Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






Teste de coragem

          A pá era mais uma vez fincada no solo, arrancando torrões de terra seca e dura. Havia um pequeno monte ao lado do buraco, que rapidamente ia ficando cada vez mais fundo. Nas bordas irregulares, um cavava e outro segurava a lanterna, com as mãos trêmulas de nervosismo. Em alguns momentos, alternavam os serviços. O suor escorria em suas testas, o coração acelerado batia forte.

          – Nunca pensei que fosse ser tão difícil – disse ela, uma moça no alto de seus 20 anos, pele clara, cabelos castanhos caindo no rosto, balançados pelo frio vento noturno.

          – Vamos, cave um pouco. Trabalho em equipe, vai. – disse o rapaz, lhe passando a pá. O garoto franzino de cabeça raspada tinha um jeito impaciente e muito nervoso.

          Ambos vestidos inteiramente de negro, procuravam fazer o serviço que lhes fora pedido com o máximo de discrição possível. Se fossem pegos violando um túmulo, a situação não ficaria nada boa, além de atestar o fracasso deles. A terra parecia mais dura e difícil de cavar do que se costuma ver nos filmes, e o objetivo a ser alcançado, mais fundo do que se imaginava.

          Era algo pedido aos neófitos de certa seita: a cabeça de um cadáver, roubada de um túmulo. Eles deveriam provar sua coragem e lealdade aos membros mais antigos da seita desta forma, tendo a coragem de abrir um túmulo velho e a capacidade de não serem pegos. Porém isso não era dito aos dois neófitos ao mesmo tempo, eles eram chamados em separado e lhes dito sua tarefa. As raras duplas a quem eram designadas tal coisa, não deveriam conhecer um ao outro, exceto no dia do teste. Tudo era minuciosamente planejado, com uma criteriosa escolha.

          A moça, arfante, finalmente bateu com a pá em algo mais rígido: a tampa do caixão. Tirando mais da terra que se acumulava nas beiradas, ela mesma abriu a tampa, liberando um fedor de mofo e putrefação.

          – Me ajude a subir!

          Os dois observaram o trabalho realizado: até agora tudo certo. Terra escavada, túmulo aberto, nenhuma viva alma pelas redondezas. As baratas correram velozes quando foram iluminadas pela luz da lanterna. Os vermes, mais lentos, contentavam-se em se contorcer no meio da carne podre. O túmulo que eles violaram estava recente demais, mas como era mais trabalhoso abrir outro túmulo do que descarnar a cabeça, resolveram seguir em frente.

          – Eu cavei a maior parte, agora desce lá e pega a cabeça para nós.

          O rapaz protestou, mas ela insistiu. Deu-lhe uma adaga para com maior facilidade, separar a cabeça do resto do corpo. A bela moça já demonstrara coragem e força para cavar quase tudo sozinha. Mas pôr suas delicadas mãos, de unhas feitas, numa cabeça cheia de vermes, aquilo parecia ser demais.

          Contrariado, ele pulou dentro da cova recém aberta e acocorou-se diante do cadáver. O cheiro era nauseabundo, fazendo com que lhe viesse uma golfada biliosa. Sem nenhuma habilidade, o rapaz cortou aquela carne podre, e após isso ergueu a cabeça pelos cabelos. Ela pegou a pútrida cabeça com as pontas dos dedos e a depositou aos seus pés. O rapaz disse impaciente:

          – Me ajuda a subir agora.

          Ela pegou a pá, e num gesto rápido a golpeou na cabeça do companheiro. Ele caiu atordoado sobre o corpo sem cabeça, gemendo baixo. Rapidamente, ela o golpeou novamente, desta vez abrindo uma fenda no alto de seu crânio. O sangue dele jorrou, e desta vez sem gemidos, ele tombou inconsciente. Após isso, ela começou a devolver a terra para seu local original. Foi só o gosto de mofo e terra na boca, e o sufocamento antes da escuridão final.

          Ela sorriu, satisfeita. Pegou a cabeça, a meteu dentro de um saco preto, colocando-o em seguida dentro da mochila, e furtivamente abandonou o local. Sua tarefa foi cumprida!

