Carne fresca - Parte 1 - Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






Carne fresca – Parte 1

– Vem! Levanta seu cuzão! Maricas! Vem lutar que nem homem!

Daniel não sabia brigar, sequer gostava de videogames de luta ou filmes violentos. Era um menino pacífico e tímido, filho único, criado a leite com pera pelos zelosos pais. Só que naquele momento ele estava por conta e teria que se virar ou caso contrário, poderia até ser morto – pelo menos era o que ele pensava. Ainda desorientado e com o ouvido zunindo, a vista embaçada, ele se levantou e se jogou contra Jeferson, o derrubando no chão. Os garotos vibravam e gritavam como se estivessem num jogo de futebol. Alheio a isso, Daniel, aproveitando os breves momentos de desorientação de seu oponente, cravou os dentes em algo rosado que deveria ser a pele, qualquer coisa que não fosse o branco e azul marinho do uniforme ou preto do cabelo, deveria ser pele. E ele mordeu com toda a força de sua mandíbula. O sangue explodiu em sua boca como uma deliciosa goma de mascar recheada. Sim, parecia seu chiclete favorito, só que muito melhor, infinitamente melhor, quente e saboroso.

Os garotos, ao presenciar tal brutalidade que eles nunca tinham imaginado, saíram em debandada. A mordida foi tão forte que arrancou um naco da bochecha de Jeferson, o que lhe rendeu uma horrenda cicatriz no rosto pelo resto da vida. Daniel jamais se esqueceu do sabor da carne que mastigara, mas que, num ato que se arrependeria depois, havia cuspido pouco antes de chegarem a polícia, ambulância e pais em pânico.

Os anos passaram. O garoto tímido e míope teve que mudar de cidade após o ocorrido. Ninguém mais o queria por perto, a única escola da pequena cidade havia expulsado o menino devido à pressão dos outros pais. Canibal Cegueta foi como o apelidaram e como ficou conhecido ali nos anos seguintes, se as meninas queriam uma história sangrenta pra contar para as amigas, não só elas conseguiram, mas a cidade toda, e por anos a fio. Porém ele praticamente não tomou conhecimento desta alcunha infame, nem das histórias a respeito do ocorrido, aumentadas a cada vez que eram contadas. Sua nova morada era uma cidade bem maior, os colegas com outra mentalidade, não ficaram seus amigos, mas também não o importunaram. Ele se tornou invisível, isolado, e com um desejo de uma certa coisa que nunca esmorecia, só aumentava com o tempo.

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Tatianie Kiosia
Carne fresca – Parte 1

– Vem! Levanta seu cuzão! Maricas! Vem lutar que nem homem!

Daniel não sabia brigar, sequer gostava de videogames de luta ou filmes violentos. Era um menino pacífico e tímido, filho único, criado a leite com pera pelos zelosos pais. Só que naquele momento ele estava por conta e teria que se virar ou caso contrário, poderia até ser morto – pelo menos era o que ele pensava. Ainda desorientado e com o ouvido zunindo, a vista embaçada, ele se levantou e se jogou contra Jeferson, o derrubando no chão. Os garotos vibravam e gritavam como se estivessem num jogo de futebol. Alheio a isso, Daniel, aproveitando os breves momentos de desorientação de seu oponente, cravou os dentes em algo rosado que deveria ser a pele, qualquer coisa que não fosse o branco e azul marinho do uniforme ou preto do cabelo, deveria ser pele. E ele mordeu com toda a força de sua mandíbula. O sangue explodiu em sua boca como uma deliciosa goma de mascar recheada. Sim, parecia seu chiclete favorito, só que muito melhor, infinitamente melhor, quente e saboroso.

Os garotos, ao presenciar tal brutalidade que eles nunca tinham imaginado, saíram em debandada. A mordida foi tão forte que arrancou um naco da bochecha de Jeferson, o que lhe rendeu uma horrenda cicatriz no rosto pelo resto da vida. Daniel jamais se esqueceu do sabor da carne que mastigara, mas que, num ato que se arrependeria depois, havia cuspido pouco antes de chegarem a polícia, ambulância e pais em pânico.

Os anos passaram. O garoto tímido e míope teve que mudar de cidade após o ocorrido. Ninguém mais o queria por perto, a única escola da pequena cidade havia expulsado o menino devido à pressão dos outros pais. Canibal Cegueta foi como o apelidaram e como ficou conhecido ali nos anos seguintes, se as meninas queriam uma história sangrenta pra contar para as amigas, não só elas conseguiram, mas a cidade toda, e por anos a fio. Porém ele praticamente não tomou conhecimento desta alcunha infame, nem das histórias a respeito do ocorrido, aumentadas a cada vez que eram contadas. Sua nova morada era uma cidade bem maior, os colegas com outra mentalidade, não ficaram seus amigos, mas também não o importunaram. Ele se tornou invisível, isolado, e com um desejo de uma certa coisa que nunca esmorecia, só aumentava com o tempo.

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