Apofenia - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Apofenia

O homem permanece imóvel; o braço esquerdo dependurado, as pontas dos dedos tocam o chão. O braço direito flexionado num ângulo reto, a mão repousando sobre o controle remoto.
Stanley se aproxima nas pontas dos pés, observa a cena com atenção. A cabeça do pai no encosto reclinável, as pernas estendidas para frente sobre a mesa de centro. O cigarro ainda respirando no cinzeiro e o porta-retratos com a foto da esposa arrebentado no chão ao lado de uma garrafa de uísque.
“Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado…”
Stanley estende as mãos e sente a frieza do pai queimar os dedos.
O fôlego falha, os olhos se enchem de lágrimas e o pijama fica ainda mais cheio de suor. As laterais da cabeça ganham agulhadas e na garganta ocorre um incêndio.
O garoto vê os olhos do homem brancos como neve. As pálpebras esticadas, a língua pendendo do canto da boca e sangue seco manchando das narinas ao queixo.
Antes que o grito se forme e ganhe impulso nos pulmões, Stanley nota a barriga do cadáver crescer. Observa um nó surgir sob o queixo, os olhos inflarem nas órbitas e algo escorrer dos ouvidos deixando um rastro sinuoso. Os botões da calça e camisa desprendem, a carne do rosto estica e veias saltam da testa.
Stanley chora e ao evocar mais uma vez o pai uma mão alcança seu braço. Aperta.
O garoto olha para a coisa na poltrona. Observa o morto gorgolejando sangue enquanto grunhe uma frase:
“— É tudo culpa sua!”
O menino se liberta. Corre. Sobe os degraus gritando sem ouvir a própria voz. Tranca a porta do quarto, voa para a cama e esconde-se sob o lençol. Ouve passos marcando os degraus da escada, rápidos como o palpitar de seu coração.
As luzes oscilam.
Stanley grita até sentir os pulmões arderem e a visão ficar turva. Começa a tossir e cospe uma porção de terra misturada com sangue. Ouve algo rastejar dentro dos ouvidos, leva as mãos às têmporas.

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Apofenia

O homem permanece imóvel; o braço esquerdo dependurado, as pontas dos dedos tocam o chão. O braço direito flexionado num ângulo reto, a mão repousando sobre o controle remoto.
Stanley se aproxima nas pontas dos pés, observa a cena com atenção. A cabeça do pai no encosto reclinável, as pernas estendidas para frente sobre a mesa de centro. O cigarro ainda respirando no cinzeiro e o porta-retratos com a foto da esposa arrebentado no chão ao lado de uma garrafa de uísque.
“Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado…”
Stanley estende as mãos e sente a frieza do pai queimar os dedos.
O fôlego falha, os olhos se enchem de lágrimas e o pijama fica ainda mais cheio de suor. As laterais da cabeça ganham agulhadas e na garganta ocorre um incêndio.
O garoto vê os olhos do homem brancos como neve. As pálpebras esticadas, a língua pendendo do canto da boca e sangue seco manchando das narinas ao queixo.
Antes que o grito se forme e ganhe impulso nos pulmões, Stanley nota a barriga do cadáver crescer. Observa um nó surgir sob o queixo, os olhos inflarem nas órbitas e algo escorrer dos ouvidos deixando um rastro sinuoso. Os botões da calça e camisa desprendem, a carne do rosto estica e veias saltam da testa.
Stanley chora e ao evocar mais uma vez o pai uma mão alcança seu braço. Aperta.
O garoto olha para a coisa na poltrona. Observa o morto gorgolejando sangue enquanto grunhe uma frase:
“— É tudo culpa sua!”
O menino se liberta. Corre. Sobe os degraus gritando sem ouvir a própria voz. Tranca a porta do quarto, voa para a cama e esconde-se sob o lençol. Ouve passos marcando os degraus da escada, rápidos como o palpitar de seu coração.
As luzes oscilam.
Stanley grita até sentir os pulmões arderem e a visão ficar turva. Começa a tossir e cospe uma porção de terra misturada com sangue. Ouve algo rastejar dentro dos ouvidos, leva as mãos às têmporas.

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