Ela tinha o sotaque do sul - Rodrigo A. Leonardi
Rodrigo A. Leonardi
Rodrigo A. Leonardi, fanático por literatura maldita e contos góticos. Desenhista técnico, cinéfilo. Como Músico ja fui baixista/vocalista e principal compositor da banda death grind Abuso Verbal. Colecionador de tudo que é interessante. Comecei a pegar gosto em escrever, quando li "O Capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio", de Bukowski, em um sórdido verão de 2011. Tenho um canal no YT, onde faço entrevistas com bandas autorais e começaremos em breve a fazer documentários sobre diversos temas, sempre voltado a música pesada e a cultura alternativa.






Ela tinha o sotaque do sul

 

(Uma homenagem a Pam e Jim)

 

 

 

Já passava das sete da noite quando cheguei no bar. Estava cansado e deprimido como há tempos me sentia. Antes de encostar, já observei os malandros e boêmios que ali estavam. Todos conhecidos de longa data. Pareciam ter a mesma fisionomia. Cabelos espalhafatosos, barbas longas, maltrapilhos. Por isso frequentava esse bar. Sentia que fazia parte de algo, mas, do que, realmente não sei. Cumprimentei um a um. Peguei uma cerveja de rótulo azul e uma dose de algum destilado caseiro.

Parecia um néctar.

Sentei em uma mesa e observei pessoas passando pela rua. Estava frio. Bebericando a dose entre um trago e outro, observava o balançar dos galhos com a leve brisa que soava dos céus.

Passou uma mulher fazendo caminhada. Não era o tipo de mulher que desejava. Era muito bonita e formosa, mas realmente não era o meu tipo. Com certeza nem eu o dela. Observei o sacrifício da mulher para se manter em uma forma física desejável. Chegava a ser obsessivo.

Entre outro trago, me deparo com outras pessoas que vem e vão pela rua. Meu cansaço era extremo, tive um dia pesado naquela merda de emprego. Resolvi ficar na minha e observar.

            Outra garota se aproxima: baixa estatura, longos cabelos negros, um corpo aparentemente normal, mas os olhos.

Os olhos.

Aqueles grandes olhos verdes chamavam atenção de qualquer um. Avistei ela de longe. Ela percebeu que olhei, mesmo distante, fez que não viu.

Mulheres.

Quando se aproximou, fixei ainda mais meus olhos. Tinha uma boca linda, com um piercing. Adoro esse tipo de coisa. Ela olhou de canto. Não falou nada. Meu olho não conseguia se fixar em outro lugar a não ser nela. Quando estava prestes a passar por mim, não resisti e falei um oi. Ela sorriu discretamente, retribuiu o oi, e continuou.

Percebi que desceu a rua. Fiquei analisando. Entrou em uma casa próxima ao bar e, antes de fechar o portão, me olhou de novo.

“Deus do céu”, será que não estava delirando. O efeito das minhas 6 mg de remédio já tinha passado. Fiquei confuso.

Bebi rapidamente meus venenos e fui caminhar naquela direção. Passei em frente à casa dela e percebi a janela aberta bem próximo à calçada da rua.

 Parei. Olhei. Admirei.

Continuei a caminhar. Percebi que tinha uma grande árvore ao lado da casa.

Voltei e subi na arvore.

De galho em galho cheguei bem próximo à sua janela me segurando com as mãos, pendurado. Ela se vira e me vê, mas não se assusta. Sorri para mim e pergunta o que estou fazendo ali. Não respondo, apenas retribuo o sorriso.

Me aproximo da janela. Ela se levanta serenamente, percebi que não estava causando medo e sim uma magia se envolveu em tudo aquilo.

“Meu nome é Rod, te segui desde o bar”, disse a ela.

“Me seguiu? Porque faria isso?“

“Porque o seu brilho me cegou de tanta curiosidade”

Ela não sabia o que falar. Vi a magia envolvendo tudo aquilo e senti o conforto se aproximar.

Me aproximei ao seu corpo. Ela era bem mais baixa que eu. Não recuou. Peguei em seus braços, olhei naqueles grandes olhos.

Admirei-a por alguns segundos, aproximei meu rosto do dela. Bem devagar, dei um beijo próximo a sua boca.

Ela deixou rolar.

Tornei a ter a postura e me recuei. Seus lindos olhos agora estavam brilhando. Mais uma vez aproximei minha boca da dela.

Nos beijamos.

Um longo beijo. Sua boca entrelaçou com a minha. Ficamos um bom tempo nos beijando. Nossos braços se entrelaçaram até virar fortes abraços.

