Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Mnêmico Onírico

A pele era coberta por feridas, algumas em processo de cicatrização, outras recém concebidas. Ímpetos purulentos me invadiam ideias enquanto eu reparava.

O ser nutria saliente convexa barriga, como se abrigasse uma população inteira de vermes famintos por reprodução.

Havia naquela criatura, um único encéfalo, porém deformado, o que acusava a tentativa da geração de dois indivíduos, porém falha a tentativa, duas faces, ou a julgar pelas vozes, dois indivíduos passaram a carregar a inflexibilidade de viver inseridos um no outro.

Não havia nariz para determinar o centro e o encontro das faces, mas haviam quatro narinas, furos desprotegidos, dois em cada extremo do crânio. Cada face disforme possuía uma boca. No lado direito, com membros inferiores mais frágeis, situava-se uma boca pequena com os extremos costurados. No lado esquerdo, que nutria vasto peitoral e braço, a boca era grande, permanecia aberta e de seus dentes pontiagudos gotejava saliva para fora da boca.

Cada face continha uma cavidade ocular, cadafalsos portais para o que quer que se imaginasse e temesse a concretização. Mas para o corpo todo, havia apenas um olho.

Uma íris amarelada.

Uma íris caótica.

Uma íris qual a cor e frigidez arrasta tua mente nas areias de um deserto de vidro.

Uma pupila tão negra que se fixado o olhar, sua pele borbulharia ante as queimaduras do “Nada”.

Séssil como uma papoula no vácuo, eu o observava.

Não havia dirigido palavra alguma à aquele ser, mas a mais ínfima de minhas supostas certezas, dizia-me que aquilo era o que chamávamos de divindade.

Um deus siamês, acomodado em um trono de carne e sangue.

A mão magra em formato de pinça segurou e retirou vagarosamente o olho de sua atual cavidade e passou com delicadeza para a vigorosa mão esquerda, esta que com precisão inseriu-o no outro espaço destinado a sua visão.

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Murilo Salini
Mnêmico Onírico

A pele era coberta por feridas, algumas em processo de cicatrização, outras recém concebidas. Ímpetos purulentos me invadiam ideias enquanto eu reparava.

O ser nutria saliente convexa barriga, como se abrigasse uma população inteira de vermes famintos por reprodução.

Havia naquela criatura, um único encéfalo, porém deformado, o que acusava a tentativa da geração de dois indivíduos, porém falha a tentativa, duas faces, ou a julgar pelas vozes, dois indivíduos passaram a carregar a inflexibilidade de viver inseridos um no outro.

Não havia nariz para determinar o centro e o encontro das faces, mas haviam quatro narinas, furos desprotegidos, dois em cada extremo do crânio. Cada face disforme possuía uma boca. No lado direito, com membros inferiores mais frágeis, situava-se uma boca pequena com os extremos costurados. No lado esquerdo, que nutria vasto peitoral e braço, a boca era grande, permanecia aberta e de seus dentes pontiagudos gotejava saliva para fora da boca.

Cada face continha uma cavidade ocular, cadafalsos portais para o que quer que se imaginasse e temesse a concretização. Mas para o corpo todo, havia apenas um olho.

Uma íris amarelada.

Uma íris caótica.

Uma íris qual a cor e frigidez arrasta tua mente nas areias de um deserto de vidro.

Uma pupila tão negra que se fixado o olhar, sua pele borbulharia ante as queimaduras do “Nada”.

Séssil como uma papoula no vácuo, eu o observava.

Não havia dirigido palavra alguma à aquele ser, mas a mais ínfima de minhas supostas certezas, dizia-me que aquilo era o que chamávamos de divindade.

Um deus siamês, acomodado em um trono de carne e sangue.

A mão magra em formato de pinça segurou e retirou vagarosamente o olho de sua atual cavidade e passou com delicadeza para a vigorosa mão esquerda, esta que com precisão inseriu-o no outro espaço destinado a sua visão.

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