O Magufe - Rubens Paiva
Rubens Paiva
Sou natural de Brasília, um lugar que existe por que os homens são capazes de criar uma cidade inteira em meio ao nada, moldando a realidade a partir de uma ideia, de um sonho. Foi nessa ilha seca de concreto, em meio ao e sob um céu desprovido de nuvens que eu conheci a literatura. Começou com uma pequena coleção que pertencia ao meu pai: Me aventurei com "Os Três Mosqueteiros", fiquei intrigado com o suicídio de "Werther"... e assustadíssimo (mas também fascinado) com uma série de revistas sobre o poderio bélico na Segunda Guerra Mundial. Meu pai lia de tudo, mas não era um homem de literatura. Ele gostava de absorver histórias e por isso mesmo era um grande contador de "causos". Assim, ele preferia as crônicas, as máterias policiais do jornal e tinha especial apreço pela Revista Seleções (Reader's Digest), aquelas historietas reais que inspiravam ou faziam rir. Meu pai não se interessava por nenhum gênero literário em particular e deve ser por isso que o meu consumo de textos também tenha sido tão eclético. Essa mistura de influências explica bem o primeiro título que comprei, já na pré-adolescência: "Eram os Deuses Astronautas?", de Erich von Däniken. O livro não era um romance, mas uma coleção de ensaios do autor sobre sua tese de que a humanidade vem sendo visitada por seres alienígenas desde a antiguidade (ideias bastante subversivas para um jovem de formação batista como eu!). Influenciado, enveredei pela ficção científica com Isasc Asimov, Ray Bradbury e Arthur C. Clarke, num crescendo até chegar a ficção satírica e subversiva do leste europeu, com Stanislaw Lem e os irmãos Strugatsky. A partir daí iniciei uma jornada para ler o oposto do que meu pai lia, numa inocente rebeldia para contrariá-lo (até abandonei a religião nesse processo). Já na universidade (em um curso de Design que meu pai desaprovava) li "A Erva do diabo" de Carlos Castaneda, um relato extraordinário sobre o uso de alucinógenos no xamanismo mexicano. Isso me levou a conhecer a literatura beatnik e até hoje sou assombrado pelo "Uivo" de Ginsberg e o "Almoço nu" de Burroughs. A essa altura eu também comecei a ler títulos de terror após conhecer "Frankenstein" e "O Chamado de Cthulhu". Foi "Christine" que me levou a conhecer boa parte da obra de Stephen King e a respeitar suas opiniões. Certa vez King afirmou: "eu vi o futuro do horror, e seu nome é Clive Barker", o que me levou a devorar toda a obra desse escritor inglês (que recomendo muito!). E a qualidade excepcional do texto de Barker me convenceu de que o gênero do Horror merecia um lugar especial na minha formação como escritor, dadas as possibilidades únicas de liberdade artística que esse gênero é capaz de atingir (acredito que só a poesia possa rivalizar com o horror, nesse ímpeto de ultrapassar limiares, mas infelizmente não me tornei poeta). Tenho o design como profissão e trabalho em redação de jornais há duas décadas, mas ainda me dedico a escrita, principalmente aos contos de terror (e alguns de ficção científica um tanto aterrorizantes). Percorri um longo caminho de Brasília, passando por São Paulo e chegando ao Rio de Janeiro (minha cidade atual). Impus a maior distância que pude das influêcias patriarcais de minha formação, mas aprendi com o tempo que não existe nada mais inútil que a luta contra espelhos. Hoje, reconheço, sou um mero contador de "causos" exatamente como o meu pai.
Email: rubensangelo@yahoo.com.br
Facebook: www.facebook.com/rubens.paiva.12





O Magufe

CAPÍTULO 1 – A vida de Max

Maximiliano era um garoto de oito anos muito introvertido e tímido. É provável que isso fosse fruto dos mimos de sua mãe, que sentindo-se culpada por não ter dado um pai para ele, o enchia de cuidados como se o pequeno Max pudesse quebrar-se tal qual uma peça de vidro frágil. Talvez por tudo isso, ou talvez pelo fato de que Max usasse grandes e pesados óculos desde sempre, todos os meninos da escola tinham problemas com ele.

Os que simplesmente o evitavam, faziam-no porque o julgavam estranho e demasiado envelhecido por detrás daquelas armações grossas e negras; um menino que não falava e não jogava bola devia ser evitado, sem dúvida. Já os que abertamente hostilizavam Max pensavam de forma oportunista: eles acreditavam que aquele branquelo, quatro olhos e franzino menino era um covarde por natureza, um alvo fácil para toda sorte de brincadeiras sádicas, e isso era uma “mina de ouro” para os valentões da escola, uma joia que não podia ser ignorada.

Em suma, essa era a rotina de Maximiliano, entre a rejeição de uns e a hostilidade do resto dos garotos da escola. Para ele, ir à escola era como caminhar em um campo minado, o franzino garoto andava sempre encolhido, evitava a tudo e a todos e nunca andava pelos mesmos caminhos, pois isso o expunha às explosivas investidas dos garotos malvados.

Naquela tarde de inverno as coisas seguiam como sempre e a aula de história parecia interminável. Ninguém dava atenção à professora Lísia, que tentava, em vão, explicar a importância do tratado de Tordesilhas. Os alunos prestavam mais atenção ao grande relógio na parede, aguardando ansiosos, a chegada da hora libertadora. E por fim o sinal do intervalo ressoou pela escola, pontualmente às 15:15 e todos os meninos e meninas desatinaram a correr pelos corredores e escadas rumo ao pátio de recreação.

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CAPÍTULO 1 – A vida de Max

Maximiliano era um garoto de oito anos muito introvertido e tímido. É provável que isso fosse fruto dos mimos de sua mãe, que sentindo-se culpada por não ter dado um pai para ele, o enchia de cuidados como se o pequeno Max pudesse quebrar-se tal qual uma peça de vidro frágil. Talvez por tudo isso, ou talvez pelo fato de que Max usasse grandes e pesados óculos desde sempre, todos os meninos da escola tinham problemas com ele.

Os que simplesmente o evitavam, faziam-no porque o julgavam estranho e demasiado envelhecido por detrás daquelas armações grossas e negras; um menino que não falava e não jogava bola devia ser evitado, sem dúvida. Já os que abertamente hostilizavam Max pensavam de forma oportunista: eles acreditavam que aquele branquelo, quatro olhos e franzino menino era um covarde por natureza, um alvo fácil para toda sorte de brincadeiras sádicas, e isso era uma “mina de ouro” para os valentões da escola, uma joia que não podia ser ignorada.

Em suma, essa era a rotina de Maximiliano, entre a rejeição de uns e a hostilidade do resto dos garotos da escola. Para ele, ir à escola era como caminhar em um campo minado, o franzino garoto andava sempre encolhido, evitava a tudo e a todos e nunca andava pelos mesmos caminhos, pois isso o expunha às explosivas investidas dos garotos malvados.

Naquela tarde de inverno as coisas seguiam como sempre e a aula de história parecia interminável. Ninguém dava atenção à professora Lísia, que tentava, em vão, explicar a importância do tratado de Tordesilhas. Os alunos prestavam mais atenção ao grande relógio na parede, aguardando ansiosos, a chegada da hora libertadora. E por fim o sinal do intervalo ressoou pela escola, pontualmente às 15:15 e todos os meninos e meninas desatinaram a correr pelos corredores e escadas rumo ao pátio de recreação.

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