As torres emergidas - Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






As torres emergidas

Ao contrário do que tanto se propagou, o nível do mar pode ter subido em algumas partes do planeta, cobrindo algumas cidades costeiras e engolindo pequenas ilhas, mas em outros locais, o nível abaixou de forma que era possível descobrir pequenos navios antigos naufragados e até ruínas do que outrora foram vilarejos de pescadores.

A água do mar recuou, revelando estranhas construções. Vistas de longe, poderia se pensar que eram esculpidas na areia, como castelinhos feitos por crianças. Mas de perto constatava-se de que eram feitas de um estranho material, meio arenoso, mas extremamente sólido. Torres altas e pontiagudas, permeadas por janelas escuras de formatos estranhos e irregulares, como se tivesses sido escavadas por mãos alienígenas. Tais torres eram entrecortadas por vielas estreitíssimas, um contraste entre tão altas torres em forma de cone e seus acessos tendo passagens tão apertadas.

A população, temerosa, observava de longe o cenário bizarro revelado pelo mar. Ninguém ousava chegar perto. O exército isolou a área, construindo ás pressas um muro de metal todo rebitado, e montando guarda dia e noite. A estranha agitação, o clima de algo desconhecido, deixava todos apreensivos. Mas o mar, recuando mais e mais em outros trechos da praia, revelava cada vez mais a obscura cidade, que emergiu imponente em toda sua decrepitude. Os muros de metal e a guarda do exército não davam conta de conter o gigantesco recuo das águas do mar e aquilo que surgia em suas areias.

Furei o bloqueio pelo lado leste, recém emergido e me adentrei no estranho labirinto escuro, cujas torres e paredes altas não deixavam a luz do dia entrar. O ar impregnado de maresia era sepulcral, de algo morto há muito tempo, mais tempo do que a mente humana é capaz de calcular. Justo ali não haviam colônias de corais, como se costuma ver em navios naufragados, nenhuma forma de vida marinha se aventurou a se instalar ali. Nem mesmo as habituais conchinhas estavam pelo chão. A areia era morta e escurecida, apresentando estranhos filetes esverdeados que certamente não eram resquícios de algas ou coisa que o valha.

Por mais estranho que possa parecer, as entradas de tais construções eram tão baixas e estreitas, que em algumas mesmo uma pessoa magra e de pequena estatura como eu, teria dificuldades de entrar. O cheiro de água podre era pungente. Lá dentro, em úmidas trevas, algo parecia espreitar, algo sem corpo e sem olhos, mas composto de alguma estranha energia… O som da água do mar batendo próximo dali, ecoava de forma fantasmagórica dentro daquele labirinto.

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Tatianie Kiosia
As torres emergidas

Ao contrário do que tanto se propagou, o nível do mar pode ter subido em algumas partes do planeta, cobrindo algumas cidades costeiras e engolindo pequenas ilhas, mas em outros locais, o nível abaixou de forma que era possível descobrir pequenos navios antigos naufragados e até ruínas do que outrora foram vilarejos de pescadores.

A água do mar recuou, revelando estranhas construções. Vistas de longe, poderia se pensar que eram esculpidas na areia, como castelinhos feitos por crianças. Mas de perto constatava-se de que eram feitas de um estranho material, meio arenoso, mas extremamente sólido. Torres altas e pontiagudas, permeadas por janelas escuras de formatos estranhos e irregulares, como se tivesses sido escavadas por mãos alienígenas. Tais torres eram entrecortadas por vielas estreitíssimas, um contraste entre tão altas torres em forma de cone e seus acessos tendo passagens tão apertadas.

A população, temerosa, observava de longe o cenário bizarro revelado pelo mar. Ninguém ousava chegar perto. O exército isolou a área, construindo ás pressas um muro de metal todo rebitado, e montando guarda dia e noite. A estranha agitação, o clima de algo desconhecido, deixava todos apreensivos. Mas o mar, recuando mais e mais em outros trechos da praia, revelava cada vez mais a obscura cidade, que emergiu imponente em toda sua decrepitude. Os muros de metal e a guarda do exército não davam conta de conter o gigantesco recuo das águas do mar e aquilo que surgia em suas areias.

Furei o bloqueio pelo lado leste, recém emergido e me adentrei no estranho labirinto escuro, cujas torres e paredes altas não deixavam a luz do dia entrar. O ar impregnado de maresia era sepulcral, de algo morto há muito tempo, mais tempo do que a mente humana é capaz de calcular. Justo ali não haviam colônias de corais, como se costuma ver em navios naufragados, nenhuma forma de vida marinha se aventurou a se instalar ali. Nem mesmo as habituais conchinhas estavam pelo chão. A areia era morta e escurecida, apresentando estranhos filetes esverdeados que certamente não eram resquícios de algas ou coisa que o valha.

Por mais estranho que possa parecer, as entradas de tais construções eram tão baixas e estreitas, que em algumas mesmo uma pessoa magra e de pequena estatura como eu, teria dificuldades de entrar. O cheiro de água podre era pungente. Lá dentro, em úmidas trevas, algo parecia espreitar, algo sem corpo e sem olhos, mas composto de alguma estranha energia… O som da água do mar batendo próximo dali, ecoava de forma fantasmagórica dentro daquele labirinto.

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