Carne fresca - parte 02 - Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






Carne fresca – parte 02

Leia a primeira parte:
http://maldohorror.com.br/tatianie-kiosia/carne-fresca-parte-1/

Aquilo não poderia continuar daquela maneira. O quê ele havia feito? Em alguns momentos ele se arrependia amargamente de ter sequestrado aquela moça praticamente sem planejamento algum. E se alguém viesse atrás dele, se o prendessem, ele não sabia como agir. Ele não gostava de violência, mas depois de tantos anos, passando vontade, sonhando quase que todas as noites com o doce sabor, ele não poderia passar por essa breve existência que é a vida, sem experimentar de fato aquilo que desde a adolescência ele vinha desejando ardentemente. Agora já estava começado e precisava ser terminado. Ela não precisava sofrer, ela poderia até usufruir de tudo e ainda lhe seria grata.

No decorrer daquele dia ela ainda gritou algumas vezes, o que o irritava e preocupava bastante. Daniel precisava agir depressa, e como não havia planejado direito o que faria, sentia-se meio perdido. A primeira providência era evitar que gritos fossem ouvidos. Ligando o rádio num volume bem alto, para não se aborrecer com eventuais gritos, ele fez uma lista bem organizada de todos os itens que seriam necessários e decidiu que sairia em busca deles na manhã seguinte. Até se lembrou de algo muito importante: pagar tudo em dinheiro vivo, para evitar qualquer tipo de rastro em sistemas bancários.

Antes de ir dormir, ele ainda deixou uma bandeja com lanches e vitamina para Marcela, que ficou intacta, já que com as mãos presas no cano ela não conseguia se movimentar para comer, algo tão óbvio, mas que ele em sua falta de experiência em sequestros e atos criminosos, nem havia pensado.

No fim da tarde seguinte, o principal já estava pronto: o pequeno quarto sobressalente mais parecia um estúdio de ensaio musical, com as paredes todas forradas de espuma, e também o teto. Um colchão no chão, alguns livros do lado, para que Marcela tivesse com o que se entreter, já que não havia tido tempo de instalar uma televisão no alto da parede. Sim, Daniel se preocupava com o bem estar dela, assim ele se sentia menos criminoso. Dois metros de corrente, presa num gancho no chão, para que ela pudesse se movimentar com certa liberdade ali dentro – ainda que isso seria por pouco tempo, dado seus planos, e ele chegou a considerar que nisso havia gasto dinheiro á toa. Um balde para as necessidades – se ela fosse boazinha, poderia usar o banheiro e até tomar um banho. Pelo menos na serra ele tinha obtido um ótimo desconto no pagamento á vista em dinheiro. O sedativo tinha sido o mais difícil de conseguir tão de última hora, mas sem ele todo o seu esforço poderia ter sido em vão.

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Tatianie Kiosia
Carne fresca – parte 02

Leia a primeira parte:
http://maldohorror.com.br/tatianie-kiosia/carne-fresca-parte-1/

Aquilo não poderia continuar daquela maneira. O quê ele havia feito? Em alguns momentos ele se arrependia amargamente de ter sequestrado aquela moça praticamente sem planejamento algum. E se alguém viesse atrás dele, se o prendessem, ele não sabia como agir. Ele não gostava de violência, mas depois de tantos anos, passando vontade, sonhando quase que todas as noites com o doce sabor, ele não poderia passar por essa breve existência que é a vida, sem experimentar de fato aquilo que desde a adolescência ele vinha desejando ardentemente. Agora já estava começado e precisava ser terminado. Ela não precisava sofrer, ela poderia até usufruir de tudo e ainda lhe seria grata.

No decorrer daquele dia ela ainda gritou algumas vezes, o que o irritava e preocupava bastante. Daniel precisava agir depressa, e como não havia planejado direito o que faria, sentia-se meio perdido. A primeira providência era evitar que gritos fossem ouvidos. Ligando o rádio num volume bem alto, para não se aborrecer com eventuais gritos, ele fez uma lista bem organizada de todos os itens que seriam necessários e decidiu que sairia em busca deles na manhã seguinte. Até se lembrou de algo muito importante: pagar tudo em dinheiro vivo, para evitar qualquer tipo de rastro em sistemas bancários.

Antes de ir dormir, ele ainda deixou uma bandeja com lanches e vitamina para Marcela, que ficou intacta, já que com as mãos presas no cano ela não conseguia se movimentar para comer, algo tão óbvio, mas que ele em sua falta de experiência em sequestros e atos criminosos, nem havia pensado.

No fim da tarde seguinte, o principal já estava pronto: o pequeno quarto sobressalente mais parecia um estúdio de ensaio musical, com as paredes todas forradas de espuma, e também o teto. Um colchão no chão, alguns livros do lado, para que Marcela tivesse com o que se entreter, já que não havia tido tempo de instalar uma televisão no alto da parede. Sim, Daniel se preocupava com o bem estar dela, assim ele se sentia menos criminoso. Dois metros de corrente, presa num gancho no chão, para que ela pudesse se movimentar com certa liberdade ali dentro – ainda que isso seria por pouco tempo, dado seus planos, e ele chegou a considerar que nisso havia gasto dinheiro á toa. Um balde para as necessidades – se ela fosse boazinha, poderia usar o banheiro e até tomar um banho. Pelo menos na serra ele tinha obtido um ótimo desconto no pagamento á vista em dinheiro. O sedativo tinha sido o mais difícil de conseguir tão de última hora, mas sem ele todo o seu esforço poderia ter sido em vão.

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