Crônicas de um suicídio - Rodrigo A. Leonardi
Rodrigo A. Leonardi
Rodrigo A. Leonardi, fanático por literatura maldita e contos góticos. Desenhista técnico, cinéfilo. Como Músico ja fui baixista/vocalista e principal compositor da banda death grind Abuso Verbal. Colecionador de tudo que é interessante. Comecei a pegar gosto em escrever, quando li "O Capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio", de Bukowski, em um sórdido verão de 2011. Tenho um canal no YT, onde faço entrevistas com bandas autorais e começaremos em breve a fazer documentários sobre diversos temas, sempre voltado a música pesada e a cultura alternativa.






Crônicas de um suicídio

Foi nas primeiras horas da manhã daquele domingo que a notícia chegou.

Raul tinha se suicidado.

Era com muito pesar que sua esposa anunciava o seu falecimento, com muita tristeza e uma profunda inconformidade. Não acreditara que seu marido pudera fazer aquilo. Não conseguia entender o que acontecera, já que na última noite estava alegre contando histórias para seus filhos na cama, antes de dormir. Sua esposa anuncia a morte. Todos inconformados com tal situação que preferiam acreditar que aquilo era mentira. Que não houvera um enforcamento e que não se passava de uma brincadeira de mal gosto. Pudera eles esquecer todo aquele sofrimento que o suicídio de Raul fizera e partir para os mais longínquos lugares que possa se alcançar. Estava feito, Raul estava morto com uma corda no pescoço da varanda de sua residência, com os olhos esbugalhados e a língua de fora. Sua esposa o encontrou, sem acreditar, sem conseguir encostar em seu corpo, caiu aos prantos gritando negativamente seu nome. Não conseguira tirar de sua mente aquela horrorosa cena. Ficara absurdamente em choque e teve que se medicar para não cair aos prantos eloquentemente.

Raul tivera avisado em seu diário que queria se matar. Que não era feliz com sua vida e não estava se dando bem com a situação. Mas isso só veio à tona depois de sua morte. Depois que um amigo entrou no seu computador e leu seu diário. Era estranho.

No diário Raul tinha planos de viagens e planos para a família. Algumas poesias sombrias, outras românticas que fizera para sua esposa. Mas também entre parágrafos descrevia sobre o lindo nascer do sol, ao mesmo tempo sobre o terrível enforcamento que, em suas palavras era fascinante e sem volta.

Um parágrafo dizia que o suicídio lhe ia fazer ser único por alguns dias. Que as pessoas, mesmo com um sentimento ruim, iam pensar em apenas nele naquele momento. Que ninguém lhe tiraria esse único momento de “fama“.

Talvez o narcisismo mórbido que Raul tinha o fez se matar. Aquela sensação de sentir que não pertence a esse plano e que outros lugares era a melhor solução. Também tinha uma frase escrita de algum rei grego ou algo do tipo:

“Ninguém é muito belo ou muito poderoso sem que lhe aconteça uma desgracia“.

Frase essa que mostrara o sentimento que sentira quando se acha que é perfeito demais para a vida. Se passou um dia desde sua morte. No velório estavam seus amigos, curiosos e sua família inconformados com tal situação. Seu amigo psicólogo estava no canto da sala onde acontecia o velório, não sabendo o que fazer porque nem ele conseguiu desvendar o fato que ocorreu para Raul cometer o suicídio.

Dizem que quando se comete o ato de tirar sua própria vida sua alma não se despede do seu corpo, ela fica dentro, sofrendo com o calor, frio, captando todas as cargas negativas de entes queridos. Por isso esse ato não é aceito em nenhuma cultura ou religião, é o que dizem. Apenas histórias do espiritismo talvez. Ou não. Impossível saber até que se faça o mesmo.

O velório de Raul acontecia numa tarde chuvosa, de frio, propicia para elevar a melancolia e tristeza a níveis altíssimos.

Chega o momento do enterro. Caixão se fecha. Hora mais dolorida para quem o amava. Gritos de desesperos seguido de choros, ódio, inconformados, tristeza, sentimentos ruins que veem e vão, achandoque nunca mais vai se recuperar novamente. Na verdade, não vai. A ferida cicatrizará, mas sempre haverá uma marca dela em seu corpo, sua mente sempre haverá aquela marca te lembrando o ocorrido. Trazendo aquela dor que sentira quando ocorreu.

