Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






A roda do destino

A ponta do bisturi foi posicionada no eixo da ferida causada pelas marteladas e imediatamente iniciou sua tarefa: um corte profundo, que desceu até a virilha, seguido por outro corte. Este começou no pulso esquerdo, passou por sobre os seios e teve fim no pulso direito. O bisturi voltou a repousar na pequena mesa metálica, enquanto um espaçador foi utilizado para abrir ainda mais os cortes feitos pelo amigo fiel de Luscius. Com certo esforço, Luscius removeu parte do manto de carne que envolvia o cadáver da jovem. Sangue espirrava em seu rosto, mas não lhe incomodava. Aquele tom de pele era o seu predileto, não podia perder tempo com futilidades. Ele a virou de bruços, e após mais alguns cortes verticais e horizontais, lá estava ela. Livre das amarras que a prendiam à maca e livre de sua pele esfolada por um homem, dono de um belo par de olhos azuis.

 

[***]

O velho desligou o chuveiro e saiu do box, cansou de recordar o passado. Seu corpo está pronto; seus músculos estão relaxados e seu coração parece bater compassado em seu peito. O velho se envolve na toalha e apanha seu amigo fiel de cima da pia, segurando-o com carinho na mão direita. Vê seu reflexo e agora cai em êxtase. Sente que ainda pode realmente voltar à ativa. Ele berra, sorri e grita de alegria com os rostos de todas as suas vítimas percorrendo sua mente como troféus reluzentes. Ele pula, saltita, cantarola e assobia… até o coração desalinhar.

Luscius se recosta na pia e sorri com os lábios repuxados. Seu peito dói e o estômago clama por um analgésico que ele não comprou. Seu fôlego falha como a respiração de um asmático e suas pernas vacilam. Poderia até gritar por socorro, mas não têm vizinhos próximos ou filhos. Nem ao menos parentes vivos ou amigos. A dor lancinante se ramifica para a cabeça em inúmeras ferroadas, fazendo com que seus olhos inchem e suas têmporas implorem por um alívio. Luscius levou as mãos às laterais da cabeça, massageando-as, desfazendo-se do apoio precário que a pia lhe proporcionava. Seus olhos se apagaram, o desespero o possuiu e ele escorregou na água sob os pés. Suas mãos dançaram no ar, fazendo seu corpo se movimentar como o de um bailarino inexperiente. Enquanto seus pés abandonam o chão o velho assassino cai, de costas na cerâmica escorregadia. A cegueira se fez presente, devorando o pouco de visão que possuía. Seu estômago, julgando pela dor que emana dele, contraiu uma nova úlcera ou qualquer erosão causada pelo câncer que o devora. A língua agora dormente escorrega para o fundo de sua garganta, lembrando ao velho que seus músculos nunca perderiam a flacidez acumulada durante anos. Tudo isto funciona apenas como o prelúdio de um fato inadiável: A Morte. Ela chega a galope, procura por ele, o artista do bisturi. Assim como foi com seu avô e o avô dele. Respeitando a sina imposta pelo Destino que começou com seu antepassado famoso, o estripador britânico.

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Wan Moura
A roda do destino

A ponta do bisturi foi posicionada no eixo da ferida causada pelas marteladas e imediatamente iniciou sua tarefa: um corte profundo, que desceu até a virilha, seguido por outro corte. Este começou no pulso esquerdo, passou por sobre os seios e teve fim no pulso direito. O bisturi voltou a repousar na pequena mesa metálica, enquanto um espaçador foi utilizado para abrir ainda mais os cortes feitos pelo amigo fiel de Luscius. Com certo esforço, Luscius removeu parte do manto de carne que envolvia o cadáver da jovem. Sangue espirrava em seu rosto, mas não lhe incomodava. Aquele tom de pele era o seu predileto, não podia perder tempo com futilidades. Ele a virou de bruços, e após mais alguns cortes verticais e horizontais, lá estava ela. Livre das amarras que a prendiam à maca e livre de sua pele esfolada por um homem, dono de um belo par de olhos azuis.

 

[***]

O velho desligou o chuveiro e saiu do box, cansou de recordar o passado. Seu corpo está pronto; seus músculos estão relaxados e seu coração parece bater compassado em seu peito. O velho se envolve na toalha e apanha seu amigo fiel de cima da pia, segurando-o com carinho na mão direita. Vê seu reflexo e agora cai em êxtase. Sente que ainda pode realmente voltar à ativa. Ele berra, sorri e grita de alegria com os rostos de todas as suas vítimas percorrendo sua mente como troféus reluzentes. Ele pula, saltita, cantarola e assobia… até o coração desalinhar.

Luscius se recosta na pia e sorri com os lábios repuxados. Seu peito dói e o estômago clama por um analgésico que ele não comprou. Seu fôlego falha como a respiração de um asmático e suas pernas vacilam. Poderia até gritar por socorro, mas não têm vizinhos próximos ou filhos. Nem ao menos parentes vivos ou amigos. A dor lancinante se ramifica para a cabeça em inúmeras ferroadas, fazendo com que seus olhos inchem e suas têmporas implorem por um alívio. Luscius levou as mãos às laterais da cabeça, massageando-as, desfazendo-se do apoio precário que a pia lhe proporcionava. Seus olhos se apagaram, o desespero o possuiu e ele escorregou na água sob os pés. Suas mãos dançaram no ar, fazendo seu corpo se movimentar como o de um bailarino inexperiente. Enquanto seus pés abandonam o chão o velho assassino cai, de costas na cerâmica escorregadia. A cegueira se fez presente, devorando o pouco de visão que possuía. Seu estômago, julgando pela dor que emana dele, contraiu uma nova úlcera ou qualquer erosão causada pelo câncer que o devora. A língua agora dormente escorrega para o fundo de sua garganta, lembrando ao velho que seus músculos nunca perderiam a flacidez acumulada durante anos. Tudo isto funciona apenas como o prelúdio de um fato inadiável: A Morte. Ela chega a galope, procura por ele, o artista do bisturi. Assim como foi com seu avô e o avô dele. Respeitando a sina imposta pelo Destino que começou com seu antepassado famoso, o estripador britânico.

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