O Sobrenatural caso de Maria - Raphael Viana
Raphael Viana
Raphael Viana nasceu no Rio de Janeiro, em 6 de Março de 1990. Morador da Baixada Fluminense, o filho de professora despertou cedo o interesse por histórias. Tornou-se cinéfilo graças aos clássicos do Cinema em casa e Sessão da tarde, além de amante de quadrinhos ainda no ensino fundamental. Não demorou muito para surgirem os rascunhos daquelas que seriam suas primeiras histórias de ficção. Na adolescência, descobriu o RPG e através da atividade desenvolveu ainda mais a arte de contar histórias e criar personagens e mundos fantásticos.
Fã de filmes policiais e narrativas urbanas violentas, cheias de corrupção e toda tensão, sangue e vísceras que essas histórias proporcionam, o jovem escritor cita Frank Miller, Garth Ennis e Mark Millar como algumas de suas leituras favoritas, que juntamente com os filmes de Quentin Tarantino, formam as suas maiores influências. O interesse pelo gênero do terror, sobrenatural e baixa fantasia repletas de monstros e lendas urbanas, somaram-se a tudo isso para agregar ainda mais as narrativas do escritor, tornando-as ainda mais tenebrosas. Apesar das influências, Viana preza muito a literatura nacional e acredita que há no Brasil grandes talentos ocultos que merecem ser apreciados. Em seus textos, busca sempre explorar o cenário riquíssimo, porém, muito mal aproveitado: o folclore brasileiro, as lendas urbanas e os ótimos cenários para histórias cheio de pontos turísticos e lugares fantásticos do nosso país.
Hoje, aos 27 anos, Raphael é casado e ainda reside no Rio de Janeiro. Aluno da agência de escritores Vivendo de Inventar, fundada por André Vianco, um dos maiores nomes do terror nacional, Raphael desenvolve contos para plataformas digitais e trabalha em seu primeiro livro.





O Sobrenatural caso de Maria

– Você nunca irá encontrá-lo.

Sem outra opção, ao perceber que o mesmo nada falaria e ficando cada vez mais sem tempo Maria recorreu ao seu último recurso.

Seu olhar revirou e um luminoso, porém, sombrio brilho escarlate dominou o azul cristalino da íris da jovem.

– O que você está fazendo? O que é isso? – Perguntou o demônio claramente assustado. – Eu reconheço esse olhar… – O demônio pareceu não acreditar no que via.

– Vo-vo-vo-você… – Gaguejou afastando-se da menina desesperado ignorando a dor da ferida. Seus finos dedos femininos envolveram o rosto do demônio, imobilizando-o. O olhar fumegante de Maria perfurou os olhos brancos do ser penetrando fundo a alma do possuído até encontrar o local onde aquele espírito maligno se escondia. O demônio se debateu tentando se soltar, mas a força de Maria era descomunal.

– Há muito sangue inocente em suas mãos. – Disse Maria agora com a mesma voz distorcida e disforme do demônio. Como em um download a mente da caçadora recebeu as imagens de todo o caminho trilhado por aquele ser humano desde o momento da possessão.

Assim como o ser maligno contemplava os pesadelos na cabeça da caçadora como uma espécie de ligação demoníaca. Maria pôde acessar as lembranças de todas as atrocidades que aquele demônio havia realizado até aquela fatídica noite.

– Volte para o inferno. Você já me deu o que precisava…

BLAM

 

***

Onze horas e quarenta e dois minutos.

– Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco… – Dos lábios sensíveis e puros da bela jovem de rosto angelical a oração se iniciou.

Havia pouco tempo que Maria havia descoberto esses outros dons que despertavam seu instinto selvagem e assassino. Ninguém na Legião de Maria sabia a respeito deles, exceto padre Bento. Ele a ajudou a controlá-lo mostrando que a convicção na crença poderia manter sua sanidade. Contudo, cada vez que os usava uma Maria furiosa e depravada tomava o lugar da serena puritana. Era necessário o anjo domar o demônio dentro dela. As preces a acalmavam trazendo de volta a meiga menina de olhos de diamante.

– …bendita sois vós entre as mulheres… –

Do alto do viaduto à beira do parapeito Maria encarou a face do abismo. Pragmática, continuou de forma respeitosa a oração da santa a quem era devota como fazia todas as noites. Noites de caça, a terceira seguida sem cessar à busca. As gotas gélidas do temporal que caía fendiam a pele branca e delicada de Maria como chicotadas em dias de purificação. A chuva a mantinha acordada, enquanto o vento frio que soprava forte levava para longe as muitas palavras da oração que jorravam de sua boca como um mantra.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13

Raphael Viana
O Sobrenatural caso de Maria

– Você nunca irá encontrá-lo.

Sem outra opção, ao perceber que o mesmo nada falaria e ficando cada vez mais sem tempo Maria recorreu ao seu último recurso.

Seu olhar revirou e um luminoso, porém, sombrio brilho escarlate dominou o azul cristalino da íris da jovem.

– O que você está fazendo? O que é isso? – Perguntou o demônio claramente assustado. – Eu reconheço esse olhar… – O demônio pareceu não acreditar no que via.

– Vo-vo-vo-você… – Gaguejou afastando-se da menina desesperado ignorando a dor da ferida. Seus finos dedos femininos envolveram o rosto do demônio, imobilizando-o. O olhar fumegante de Maria perfurou os olhos brancos do ser penetrando fundo a alma do possuído até encontrar o local onde aquele espírito maligno se escondia. O demônio se debateu tentando se soltar, mas a força de Maria era descomunal.

– Há muito sangue inocente em suas mãos. – Disse Maria agora com a mesma voz distorcida e disforme do demônio. Como em um download a mente da caçadora recebeu as imagens de todo o caminho trilhado por aquele ser humano desde o momento da possessão.

Assim como o ser maligno contemplava os pesadelos na cabeça da caçadora como uma espécie de ligação demoníaca. Maria pôde acessar as lembranças de todas as atrocidades que aquele demônio havia realizado até aquela fatídica noite.

– Volte para o inferno. Você já me deu o que precisava…

BLAM

 

***

Onze horas e quarenta e dois minutos.

– Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco… – Dos lábios sensíveis e puros da bela jovem de rosto angelical a oração se iniciou.

Havia pouco tempo que Maria havia descoberto esses outros dons que despertavam seu instinto selvagem e assassino. Ninguém na Legião de Maria sabia a respeito deles, exceto padre Bento. Ele a ajudou a controlá-lo mostrando que a convicção na crença poderia manter sua sanidade. Contudo, cada vez que os usava uma Maria furiosa e depravada tomava o lugar da serena puritana. Era necessário o anjo domar o demônio dentro dela. As preces a acalmavam trazendo de volta a meiga menina de olhos de diamante.

– …bendita sois vós entre as mulheres… –

Do alto do viaduto à beira do parapeito Maria encarou a face do abismo. Pragmática, continuou de forma respeitosa a oração da santa a quem era devota como fazia todas as noites. Noites de caça, a terceira seguida sem cessar à busca. As gotas gélidas do temporal que caía fendiam a pele branca e delicada de Maria como chicotadas em dias de purificação. A chuva a mantinha acordada, enquanto o vento frio que soprava forte levava para longe as muitas palavras da oração que jorravam de sua boca como um mantra.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13