Enfim, Raul se tornou único por alguns dias, como sempre desejara.

Se tornou aquele que não se encaixava nesse plano, aquele que se achava bom demais para nós simples mortais e que merecia algo melhor.

Adeus Raul. Vá em paz com seu narcisismo mórbido.

Rodrigo A. Leonardi
Crônicas de um suicídio

Foi nas primeiras horas da manhã daquele domingo que a notícia chegou.

Raul tinha se suicidado.

Era com muito pesar que sua esposa anunciava o seu falecimento, com muita tristeza e uma profunda inconformidade. Não acreditara que seu marido pudera fazer aquilo. Não conseguia entender o que acontecera, já que na última noite estava alegre contando histórias para seus filhos na cama, antes de dormir. Sua esposa anuncia a morte. Todos inconformados com tal situação que preferiam acreditar que aquilo era mentira. Que não houvera um enforcamento e que não se passava de uma brincadeira de mal gosto. Pudera eles esquecer todo aquele sofrimento que o suicídio de Raul fizera e partir para os mais longínquos lugares que possa se alcançar. Estava feito, Raul estava morto com uma corda no pescoço da varanda de sua residência, com os olhos esbugalhados e a língua de fora. Sua esposa o encontrou, sem acreditar, sem conseguir encostar em seu corpo, caiu aos prantos gritando negativamente seu nome. Não conseguira tirar de sua mente aquela horrorosa cena. Ficara absurdamente em choque e teve que se medicar para não cair aos prantos eloquentemente.

Raul tivera avisado em seu diário que queria se matar. Que não era feliz com sua vida e não estava se dando bem com a situação. Mas isso só veio à tona depois de sua morte. Depois que um amigo entrou no seu computador e leu seu diário. Era estranho.

No diário Raul tinha planos de viagens e planos para a família. Algumas poesias sombrias, outras românticas que fizera para sua esposa. Mas também entre parágrafos descrevia sobre o lindo nascer do sol, ao mesmo tempo sobre o terrível enforcamento que, em suas palavras era fascinante e sem volta.

Um parágrafo dizia que o suicídio lhe ia fazer ser único por alguns dias. Que as pessoas, mesmo com um sentimento ruim, iam pensar em apenas nele naquele momento. Que ninguém lhe tiraria esse único momento de “fama“.

Talvez o narcisismo mórbido que Raul tinha o fez se matar. Aquela sensação de sentir que não pertence a esse plano e que outros lugares era a melhor solução. Também tinha uma frase escrita de algum rei grego ou algo do tipo:

“Ninguém é muito belo ou muito poderoso sem que lhe aconteça uma desgracia“.

Frase essa que mostrara o sentimento que sentira quando se acha que é perfeito demais para a vida. Se passou um dia desde sua morte. No velório estavam seus amigos, curiosos e sua família inconformados com tal situação. Seu amigo psicólogo estava no canto da sala onde acontecia o velório, não sabendo o que fazer porque nem ele conseguiu desvendar o fato que ocorreu para Raul cometer o suicídio.

Dizem que quando se comete o ato de tirar sua própria vida sua alma não se despede do seu corpo, ela fica dentro, sofrendo com o calor, frio, captando todas as cargas negativas de entes queridos. Por isso esse ato não é aceito em nenhuma cultura ou religião, é o que dizem. Apenas histórias do espiritismo talvez. Ou não. Impossível saber até que se faça o mesmo.

O velório de Raul acontecia numa tarde chuvosa, de frio, propicia para elevar a melancolia e tristeza a níveis altíssimos.

Chega o momento do enterro. Caixão se fecha. Hora mais dolorida para quem o amava. Gritos de desesperos seguido de choros, ódio, inconformados, tristeza, sentimentos ruins que veem e vão, achandoque nunca mais vai se recuperar novamente. Na verdade, não vai. A ferida cicatrizará, mas sempre haverá uma marca dela em seu corpo, sua mente sempre haverá aquela marca te lembrando o ocorrido. Trazendo aquela dor que sentira quando ocorreu.

Enfim, Raul se tornou único por alguns dias, como sempre desejara.

Se tornou aquele que não se encaixava nesse plano, aquele que se achava bom demais para nós simples mortais e que merecia algo melhor.

Adeus Raul. Vá em paz com seu narcisismo mórbido.