 

Tatianie Kiosia
Teste de coragem

          A pá era mais uma vez fincada no solo, arrancando torrões de terra seca e dura. Havia um pequeno monte ao lado do buraco, que rapidamente ia ficando cada vez mais fundo. Nas bordas irregulares, um cavava e outro segurava a lanterna, com as mãos trêmulas de nervosismo. Em alguns momentos, alternavam os serviços. O suor escorria em suas testas, o coração acelerado batia forte.

          – Nunca pensei que fosse ser tão difícil – disse ela, uma moça no alto de seus 20 anos, pele clara, cabelos castanhos caindo no rosto, balançados pelo frio vento noturno.

          – Vamos, cave um pouco. Trabalho em equipe, vai. – disse o rapaz, lhe passando a pá. O garoto franzino de cabeça raspada tinha um jeito impaciente e muito nervoso.

          Ambos vestidos inteiramente de negro, procuravam fazer o serviço que lhes fora pedido com o máximo de discrição possível. Se fossem pegos violando um túmulo, a situação não ficaria nada boa, além de atestar o fracasso deles. A terra parecia mais dura e difícil de cavar do que se costuma ver nos filmes, e o objetivo a ser alcançado, mais fundo do que se imaginava.

          Era algo pedido aos neófitos de certa seita: a cabeça de um cadáver, roubada de um túmulo. Eles deveriam provar sua coragem e lealdade aos membros mais antigos da seita desta forma, tendo a coragem de abrir um túmulo velho e a capacidade de não serem pegos. Porém isso não era dito aos dois neófitos ao mesmo tempo, eles eram chamados em separado e lhes dito sua tarefa. As raras duplas a quem eram designadas tal coisa, não deveriam conhecer um ao outro, exceto no dia do teste. Tudo era minuciosamente planejado, com uma criteriosa escolha.

          A moça, arfante, finalmente bateu com a pá em algo mais rígido: a tampa do caixão. Tirando mais da terra que se acumulava nas beiradas, ela mesma abriu a tampa, liberando um fedor de mofo e putrefação.

          – Me ajude a subir!

          Os dois observaram o trabalho realizado: até agora tudo certo. Terra escavada, túmulo aberto, nenhuma viva alma pelas redondezas. As baratas correram velozes quando foram iluminadas pela luz da lanterna. Os vermes, mais lentos, contentavam-se em se contorcer no meio da carne podre. O túmulo que eles violaram estava recente demais, mas como era mais trabalhoso abrir outro túmulo do que descarnar a cabeça, resolveram seguir em frente.

          – Eu cavei a maior parte, agora desce lá e pega a cabeça para nós.

          O rapaz protestou, mas ela insistiu. Deu-lhe uma adaga para com maior facilidade, separar a cabeça do resto do corpo. A bela moça já demonstrara coragem e força para cavar quase tudo sozinha. Mas pôr suas delicadas mãos, de unhas feitas, numa cabeça cheia de vermes, aquilo parecia ser demais.

          Contrariado, ele pulou dentro da cova recém aberta e acocorou-se diante do cadáver. O cheiro era nauseabundo, fazendo com que lhe viesse uma golfada biliosa. Sem nenhuma habilidade, o rapaz cortou aquela carne podre, e após isso ergueu a cabeça pelos cabelos. Ela pegou a pútrida cabeça com as pontas dos dedos e a depositou aos seus pés. O rapaz disse impaciente:

          – Me ajuda a subir agora.

          Ela pegou a pá, e num gesto rápido a golpeou na cabeça do companheiro. Ele caiu atordoado sobre o corpo sem cabeça, gemendo baixo. Rapidamente, ela o golpeou novamente, desta vez abrindo uma fenda no alto de seu crânio. O sangue dele jorrou, e desta vez sem gemidos, ele tombou inconsciente. Após isso, ela começou a devolver a terra para seu local original. Foi só o gosto de mofo e terra na boca, e o sufocamento antes da escuridão final.

          Ela sorriu, satisfeita. Pegou a cabeça, a meteu dentro de um saco preto, colocando-o em seguida dentro da mochila, e furtivamente abandonou o local. Sua tarefa foi cumprida!