Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Planeta Cronos

Há muito tempo atrás, quando o “homem não era homem” e vagava pelos nichos da sobrevivência nu e arcado, havia atrás de uma densa floresta, uma pastagem cuja extensão os olhos não cobriam sem que, pelo menos mil passos à frente fossem dados. O verde mais cativo de toda a flora local emanava de tal pastagem que, como uma mãe zela um filho, aconchegava as almas nômades perdidas dos coletivos.

Ali eu mesmo pude me deitar. A visão do céu nunca fora tão bonita. O vento tocava meu corpo como as águas de um raso riacho tocariam.

Aconteceu que ali adormeci por pelo menos dois terços de noite pois fui acordado por um pesadelo. Tempos antes do ocorrido eu havia conversado com o Senhor dos Sonhos e este garantiu-me que nenhum ocorrido no mundo onírico é vil.

No sonho eu beirava uma cratera tão grande de altura quanto de extensão. A depressão situava-se em meio a um deserto alaranjado, e dentro dela, havia sangue. Curvei-me em direção ao cânion sangrento e experimentei a sensação da queda livre, mas despertei antes do mergulho.

Levantei-me e olhei instintivamente para o horizonte onde só podia ver a acolhedora pastagem, gramíneas de um verde tão claro e cativo que pareciam iluminar o ambiente tanto quanto a lua daquele pequeno planeta. Minha curiosidade era tão grande quanto a segurança de um passeio sereno que me era transmitida pelo lugar, e isso tirou-me da inércia.

No horizonte daquela pastagem, após os mil passos dados, era possível perceber uma formação alaranjada que com a proximidade de meu ser revelou-se um deserto.

Enquanto saía da pastagem minha curiosidade e ansiedade apertavam meu coração e alteravam meus sentidos. As rochas naquele deserto, todas de tamanho significativo, duas vezes a minha altura e talvez três vezes minha largura, estavam dispostas em duas linhas paralelas, mas “serpenteantes”, com uma distância de ao menos quatro rochas entre as linhas e uma rocha entre as próprias rochas, formando assim uma espécie de “caminho” onde, por motivos não aparentes, a areia brilhava e se movia como se cada grão fosse um organismo vivo.

Resolvi seguir aquele caminho, mas evitando olhar fixamente para o chão pois a estranha movimentação da areia causava-me sensação de vertigem. Lá pelos 600 passos dados fui tomado pelo cansaço, sentei-me ao chão e recostei-me numa das rochas. Ali permaneci vagando entre os devaneios de minha mente até que ouvi barulhos do que pareciam cascos.

Levantei-me e vi a distância, seguindo o caminho, o que pareciam ser cervos. Curioso com a beleza e comportamento dos animais resolvi esconder-me atrás da rocha na qual antes me recostava. Eram três, todos bem alimentados, fortes e aparentemente saudáveis, observei-os até que suas imagens desaparecessem no horizonte devido ao constante trote por eles mantido pelo curioso caminho.

Logo após perder de vista os cervos, olhei novamente para o principio do caminho por onde marchava uma manada inteira de búfalos. Mantive-me atrás da rocha, agora assustado pela inclinação daquelas almas de seguir aquele caminho predeterminado ignorando a fadiga por ele causado.

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Murilo Salini
Planeta Cronos

Há muito tempo atrás, quando o “homem não era homem” e vagava pelos nichos da sobrevivência nu e arcado, havia atrás de uma densa floresta, uma pastagem cuja extensão os olhos não cobriam sem que, pelo menos mil passos à frente fossem dados. O verde mais cativo de toda a flora local emanava de tal pastagem que, como uma mãe zela um filho, aconchegava as almas nômades perdidas dos coletivos.

Ali eu mesmo pude me deitar. A visão do céu nunca fora tão bonita. O vento tocava meu corpo como as águas de um raso riacho tocariam.

Aconteceu que ali adormeci por pelo menos dois terços de noite pois fui acordado por um pesadelo. Tempos antes do ocorrido eu havia conversado com o Senhor dos Sonhos e este garantiu-me que nenhum ocorrido no mundo onírico é vil.

No sonho eu beirava uma cratera tão grande de altura quanto de extensão. A depressão situava-se em meio a um deserto alaranjado, e dentro dela, havia sangue. Curvei-me em direção ao cânion sangrento e experimentei a sensação da queda livre, mas despertei antes do mergulho.

Levantei-me e olhei instintivamente para o horizonte onde só podia ver a acolhedora pastagem, gramíneas de um verde tão claro e cativo que pareciam iluminar o ambiente tanto quanto a lua daquele pequeno planeta. Minha curiosidade era tão grande quanto a segurança de um passeio sereno que me era transmitida pelo lugar, e isso tirou-me da inércia.

No horizonte daquela pastagem, após os mil passos dados, era possível perceber uma formação alaranjada que com a proximidade de meu ser revelou-se um deserto.

Enquanto saía da pastagem minha curiosidade e ansiedade apertavam meu coração e alteravam meus sentidos. As rochas naquele deserto, todas de tamanho significativo, duas vezes a minha altura e talvez três vezes minha largura, estavam dispostas em duas linhas paralelas, mas “serpenteantes”, com uma distância de ao menos quatro rochas entre as linhas e uma rocha entre as próprias rochas, formando assim uma espécie de “caminho” onde, por motivos não aparentes, a areia brilhava e se movia como se cada grão fosse um organismo vivo.

Resolvi seguir aquele caminho, mas evitando olhar fixamente para o chão pois a estranha movimentação da areia causava-me sensação de vertigem. Lá pelos 600 passos dados fui tomado pelo cansaço, sentei-me ao chão e recostei-me numa das rochas. Ali permaneci vagando entre os devaneios de minha mente até que ouvi barulhos do que pareciam cascos.

Levantei-me e vi a distância, seguindo o caminho, o que pareciam ser cervos. Curioso com a beleza e comportamento dos animais resolvi esconder-me atrás da rocha na qual antes me recostava. Eram três, todos bem alimentados, fortes e aparentemente saudáveis, observei-os até que suas imagens desaparecessem no horizonte devido ao constante trote por eles mantido pelo curioso caminho.

Logo após perder de vista os cervos, olhei novamente para o principio do caminho por onde marchava uma manada inteira de búfalos. Mantive-me atrás da rocha, agora assustado pela inclinação daquelas almas de seguir aquele caminho predeterminado ignorando a fadiga por ele causado.

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