Mnêmico Onírico - Murilo Salini
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Mnêmico Onírico

– HAHAHA! Ser bom é bom senso, não mérito. Já lhe disse anteriormente, o Inferno não existe, nem mesmo o céu. Apenas a vida eterna.

A voz rouca cessou e a criatura apontou para as paredes do corredor.

– Filho da puta…

– Não sabemos como funciona o mundo daquele lado, mas de uma coisa sabemos, a perfeição é o fardo que quem concebeu tais ideias, não nutria.

Se o destino do indivíduo após anos de martírio no plano terreno consistia naquela fria e escura podridão, tornaria a ler as fórmulas e magias de imortalidade.

– Todos os mortais estão fadados a isso?

– Todos, exceto crianças e suicidas.

“O indivíduo melancólico, na solitude engrandece

Constrói envolta de si, armadura impenetrável

No ápice de seu martírio faz da morte sua prece

Por amor próprio o sacrifício, liberdade incalculável”

Ao ouvir tais palavras, o ímpeto suicida delirante, em mim tornou a aflorar. Não hesitei, não congelei… Corri pela porta em direção ao penhasco e pulei.

O mar de bile enrijecia os músculos, corroía a pele, e fez-me apagar.

Acordei em uma maca fixa na lateral de um quarto todo branco de paredes e chão acolchoados. Na outra extremidade da sala, uma mesa de madeira, e uma pasta de prontuário.

Levantei, haviam me vestido roupas limpas, o cheiro daquele amaciante confortava-me a cada suspiro. Na pasta, a logo e os contatos da Clínica Mundo Novo.

Olhei para o teto, a lâmpada fluorescente era protegida por uma fina superfície de acrílico, fixada com cola em laterais de alumínio.

A noção de tempo nesses locais é inexistente, o fato é que o gastei, assim como a ponta de meus dedos e unhas, arrancando de uma das pernas da mesa velha, um pequeno prego de aço.

Pus a mesa embaixo da lâmpada, enfiei a ponta do prego criando um pequeno vão entre a proteção de lata e o teto, descolei-a, retirei o acrílico, e em seguida desencaixei a lâmpada.

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Murilo Salini
Mnêmico Onírico

– HAHAHA! Ser bom é bom senso, não mérito. Já lhe disse anteriormente, o Inferno não existe, nem mesmo o céu. Apenas a vida eterna.

A voz rouca cessou e a criatura apontou para as paredes do corredor.

– Filho da puta…

– Não sabemos como funciona o mundo daquele lado, mas de uma coisa sabemos, a perfeição é o fardo que quem concebeu tais ideias, não nutria.

Se o destino do indivíduo após anos de martírio no plano terreno consistia naquela fria e escura podridão, tornaria a ler as fórmulas e magias de imortalidade.

– Todos os mortais estão fadados a isso?

– Todos, exceto crianças e suicidas.

“O indivíduo melancólico, na solitude engrandece

Constrói envolta de si, armadura impenetrável

No ápice de seu martírio faz da morte sua prece

Por amor próprio o sacrifício, liberdade incalculável”

Ao ouvir tais palavras, o ímpeto suicida delirante, em mim tornou a aflorar. Não hesitei, não congelei… Corri pela porta em direção ao penhasco e pulei.

O mar de bile enrijecia os músculos, corroía a pele, e fez-me apagar.

Acordei em uma maca fixa na lateral de um quarto todo branco de paredes e chão acolchoados. Na outra extremidade da sala, uma mesa de madeira, e uma pasta de prontuário.

Levantei, haviam me vestido roupas limpas, o cheiro daquele amaciante confortava-me a cada suspiro. Na pasta, a logo e os contatos da Clínica Mundo Novo.

Olhei para o teto, a lâmpada fluorescente era protegida por uma fina superfície de acrílico, fixada com cola em laterais de alumínio.

A noção de tempo nesses locais é inexistente, o fato é que o gastei, assim como a ponta de meus dedos e unhas, arrancando de uma das pernas da mesa velha, um pequeno prego de aço.

Pus a mesa embaixo da lâmpada, enfiei a ponta do prego criando um pequeno vão entre a proteção de lata e o teto, descolei-a, retirei o acrílico, e em seguida desencaixei a lâmpada.

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