Revelada a última semana não-data do diário ultra-confidencial de Josenilton Figueredo Abrapueri - Wagner Nyhyhwh
Wagner Nyhyhwh
Pedreiro das palavras
Contador de sandices
Criador de nadas
Wagner Nyhyhwh já nasceu e morreu incontáveis vezes. Em vidas passadas foi Wagner Nyhyw, Reverendo W. Van Baco, Fenilisipropilamina Man, WTD, etc. Sua última ressuscitação se deu em um experimento genético no planeta K da Aglomeração 20.9. A intenção dos kasianos era clonar um ser humano dentro do Programa de Estudos de Raças Inferiores, para posteriormente criar um exército de escravos. Este objetivo foi abandonado quando os cientistas concluíram que os humanos são limitados demais para servir como escravos. Assim, Nyhyhwh foi doado para famílias que procuravam bichos de estimação para adotar. Já na infância gostava de criar, imaginação muito fértil e pulsante. Constantemente confundia ficção com realidade, o que o levava rotineiramente para tratamentos em aldeias psiquiátricas. Adulto, decidiu se tornar escritor e viver pulando de uma aldeia psiquiátrica para outra. Apesar de nenhum de seus livros ser lido por ninguém, sua escrita passou a ser considerada criminosa e herege porque como escritor se proclamava Deus. Sua situação se agravou quando passou a ser rastreado pela polícia quântica, pois gostava de viajar no tempo e em universos paralelos, sem autorização, para colher inspirações para seus textos. Foi preso quando, numa dessas viagens, acabou, por acidente, destruindo por completo toda uma realidade alternativa. Julgado e condenado a ser um degredado. Banido para sempre da Aglomeração 20.9. Não apenas isso, sofreu a mais cruel das punições previstas no Tratado Penal Interdimensional: Viver no planeta Terra! Enviado para junto de seus iguais, a raça falida.
Desde então, perambula pelo submundo humano esperando a realização da Grande Profecia, o dia em que os Fudidos varrerão a Terra e a Sarjeta engolirá os salões de festas.
Enquanto isso, continua criando.
Vez ou outra ainda confunde ficção com realidade.
http://partesforadotodo.blogspot.com.br





Revelada a última semana não-data do diário ultra-confidencial de Josenilton Figueredo Abrapueri

Segunda:
O que é isso? Não pode ser real! Essa não é a minha vida! Crianças brincam, tantos sonhos, vendidos por uma mixaria. E agora a mente desorientada, mas as pernas sabem pra onde ir, me levam em passadas mecânicas. Não era isso. Quem me escolheu pra esse dia? Medo, muito medo.

Terça:
Idem.

Quarta:
Idem.

Quinta:
Idem, exceto… mas… por quê? Não, não quero. Me deixe. Sim, estou melhor agora. Abro a mente, viajo. Por que não me libertei antes? Sim, tudo vai ser diferente a partir de hoje.

Sexta:
Depois. Por aí. “Olha a loura preta um real. Loura preta um real.” Tomo duas. Adoro cerveja preta. Mais, mais. A região mais sórdida da cidade. Mesa ao ar livre. Gosto de contemplar a lua, ela é tão… tão… tão esférica, como pode? “Quer comprar uma bala, moço? Duas por um real”. Quero comprar sua bundinha, quanto é? Ela fica constrangida, desvia o olhar, continuo: quantos anos você tem? “Treze”. Te pago vinte reais, que tal? Ela resmunga qualquer coisa, de cabeça baixa. “Tenho que vender minhas balas”. Passo por uma rua deserta, ando no meio do asfalto, nada de calçadas, cabeça empinada, peito pra fora, braços balançando, olhar penetrante. Sou o dono dessa porra de rua. Um outdoor, garota-sonho-de-lingerie, anúncio de um fabricante de fraldas, acho. Uma porta aberta, escada pra cima, homens entrando. Não sabia que tinha um puteiro nesta rua. Veio na hora. Vou entrando, mas saio nem cinco minutos depois. Nunca vi putas mais broxantes, uma parecia o Jô Soares. Um boteco mais sujo que cu de elefante. Uma peituda gostosa me atende. “O que vai querer?” Seu decote. Puxa, como gosto do verão. Uma praça, várias pessoas reunidas assistindo uma apresentação, teatro de rua. Chego de mansinho por trás de um sujeito compenetrado na peça. Muita gente ao nosso redor. Tiro a carteira de seu bolso sem muita dificuldade. Outra rua deserta. Vejamos o que temos. Talão de cheque, uma nota de dez reais, carteira de estudante, RG, CPF, título de eleitor, comprovante de inscrição no concurso do TRE, cartão de telefone. Jogo todos os documentos no ralo do esgoto. A carteira com o restante enfio numa caixa de correio.

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Wagner Nyhyhwh
Revelada a última semana não-data do diário ultra-confidencial de Josenilton Figueredo Abrapueri

Segunda:
O que é isso? Não pode ser real! Essa não é a minha vida! Crianças brincam, tantos sonhos, vendidos por uma mixaria. E agora a mente desorientada, mas as pernas sabem pra onde ir, me levam em passadas mecânicas. Não era isso. Quem me escolheu pra esse dia? Medo, muito medo.

Terça:
Idem.

Quarta:
Idem.

Quinta:
Idem, exceto… mas… por quê? Não, não quero. Me deixe. Sim, estou melhor agora. Abro a mente, viajo. Por que não me libertei antes? Sim, tudo vai ser diferente a partir de hoje.

Sexta:
Depois. Por aí. “Olha a loura preta um real. Loura preta um real.” Tomo duas. Adoro cerveja preta. Mais, mais. A região mais sórdida da cidade. Mesa ao ar livre. Gosto de contemplar a lua, ela é tão… tão… tão esférica, como pode? “Quer comprar uma bala, moço? Duas por um real”. Quero comprar sua bundinha, quanto é? Ela fica constrangida, desvia o olhar, continuo: quantos anos você tem? “Treze”. Te pago vinte reais, que tal? Ela resmunga qualquer coisa, de cabeça baixa. “Tenho que vender minhas balas”. Passo por uma rua deserta, ando no meio do asfalto, nada de calçadas, cabeça empinada, peito pra fora, braços balançando, olhar penetrante. Sou o dono dessa porra de rua. Um outdoor, garota-sonho-de-lingerie, anúncio de um fabricante de fraldas, acho. Uma porta aberta, escada pra cima, homens entrando. Não sabia que tinha um puteiro nesta rua. Veio na hora. Vou entrando, mas saio nem cinco minutos depois. Nunca vi putas mais broxantes, uma parecia o Jô Soares. Um boteco mais sujo que cu de elefante. Uma peituda gostosa me atende. “O que vai querer?” Seu decote. Puxa, como gosto do verão. Uma praça, várias pessoas reunidas assistindo uma apresentação, teatro de rua. Chego de mansinho por trás de um sujeito compenetrado na peça. Muita gente ao nosso redor. Tiro a carteira de seu bolso sem muita dificuldade. Outra rua deserta. Vejamos o que temos. Talão de cheque, uma nota de dez reais, carteira de estudante, RG, CPF, título de eleitor, comprovante de inscrição no concurso do TRE, cartão de telefone. Jogo todos os documentos no ralo do esgoto. A carteira com o restante enfio numa caixa de correio.

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