Mundo em Fúria - Petter Baiestorf
Petter Baiestorf
Teve um dia em que os espermatozóides festeiros de meu pai partiram em direção ao barzinho óvulo de minha mãe e lá começaram um sambinha esperto do criolo doido e eu ali nasci. Era 1974 e o clima de família tradicional/milico no poder/igreja vomitando regras me fez bem pra cabeça e virei, nada mais lógico, ateu anarquista debochado avesso a qualquer tipo de regras. Lá por 1988, um pouco antes talvez, comecei a escrever contos no caderno da escola. Tentei virar poeta, mas aí descobri os fanzines e comecei a colaborar e, na sequência, editar meus próprios títulos. Foi com fanzines que consegui conciliar minhas paixões por literatura, quadrinhos, música e, a maior de todas, cinema. Em 1992, com meu amigo de escola E.B. Toniolli, fundei a Canibal Filmes e comecei a filmar em VHS amador mesmo. Em 1995 um filme meu chamado "O Monstro Legume do Espaço" apresentou meu grupo pro underground brasileiro e, de lá pra cá, só tô tentando aproveitar o máximo essa festinha que é a vida.




Mundo em Fúria

       Pelas imagens da TV, parecia ser muito sério. Inúmeras vítimas da violência da natureza. Apesar de alegre, porque seu filho iria nascer, Adão sentiu tristeza pelo povo japonês, que acabava de sofrer uma catástrofe sem precedentes. Seu sogro abraçou-o com a ternura de uma família unida e lhe disse para que se concentrasse no nascimento de seu filho.

       Os minutos foram passando e se tornando horas. Adão e seu sogro começaram a ficar preocupados. Mesmo não entendendo muito de partos, ambos tinham ideia de que não era tão demorado.

       Na TV, as imagens da destruição na costa japonesa não eram uma boa companhia. As imagens agora mostravam que a usina nuclear de Fukushima havia sido atingida e que um vazamento de material radioativo era iminente. Nenhum pai quer legar um planeta completamente poluído para seu filho. Era este o pensamento de Adão, enquanto esperava agoniado por notícia de sua esposa, de seu filho.

       Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de sapatos ecoando pelos corredores desertos do hospital. Adão se levantou e foi até Marcelo, o médico que vinha em sua direção, com olhar sério e antipático. Um olhar que parecia trazer más notícias. Ou isso ou Marcelo estava com uma prisão de ventre de magnitude tão grande quanto o tsunami que acabara de acontecer do outro lado do mundo.

       Os dois homens se encontraram no meio do gélido corredor hospitalar. O médico disse, para o aflito Adão, que tudo havia corrido bem. O parto havia demorado porque o bebê estava em posição errada. Levou certo tempo até conseguir deixá-lo na posição correta. O bebê havia nascido saudável e Eva estava perfeitamente bem, já instalada em um quarto.

       Aliviado, o jovem papai foi levado até o quarto onde Eva estava com o bebê. Marcelo caminhou até o careca-cabeludo, para lhe dar a notícia do nascimento do neto. Antes de contar qualquer coisa ao velho, Marcelo olhou para a TV e fixou os olhos nas imagens. O jornal noticiava que três reatores nucleares da Usina de Fukushima haviam parado de funcionar e poderiam derreter.

       Quando Adão entrou no quarto onde sua amada Eva repousava com seu filho, todos os problemas do mundo haviam cessado. Adão chorava de alegria e pegou, desajeitadamente, seu filho nos braços pela primeira vez. Eva olhou-os com ternura e perguntou a Adão se iriam mesmo colocar o nome de Abel no menino. Claro! Afinal, como bons ateus, seria muito divertido que eles mantivessem aquela piada marota com a mitologia cristã. Eva sorriu.

       Naquele momento, nada mais existia no mundo para Adão, Eva e seu filho Abel, nem o acidente em Fukushima.

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Petter Baiestorf
Mundo em Fúria

       Pelas imagens da TV, parecia ser muito sério. Inúmeras vítimas da violência da natureza. Apesar de alegre, porque seu filho iria nascer, Adão sentiu tristeza pelo povo japonês, que acabava de sofrer uma catástrofe sem precedentes. Seu sogro abraçou-o com a ternura de uma família unida e lhe disse para que se concentrasse no nascimento de seu filho.

       Os minutos foram passando e se tornando horas. Adão e seu sogro começaram a ficar preocupados. Mesmo não entendendo muito de partos, ambos tinham ideia de que não era tão demorado.

       Na TV, as imagens da destruição na costa japonesa não eram uma boa companhia. As imagens agora mostravam que a usina nuclear de Fukushima havia sido atingida e que um vazamento de material radioativo era iminente. Nenhum pai quer legar um planeta completamente poluído para seu filho. Era este o pensamento de Adão, enquanto esperava agoniado por notícia de sua esposa, de seu filho.

       Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de sapatos ecoando pelos corredores desertos do hospital. Adão se levantou e foi até Marcelo, o médico que vinha em sua direção, com olhar sério e antipático. Um olhar que parecia trazer más notícias. Ou isso ou Marcelo estava com uma prisão de ventre de magnitude tão grande quanto o tsunami que acabara de acontecer do outro lado do mundo.

       Os dois homens se encontraram no meio do gélido corredor hospitalar. O médico disse, para o aflito Adão, que tudo havia corrido bem. O parto havia demorado porque o bebê estava em posição errada. Levou certo tempo até conseguir deixá-lo na posição correta. O bebê havia nascido saudável e Eva estava perfeitamente bem, já instalada em um quarto.

       Aliviado, o jovem papai foi levado até o quarto onde Eva estava com o bebê. Marcelo caminhou até o careca-cabeludo, para lhe dar a notícia do nascimento do neto. Antes de contar qualquer coisa ao velho, Marcelo olhou para a TV e fixou os olhos nas imagens. O jornal noticiava que três reatores nucleares da Usina de Fukushima haviam parado de funcionar e poderiam derreter.

       Quando Adão entrou no quarto onde sua amada Eva repousava com seu filho, todos os problemas do mundo haviam cessado. Adão chorava de alegria e pegou, desajeitadamente, seu filho nos braços pela primeira vez. Eva olhou-os com ternura e perguntou a Adão se iriam mesmo colocar o nome de Abel no menino. Claro! Afinal, como bons ateus, seria muito divertido que eles mantivessem aquela piada marota com a mitologia cristã. Eva sorriu.

       Naquele momento, nada mais existia no mundo para Adão, Eva e seu filho Abel, nem o acidente em Fukushima.

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