Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Fétido

O povo está em êxtase; treze fiéis desmaiam de emoção e Avaritia desvia o olhar para baixo.

Os dedos esguios folheiam páginas amarelas no livro que trouxe oculto sob a axila. Busca o evangelho correto para este dia especial.
Diante de Avaritia a plateia permanece sedenta pelo saber: ouvidos abertos, a mente presa a grilhões, a liberdade se liquefazendo e o orgulho tão flácido como bolsos vazios. Muitos deles sentem sede e fome, mas priorizam estar ali diante do pastor.

Nelson olha para o povo e sorri. As mãos tocam o peito onde deveria bater um coração, fazem um sinal de reverência e arrumam o suporte do microfone.

Lábios secos se desunem. Um leve pigarro brota na garganta e ao lampejar a língua como uma serpente a voz resolve sair. Soa áspera como se ardesse ao falar.

Os olhos dos servos se arregalam, lágrimas umedecem suas faces e joelhos se dobram. Um dos fiéis ejacula na cueca e o outro esvazia o intestino.

— Queridos e amados irmãos! Nos reunimos aqui mais uma vez, para adorar a Deus, nosso senhor. Peço por vocês e suas famílias quando digo que podemos sim servir a dois senhores… seremos mais felizes assim, sem dúvida alguma!

Os fiéis fazem suas orações e ouvem as palavras do pastor. Não percebem o vapor escapar através do terno ou os lábios embranquecidos rachando ao pronunciar o nome do pai de Adão. Ignoram o brilho fumegante em seus olhos ao ler os evangelhos e a língua bífida lambendo a bíblia.

Nelson sorri e defeca sobre a inocência humana, gargalha ao recordar o espanto das fiéis ao se deparar com seu falo invadindo-as, inundando as vaginas com pus. Ele domina a todos com rédeas curtas no caminho tortuoso da perdição.

Isso até hoje, a última quarta feira de Dezembro.

O líder da congregação exigiu a contribuição taxativa, os tais dez por cento. Entretanto, não ouve resposta.

Seus auxiliares repetem a ordem a plenos pulmões, gesticulam e ameaçam.

Nada.

Avaritia já tem as almas dos fiéis, seus bens, a vida. Mas ele quer mais.

O desejo é voraz, incontrolável.

Os olhos do pastor coçam, inflamam e queimam. Tudo desmorona quando o tilintar de moedas não é ouvido.

Páginas: 1 2 3 4 5

Wan Moura
Fétido

O povo está em êxtase; treze fiéis desmaiam de emoção e Avaritia desvia o olhar para baixo.

Os dedos esguios folheiam páginas amarelas no livro que trouxe oculto sob a axila. Busca o evangelho correto para este dia especial.
Diante de Avaritia a plateia permanece sedenta pelo saber: ouvidos abertos, a mente presa a grilhões, a liberdade se liquefazendo e o orgulho tão flácido como bolsos vazios. Muitos deles sentem sede e fome, mas priorizam estar ali diante do pastor.

Nelson olha para o povo e sorri. As mãos tocam o peito onde deveria bater um coração, fazem um sinal de reverência e arrumam o suporte do microfone.

Lábios secos se desunem. Um leve pigarro brota na garganta e ao lampejar a língua como uma serpente a voz resolve sair. Soa áspera como se ardesse ao falar.

Os olhos dos servos se arregalam, lágrimas umedecem suas faces e joelhos se dobram. Um dos fiéis ejacula na cueca e o outro esvazia o intestino.

— Queridos e amados irmãos! Nos reunimos aqui mais uma vez, para adorar a Deus, nosso senhor. Peço por vocês e suas famílias quando digo que podemos sim servir a dois senhores… seremos mais felizes assim, sem dúvida alguma!

Os fiéis fazem suas orações e ouvem as palavras do pastor. Não percebem o vapor escapar através do terno ou os lábios embranquecidos rachando ao pronunciar o nome do pai de Adão. Ignoram o brilho fumegante em seus olhos ao ler os evangelhos e a língua bífida lambendo a bíblia.

Nelson sorri e defeca sobre a inocência humana, gargalha ao recordar o espanto das fiéis ao se deparar com seu falo invadindo-as, inundando as vaginas com pus. Ele domina a todos com rédeas curtas no caminho tortuoso da perdição.

Isso até hoje, a última quarta feira de Dezembro.

O líder da congregação exigiu a contribuição taxativa, os tais dez por cento. Entretanto, não ouve resposta.

Seus auxiliares repetem a ordem a plenos pulmões, gesticulam e ameaçam.

Nada.

Avaritia já tem as almas dos fiéis, seus bens, a vida. Mas ele quer mais.

O desejo é voraz, incontrolável.

Os olhos do pastor coçam, inflamam e queimam. Tudo desmorona quando o tilintar de moedas não é ouvido.

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