Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






A roda do destino

O reflexo que vê de si mesmo no espelho do banheiro, não é nem de longe o que ele gostaria que fosse. Rugas já brotam em sua face vítima do passar dos anos, assim como uma nuvem acinzentada que cobre de forma parcial suas pupilas, apagando aos poucos a beleza de seus olhos. A cegueira avança como uma hiena faminta o que não é novidade alguma para ele, afinal é apenas mais uma das sequelas do último AVC que visitou seu cérebro. Até para morrer, é preciso organização. Seus cabelos aos poucos desistem de se fixar ao couro cabeludo e os músculos antes dignos de um atleta, agora não passam de carne flácida presa por alguma Lei da Física ao corpo de um velho de 52 anos. Antes ele arrancava suspiros das garotas da cidade, agora o que mais ouve são crianças o xingando e belas moças cedendo passagem nas filas do mercado. Um verdadeiro ultraje. Para ele, educação sempre foi a alma do negócio. Ser sempre solícito era a chave para entrar nas vidas das pessoas. Mas agora, as gentilezas das pessoas apenas o aborrecem. Servem de combustível para seu ódio.

Ele sorri. Um sorriso débil, de um homem com câncer. O sorriso de um cadáver ambulante. Olhou com mais atenção sua imagem e pôde jurar pela vida da mãe que não chegou a conhecer que, uma verruga teimava em lhe mostrar sua velhice. Ela parece crescer a cada segundo. Quase cego e sendo devorado também por um câncer no estômago, revirou o pequeno armário sob a pia até reencontrar seu parceiro de profissão oculto há mais de dez anos num fundo falso da gaveta. Lá estava ele: seu mais fiel amigo; com a ajuda dele exterminou a pequena verruga insolente que poluía sua face, substituindo-a por uma cratera sangrenta. O velho contemplou mais uma vez seu reflexo, agora com um filete escarlate deslizando pelos sulcos de seu rosto. O mesmo que todas aquelas mulheres viam antes do beijo da morte tocar-lhes a face. Ele ergue a mão direita e olha para seu amigo fiel; reluzente, inoxidável e afiado. Luscius bloqueia a vazão do esgoto da pia e liga a torneira sem tirar os olhos do espelho acima dela. A água jorra gelada; incessante como o sangue daquelas vadias. Era assim quando as cortava com seu fiel amigo.

O bisturi está como Luscius gostaria que seu corpo estivesse: lindo, apto e mortal.

O velho fecha a torneira um pouco antes de a água transbordar e repousa o bisturi na pia. Decide neste momento voltar à ativa. Lava o rosto e se desnuda; entra no box, liga o chuveiro e se entrega a um banho revigorante. Sente os músculos relaxarem e contraírem-se. “Nada como adrenalina para fazer um coração entediado voltar à vida”, pensa o velho. Ele odeia o que se tornou: um homem velho e doente. Em seu coração reina uma Ponte de Safena dos infernos, no fígado há uma cirrose gerada pelo vício em uísques e vodcas e por fim, a visão é um borrão envolto em merda. Luscius está sendo vencido pelo Tempo e também por seu destino. Ambos se uniram em um complô contra ele, que se considera o sucessor de Jack “O Estripador de Vadias”. O maior assassino que já existiu. Ao menos é nisso que ele acredita. Enquanto a água percorre seu corpo cansado, Luscius relembra o gosto do sangue de sua última vítima. Ele adorou…
…recordar.

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Wan Moura
A roda do destino

O reflexo que vê de si mesmo no espelho do banheiro, não é nem de longe o que ele gostaria que fosse. Rugas já brotam em sua face vítima do passar dos anos, assim como uma nuvem acinzentada que cobre de forma parcial suas pupilas, apagando aos poucos a beleza de seus olhos. A cegueira avança como uma hiena faminta o que não é novidade alguma para ele, afinal é apenas mais uma das sequelas do último AVC que visitou seu cérebro. Até para morrer, é preciso organização. Seus cabelos aos poucos desistem de se fixar ao couro cabeludo e os músculos antes dignos de um atleta, agora não passam de carne flácida presa por alguma Lei da Física ao corpo de um velho de 52 anos. Antes ele arrancava suspiros das garotas da cidade, agora o que mais ouve são crianças o xingando e belas moças cedendo passagem nas filas do mercado. Um verdadeiro ultraje. Para ele, educação sempre foi a alma do negócio. Ser sempre solícito era a chave para entrar nas vidas das pessoas. Mas agora, as gentilezas das pessoas apenas o aborrecem. Servem de combustível para seu ódio.

Ele sorri. Um sorriso débil, de um homem com câncer. O sorriso de um cadáver ambulante. Olhou com mais atenção sua imagem e pôde jurar pela vida da mãe que não chegou a conhecer que, uma verruga teimava em lhe mostrar sua velhice. Ela parece crescer a cada segundo. Quase cego e sendo devorado também por um câncer no estômago, revirou o pequeno armário sob a pia até reencontrar seu parceiro de profissão oculto há mais de dez anos num fundo falso da gaveta. Lá estava ele: seu mais fiel amigo; com a ajuda dele exterminou a pequena verruga insolente que poluía sua face, substituindo-a por uma cratera sangrenta. O velho contemplou mais uma vez seu reflexo, agora com um filete escarlate deslizando pelos sulcos de seu rosto. O mesmo que todas aquelas mulheres viam antes do beijo da morte tocar-lhes a face. Ele ergue a mão direita e olha para seu amigo fiel; reluzente, inoxidável e afiado. Luscius bloqueia a vazão do esgoto da pia e liga a torneira sem tirar os olhos do espelho acima dela. A água jorra gelada; incessante como o sangue daquelas vadias. Era assim quando as cortava com seu fiel amigo.

O bisturi está como Luscius gostaria que seu corpo estivesse: lindo, apto e mortal.

O velho fecha a torneira um pouco antes de a água transbordar e repousa o bisturi na pia. Decide neste momento voltar à ativa. Lava o rosto e se desnuda; entra no box, liga o chuveiro e se entrega a um banho revigorante. Sente os músculos relaxarem e contraírem-se. “Nada como adrenalina para fazer um coração entediado voltar à vida”, pensa o velho. Ele odeia o que se tornou: um homem velho e doente. Em seu coração reina uma Ponte de Safena dos infernos, no fígado há uma cirrose gerada pelo vício em uísques e vodcas e por fim, a visão é um borrão envolto em merda. Luscius está sendo vencido pelo Tempo e também por seu destino. Ambos se uniram em um complô contra ele, que se considera o sucessor de Jack “O Estripador de Vadias”. O maior assassino que já existiu. Ao menos é nisso que ele acredita. Enquanto a água percorre seu corpo cansado, Luscius relembra o gosto do sangue de sua última vítima. Ele adorou…
…recordar.

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