplação ocupavam minha mente enquanto eu observava detalhe por detalhe daquele paradoxo plástico. Seu corpo era parcela frágil e parcela forte. Sua postura refletia prostração ao mesmo tempo que suas vozes eram de convicta imponência.

O lado esquerdo de seu tronco nutria consistente musculatura, um braço forte, uma mão grossa com unhas pontiagudas manchadas de algo como sangue seco. Total antônimo do braço e mãos direitos.

Os membros inferiores eram finos mas compridos, os pés lembravam os de nossos ancestrais símios, polegares opositores, mas também de fina espessura.

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Murilo Salini
Mnêmico Onírico

“Para nosso corpo, teu profano olhar não dignas

Se a vergonha te assombra, o medo te agride

Brota dele e de teu trauma, as atrocidades que imaginas

Precipitas em julgar acaso, a dor que em ti progride”

A voz que agora era suave e aguda, trouxe à tona um segundo flash. O Sol brilhava altivo enquanto executava com graciosidade o nado de costas naquela piscina bicentenária de meus antepassados, então cheia com o sangue e corpos que boiavam ao meu lado, dos carneiros que eu mesmo assassinei.

Ao ser recapturado pelo “agora”, flagrei-me a um passo médio da poltrona e do indivíduo.

– Mais um verme sonhador – Aquilo tocou meu rosto com sua mão direita – Podre! No entanto, lhe falta o doce aroma da putrefação.

A mão deslizou do lado esquerdo de meu rosto até o centro e seguiu até meu peito, parando no meu coração.

“Alcateia faminta, em teu coração habita

Será a Revolta ou a Saudade, o teu guia?

Barganhas-te inocência por uma alma aflita

Tua aura já brilhou, mas é opaca hoje em dia”

A mão que me tocava era magra em demasia, o braço direito por inteiro, para ser mais preciso. A estrutura óssea do membro era nítida debaixo da pele fina amarelada.

Estranheza e contemplação ocupavam minha mente enquanto eu observava detalhe por detalhe daquele paradoxo plástico. Seu corpo era parcela frágil e parcela forte. Sua postura refletia prostração ao mesmo tempo que suas vozes eram de convicta imponência.

O lado esquerdo de seu tronco nutria consistente musculatura, um braço forte, uma mão grossa com unhas pontiagudas manchadas de algo como sangue seco. Total antônimo do braço e mãos direitos.

Os membros inferiores eram finos mas compridos, os pés lembravam os de nossos ancestrais símios, polegares opositores, mas também de fina espessura.

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