Abduzidos - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Abduzidos

Não sei ao certo por quanto tempo fiquei ali, isolado de tal forma que apenas meus olhos sentiam-se livres para correr nas próprias órbitas. Recordo-me de ter ouvido mais outro grito aterrador do Sargento e algum tempo depois, o Cabo chamando meu nome. Ele desmoronou, chorava intensamente falando sobre a filha de três anos e de sua esposa amorosa, de como sentiriam sua falta e da certeza de que não sairíamos dali vivos. “Eles o abriram, Capitão Clóvis… eles removeram seus olhos e suas pernas foram substituídas por tentáculos!”, dizia o Cabo entre lágrimas e gemidos de dor. Tentei acalmá-lo, mas como poderia? Se ao menos pudesse me mover e tentar escapar com meus companheiros. “Aí vem eles Senhor! Salve-me!” , essas foram as últimas palavras que ouvi do jovem Amarantes, antes de algo surgir e levá-lo, possivelmente para o local de onde os gritos de Romero continuavam a vir, cada vez mais intensos e insuportáveis, até serem substituídos pelos gritos do pobre Cabo Amarantes.

Meu coração galopou ainda mais forte em meu peito quando finalmente os gritos de agonia de meus companheiros, foram engolidos pelo silêncio daquele lugar. Sabia que havia chegado minha hora e, como se para provar que minha teoria estava correta, finalmente vieram a mim. Naquele momento não consegui vê-los, mas senti empurrarem a mesa elipse em que estava preso sem esforço algum, apenas acionando botões entalhados próximos aos meus pés. Flutuei por algum tempo com aqueles vultos ao meu redor, guiando-me por um longo corredor branco e que demonstrava ser infinito. Após o que me pareceu uma eternidade, paramos e uma porta se abriu, deslocando o ar em volta e dispersando um ruído igual ao farfalhar de folhas secas. Os seres içaram-me, de modo que a mesa adotou uma posição vertical, flutuando a poucos centímetros de um chão tão branco, que refletia tudo ao redor, até mesmo a mim e os seres medonhos diante de meus céticos olhos. Aquelas criaturas pareciam ter escapado de filmes antigos: eram esquálidos e altos, provavelmente dois metros de altura; seus corpos possuíam membros superiores e inferiores desproporcionais entre si, com dois ferrões no lugar do que a meu ver deveriam ser dedos. Não notei algo que os definisse como macho ou fêmea, apenas olhos grandes em uma cabeça ovoide de tom azulado. De uma concavidade abaixo de seus olhos protuberantes e pretos, um líquido semelhante ao que escorria dos cantos da boca do rapaz que matamos em Colares, fluía vagarosamente. Eles pareciam se comunicar através de ruídos grotescos e sinais feitos com seus ferrões, que eram retráteis. Apesar de eu não compreender a conversa entre eles, soube bem o que pretendiam fazer, principalmente ao olhar os corpos de Amarantes e Romero flutuando em duas mesas semelhantes à em que eu estava.

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Não sei ao certo por quanto tempo fiquei ali, isolado de tal forma que apenas meus olhos sentiam-se livres para correr nas próprias órbitas. Recordo-me de ter ouvido mais outro grito aterrador do Sargento e algum tempo depois, o Cabo chamando meu nome. Ele desmoronou, chorava intensamente falando sobre a filha de três anos e de sua esposa amorosa, de como sentiriam sua falta e da certeza de que não sairíamos dali vivos. “Eles o abriram, Capitão Clóvis… eles removeram seus olhos e suas pernas foram substituídas por tentáculos!”, dizia o Cabo entre lágrimas e gemidos de dor. Tentei acalmá-lo, mas como poderia? Se ao menos pudesse me mover e tentar escapar com meus companheiros. “Aí vem eles Senhor! Salve-me!” , essas foram as últimas palavras que ouvi do jovem Amarantes, antes de algo surgir e levá-lo, possivelmente para o local de onde os gritos de Romero continuavam a vir, cada vez mais intensos e insuportáveis, até serem substituídos pelos gritos do pobre Cabo Amarantes.

Meu coração galopou ainda mais forte em meu peito quando finalmente os gritos de agonia de meus companheiros, foram engolidos pelo silêncio daquele lugar. Sabia que havia chegado minha hora e, como se para provar que minha teoria estava correta, finalmente vieram a mim. Naquele momento não consegui vê-los, mas senti empurrarem a mesa elipse em que estava preso sem esforço algum, apenas acionando botões entalhados próximos aos meus pés. Flutuei por algum tempo com aqueles vultos ao meu redor, guiando-me por um longo corredor branco e que demonstrava ser infinito. Após o que me pareceu uma eternidade, paramos e uma porta se abriu, deslocando o ar em volta e dispersando um ruído igual ao farfalhar de folhas secas. Os seres içaram-me, de modo que a mesa adotou uma posição vertical, flutuando a poucos centímetros de um chão tão branco, que refletia tudo ao redor, até mesmo a mim e os seres medonhos diante de meus céticos olhos. Aquelas criaturas pareciam ter escapado de filmes antigos: eram esquálidos e altos, provavelmente dois metros de altura; seus corpos possuíam membros superiores e inferiores desproporcionais entre si, com dois ferrões no lugar do que a meu ver deveriam ser dedos. Não notei algo que os definisse como macho ou fêmea, apenas olhos grandes em uma cabeça ovoide de tom azulado. De uma concavidade abaixo de seus olhos protuberantes e pretos, um líquido semelhante ao que escorria dos cantos da boca do rapaz que matamos em Colares, fluía vagarosamente. Eles pareciam se comunicar através de ruídos grotescos e sinais feitos com seus ferrões, que eram retráteis. Apesar de eu não compreender a conversa entre eles, soube bem o que pretendiam fazer, principalmente ao olhar os corpos de Amarantes e Romero flutuando em duas mesas semelhantes à em que eu estava.

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