Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






A Porta Oculta

1 – Nova vida
Caixas de papelão, malas e mobílias se espalhavam desordenadas pelos cômodos do charmoso chalé. Na pequena cozinha, um lanche improvisado. Cláudio e Lílian, sentados no chão de piso claro, dividiam um lanche de mortadela com coca cola, com a cumplicidade dos jovens casais apaixonados. Estavam felizes por terem conquistado tão belo lugar para morar, sendo tão jovens.
O chalé de madeira se situava no alto de uma colina, num cenário bucólico, típico de países europeus. Altos eucaliptos permeavam a região, impregnando o ar com um aroma refrescante. Realmente ali era um pedacinho da Europa em pleno interior paulista. Um lugar tão agradável para começar a vida, e tudo parecia perfeito. Os vizinhos eram escassos e distantes um dos outros, proporcionando uma privacidade que é verdadeiro luxo nos dias atuais.
Algumas mobílias antigas, pertencentes à antiga proprietária, foram deixados no chalé. Lílian, tendo gosto para coisas antigas, quis ficar com a maior parte delas. Mesinha de centro, cadeiras, um guarda-roupa com portas entalhadas em estilo rococó, uma “cama de viúva” de cabeceira alta e de beiradas arredondadas, tudo cor de ébano, pareciam ter saído de algum século longínquo.
O porão funcionava como uma espécie de adega. As paredes em pedra nua, a temperatura naturalmente fria, eram o ambiente propício para armazenar vinhos de diversos tipos. Algumas garrafas empoeiradas também foram deixadas para trás pela antiga proprietária, a dona Solange.
Ali começariam a vida, ali pretendiam criar os filhos. Um lugar calmo, cheio de muito verde, muitas árvores. Um verdadeiro refúgio para a vida agitada que os dois sempre levaram.
***
Os enjoos estavam cada vez mais frequentes. Toda manhã, Lílian sentia-se como em eterna ressaca, e as cólicas não a deixavam em paz.
– Nunca imaginei que uma grávida pudesse sentir cólicas! – queixava-se.
Um pequeno sangramento a deixara de repouso em casa, e um marido e futuro pai preocupado no trabalho. Lílian não era do tipo que conseguia ficar parada. Apesar das ordens médicas, e dos apelos de Cláudio, lá estava Lílian, remexendo em algumas velhas tranqueiras de dona Solange, que estavam em cima do armário rococó. Velhos papéis amarelados, algumas fotografias, livros antigos e obscuros, de capa ensebada, lembravam bíblias, porém seu conteúdo era bem mais profano.

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Tatianie Kiosia
A Porta Oculta

1 – Nova vida
Caixas de papelão, malas e mobílias se espalhavam desordenadas pelos cômodos do charmoso chalé. Na pequena cozinha, um lanche improvisado. Cláudio e Lílian, sentados no chão de piso claro, dividiam um lanche de mortadela com coca cola, com a cumplicidade dos jovens casais apaixonados. Estavam felizes por terem conquistado tão belo lugar para morar, sendo tão jovens.
O chalé de madeira se situava no alto de uma colina, num cenário bucólico, típico de países europeus. Altos eucaliptos permeavam a região, impregnando o ar com um aroma refrescante. Realmente ali era um pedacinho da Europa em pleno interior paulista. Um lugar tão agradável para começar a vida, e tudo parecia perfeito. Os vizinhos eram escassos e distantes um dos outros, proporcionando uma privacidade que é verdadeiro luxo nos dias atuais.
Algumas mobílias antigas, pertencentes à antiga proprietária, foram deixados no chalé. Lílian, tendo gosto para coisas antigas, quis ficar com a maior parte delas. Mesinha de centro, cadeiras, um guarda-roupa com portas entalhadas em estilo rococó, uma “cama de viúva” de cabeceira alta e de beiradas arredondadas, tudo cor de ébano, pareciam ter saído de algum século longínquo.
O porão funcionava como uma espécie de adega. As paredes em pedra nua, a temperatura naturalmente fria, eram o ambiente propício para armazenar vinhos de diversos tipos. Algumas garrafas empoeiradas também foram deixadas para trás pela antiga proprietária, a dona Solange.
Ali começariam a vida, ali pretendiam criar os filhos. Um lugar calmo, cheio de muito verde, muitas árvores. Um verdadeiro refúgio para a vida agitada que os dois sempre levaram.
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Os enjoos estavam cada vez mais frequentes. Toda manhã, Lílian sentia-se como em eterna ressaca, e as cólicas não a deixavam em paz.
– Nunca imaginei que uma grávida pudesse sentir cólicas! – queixava-se.
Um pequeno sangramento a deixara de repouso em casa, e um marido e futuro pai preocupado no trabalho. Lílian não era do tipo que conseguia ficar parada. Apesar das ordens médicas, e dos apelos de Cláudio, lá estava Lílian, remexendo em algumas velhas tranqueiras de dona Solange, que estavam em cima do armário rococó. Velhos papéis amarelados, algumas fotografias, livros antigos e obscuros, de capa ensebada, lembravam bíblias, porém seu conteúdo era bem mais profano.

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