Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






O preço da vaidade

Ariela sempre foi uma garota pobre e humilde, tendo todas as suas vontades reprimidas desde sempre. Na infância, filha de mãe solteira e pai desconhecido, era constantemente levada para a igreja por sua avó, uma religiosa fanática chamada Ernesta. Sacolejando dentro de um coletivo imundo e lotado, iam as duas, avó e neta, com seus cabelos imensos que não podiam ser cortados sob pena do pastor da igreja, e suas saias incômodas que não podiam revelar nada acima dos joelhos, para a pequena igreja onde elas eram membros. Ariela sempre se sentia muito incomodada, principalmente quando eventualmente ela vislumbrava alguma moça bonita, de cabelos pintados e calças compridas, da moda. Ernesta, extremamente fanática, quando notava que sua neta estava olhando para tais moças vulgares, ou vitrines de lojas, a beliscava fortemente, o que deixava os finos braços da menina constantemente cheios de hematomas. O desejo mais secreto e proibido de Ariela era passar um simples esmalte rosa nas unhas.

Os anos foram passando. Sua avó ia ficando cada vez mais rígida em sua religiosidade exacerbada, e mais ainda conforme Ariela ia crescendo e tomando formas de mulher. Logicamente os garotos não a olhavam jamais, a não ser para fazerem chacota com a pobre garota. Seus cabelos enormes e totalmente despontados e malcuidados, suas roupas antiquadas e encardidas, seus olhos fundos pelas longas noites em vigília e jejum a que sua avó a obrigava, a deixavam com aspecto envelhecido, triste e cansado. Porém, Ariela não era o que podia se considerar feia, de pele clara, cabelos castanhos e grandes olhos acinzentados, ela tinha lá sua beleza singela.

Elas viviam num três-cômodos muito pobre e sujo. Desde o sumiço de sua mãe, ocorrido ainda na infância, Ernesta e Ariela dividiam o mesmo quarto, e a mesma cama de casal. Semi-analfabeta, Ernesta seguia cegamente tudo o que o líder de sua igreja ordenava. Higiene era algo a que ela não era muito afeita, e Ariela, não conhecendo outra vida, achava normal viver no meio da sujeira. Tudo aquilo proveniente da sujeira material, desde poeira no chão á piolhos na cabeça, era considerado como provações do mundo. Mesmo para banhar-se havia o dia correto, para não ofender os preceitos de sua religião. A fedentina do ambiente e de suas moradoras era evidente. Os estudos também eram permitidos até certo ponto, pois dizia o pastor que o conhecimento excessivo afastava da fé. Saber ler era mais do que suficiente. Não demorou muito a Ariela sair do ambiente mundano e cheio de tentações, que era a escola. Os dias, em sua monotonia quase insuportável, eram preenchidos com jejum, oração, e idas que se não eram diárias á igreja, era por falta de dinheiro para a condução.

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Tatianie Kiosia
O preço da vaidade

Ariela sempre foi uma garota pobre e humilde, tendo todas as suas vontades reprimidas desde sempre. Na infância, filha de mãe solteira e pai desconhecido, era constantemente levada para a igreja por sua avó, uma religiosa fanática chamada Ernesta. Sacolejando dentro de um coletivo imundo e lotado, iam as duas, avó e neta, com seus cabelos imensos que não podiam ser cortados sob pena do pastor da igreja, e suas saias incômodas que não podiam revelar nada acima dos joelhos, para a pequena igreja onde elas eram membros. Ariela sempre se sentia muito incomodada, principalmente quando eventualmente ela vislumbrava alguma moça bonita, de cabelos pintados e calças compridas, da moda. Ernesta, extremamente fanática, quando notava que sua neta estava olhando para tais moças vulgares, ou vitrines de lojas, a beliscava fortemente, o que deixava os finos braços da menina constantemente cheios de hematomas. O desejo mais secreto e proibido de Ariela era passar um simples esmalte rosa nas unhas.

Os anos foram passando. Sua avó ia ficando cada vez mais rígida em sua religiosidade exacerbada, e mais ainda conforme Ariela ia crescendo e tomando formas de mulher. Logicamente os garotos não a olhavam jamais, a não ser para fazerem chacota com a pobre garota. Seus cabelos enormes e totalmente despontados e malcuidados, suas roupas antiquadas e encardidas, seus olhos fundos pelas longas noites em vigília e jejum a que sua avó a obrigava, a deixavam com aspecto envelhecido, triste e cansado. Porém, Ariela não era o que podia se considerar feia, de pele clara, cabelos castanhos e grandes olhos acinzentados, ela tinha lá sua beleza singela.

Elas viviam num três-cômodos muito pobre e sujo. Desde o sumiço de sua mãe, ocorrido ainda na infância, Ernesta e Ariela dividiam o mesmo quarto, e a mesma cama de casal. Semi-analfabeta, Ernesta seguia cegamente tudo o que o líder de sua igreja ordenava. Higiene era algo a que ela não era muito afeita, e Ariela, não conhecendo outra vida, achava normal viver no meio da sujeira. Tudo aquilo proveniente da sujeira material, desde poeira no chão á piolhos na cabeça, era considerado como provações do mundo. Mesmo para banhar-se havia o dia correto, para não ofender os preceitos de sua religião. A fedentina do ambiente e de suas moradoras era evidente. Os estudos também eram permitidos até certo ponto, pois dizia o pastor que o conhecimento excessivo afastava da fé. Saber ler era mais do que suficiente. Não demorou muito a Ariela sair do ambiente mundano e cheio de tentações, que era a escola. Os dias, em sua monotonia quase insuportável, eram preenchidos com jejum, oração, e idas que se não eram diárias á igreja, era por falta de dinheiro para a condução.

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