Depois de um tempo nos empurramos e eu disse

“Seria um desperdício pararmos agora”

Ela concordou com um sorriso calmo, e de repente uma leveza pairou sobre nós. Uma leveza que nem os seis miligramas de medicamentos conseguia dar.

Nos abraçamos. Beijamos.

Ficamos ali por um bom tempo, com um silencio assustadoramente confortável.

Rodrigo A. Leonardi
Ela tinha o sotaque do sul

 

(Uma homenagem a Pam e Jim)

 

 

 

Já passava das sete da noite quando cheguei no bar. Estava cansado e deprimido como há tempos me sentia. Antes de encostar, já observei os malandros e boêmios que ali estavam. Todos conhecidos de longa data. Pareciam ter a mesma fisionomia. Cabelos espalhafatosos, barbas longas, maltrapilhos. Por isso frequentava esse bar. Sentia que fazia parte de algo, mas, do que, realmente não sei. Cumprimentei um a um. Peguei uma cerveja de rótulo azul e uma dose de algum destilado caseiro.

Parecia um néctar.

Sentei em uma mesa e observei pessoas passando pela rua. Estava frio. Bebericando a dose entre um trago e outro, observava o balançar dos galhos com a leve brisa que soava dos céus.

Passou uma mulher fazendo caminhada. Não era o tipo de mulher que desejava. Era muito bonita e formosa, mas realmente não era o meu tipo. Com certeza nem eu o dela. Observei o sacrifício da mulher para se manter em uma forma física desejável. Chegava a ser obsessivo.

Entre outro trago, me deparo com outras pessoas que vem e vão pela rua. Meu cansaço era extremo, tive um dia pesado naquela merda de emprego. Resolvi ficar na minha e observar.

            Outra garota se aproxima: baixa estatura, longos cabelos negros, um corpo aparentemente normal, mas os olhos.

Os olhos.

Aqueles grandes olhos verdes chamavam atenção de qualquer um. Avistei ela de longe. Ela percebeu que olhei, mesmo distante, fez que não viu.

Mulheres.

Quando se aproximou, fixei ainda mais meus olhos. Tinha uma boca linda, com um piercing. Adoro esse tipo de coisa. Ela olhou de canto. Não falou nada. Meu olho não conseguia se fixar em outro lugar a não ser nela. Quando estava prestes a passar por mim, não resisti e falei um oi. Ela sorriu discretamente, retribuiu o oi, e continuou.

Percebi que desceu a rua. Fiquei analisando. Entrou em uma casa próxima ao bar e, antes de fechar o portão, me olhou de novo.

“Deus do céu”, será que não estava delirando. O efeito das minhas 6 mg de remédio já tinha passado. Fiquei confuso.

Bebi rapidamente meus venenos e fui caminhar naquela direção. Passei em frente à casa dela e percebi a janela aberta bem próximo à calçada da rua.

 Parei. Olhei. Admirei.

Continuei a caminhar. Percebi que tinha uma grande árvore ao lado da casa.

Voltei e subi na arvore.

De galho em galho cheguei bem próximo à sua janela me segurando com as mãos, pendurado. Ela se vira e me vê, mas não se assusta. Sorri para mim e pergunta o que estou fazendo ali. Não respondo, apenas retribuo o sorriso.

Me aproximo da janela. Ela se levanta serenamente, percebi que não estava causando medo e sim uma magia se envolveu em tudo aquilo.

“Meu nome é Rod, te segui desde o bar”, disse a ela.

“Me seguiu? Porque faria isso?“

“Porque o seu brilho me cegou de tanta curiosidade”

Ela não sabia o que falar. Vi a magia envolvendo tudo aquilo e senti o conforto se aproximar.

Me aproximei ao seu corpo. Ela era bem mais baixa que eu. Não recuou. Peguei em seus braços, olhei naqueles grandes olhos.

Admirei-a por alguns segundos, aproximei meu rosto do dela. Bem devagar, dei um beijo próximo a sua boca.

Ela deixou rolar.

Tornei a ter a postura e me recuei. Seus lindos olhos agora estavam brilhando. Mais uma vez aproximei minha boca da dela.

Nos beijamos.

Um longo beijo. Sua boca entrelaçou com a minha. Ficamos um bom tempo nos beijando. Nossos braços se entrelaçaram até virar fortes abraços.

Depois de um tempo nos empurramos e eu disse

“Seria um desperdício pararmos agora”

Ela concordou com um sorriso calmo, e de repente uma leveza pairou sobre nós. Uma leveza que nem os seis miligramas de medicamentos conseguia dar.

Nos abraçamos. Beijamos.

Ficamos ali por um bom tempo, com um silencio assustadoramente confortável.