Mnêmico Onírico - Murilo Salini
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Mnêmico Onírico

“O homem colheu a erva fresca, para seca por moedas trocar

Obstruiu a visão do fraco, fez seguir pelo flagelo

Irmão meu estava a morrer no ventre, por amor quis me doar

Metade de um ao outro agora pertence, vosso ‘feio’ nosso ‘belo’”

Chegamos ao fim do extenso corredor, mas o lugar no qual estávamos agora distinguia-se do lugar no qual tomei a consciência quando aqui surgi.

Havia no extremo do corredor uma grande porta de madeira, mas não tão grande quanto a que dava acesso a sala anterior.
A criatura ergueu a enorme tranca que consistia em um barrote de madeira atravessado e apoiado em dois suportes de ferro avermelhado.

Abriu a porta revelando uma paisagem fantástica. Do alto de um penhasco, víamos um mar turbulento de cor amarelada que guiava um enorme barco cheio de pessoas, todas em pé, todas imóveis e caladas. Da ponta do barco se erguia o tronco colossal de uma segunda criatura monstruosa, esta que meus estudos mitológicos da pré-adolescência não permitiram-me desconhecer.

– Caronte… – Falei baixo, como que para mim mesmo.

– Sim! O bom e velho Caronte. Que na realidade nunca ligou para suas moedas.

– O que interessa então ao velho Caronte?

“A Fome resseca o sossego de quem trabalha

A abrasão silenciosa, se assemelha a Solidão

Destinamos a Caronte, o só barqueiro da mortalha

O antídoto que a ambos sana, de cada corpo o coração”

A criatura apontou para a praia na qual Caronte repousava e os funestos passageiros desembarcavam. Lá um armação de madeira sustentava um caldeirão suspenso por correntes nas laterais, do qual escorria sangue ininterruptamente.

– E aqui vocês realizam a triagem anímica, separando os maus dos bons e guiando cada um para o local merecido.

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Murilo Salini
Mnêmico Onírico

“O homem colheu a erva fresca, para seca por moedas trocar

Obstruiu a visão do fraco, fez seguir pelo flagelo

Irmão meu estava a morrer no ventre, por amor quis me doar

Metade de um ao outro agora pertence, vosso ‘feio’ nosso ‘belo’”

Chegamos ao fim do extenso corredor, mas o lugar no qual estávamos agora distinguia-se do lugar no qual tomei a consciência quando aqui surgi.

Havia no extremo do corredor uma grande porta de madeira, mas não tão grande quanto a que dava acesso a sala anterior.
A criatura ergueu a enorme tranca que consistia em um barrote de madeira atravessado e apoiado em dois suportes de ferro avermelhado.

Abriu a porta revelando uma paisagem fantástica. Do alto de um penhasco, víamos um mar turbulento de cor amarelada que guiava um enorme barco cheio de pessoas, todas em pé, todas imóveis e caladas. Da ponta do barco se erguia o tronco colossal de uma segunda criatura monstruosa, esta que meus estudos mitológicos da pré-adolescência não permitiram-me desconhecer.

– Caronte… – Falei baixo, como que para mim mesmo.

– Sim! O bom e velho Caronte. Que na realidade nunca ligou para suas moedas.

– O que interessa então ao velho Caronte?

“A Fome resseca o sossego de quem trabalha

A abrasão silenciosa, se assemelha a Solidão

Destinamos a Caronte, o só barqueiro da mortalha

O antídoto que a ambos sana, de cada corpo o coração”

A criatura apontou para a praia na qual Caronte repousava e os funestos passageiros desembarcavam. Lá um armação de madeira sustentava um caldeirão suspenso por correntes nas laterais, do qual escorria sangue ininterruptamente.

– E aqui vocês realizam a triagem anímica, separando os maus dos bons e guiando cada um para o local merecido.

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