Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






O doce aroma de sangue

A lua cheia deslizava preguiçosamente sobre os farrapos de nuvens naquela noite calorenta de outubro. Sob aquele céu na zona rural de São Luís, o velho João Damasceno caminhava a passos rápidos. Sua roupa se misturava aos vultos lançados pelos galhos das árvores ao caminho estreito que ia da Fazenda Santo Refúgio ao cemitério da região. Em sua cintura, o velho de sessenta anos carregava um facão amolado e oito cartuchos com duas balas cada, para recarregar sua espingarda fiel. Durante todo o caminho tortuoso, as folhas secas acompanhavam-no gritando sob o solar de sua sandália velha, partindo-se como os pensamentos que o incomodavam a ponto de obrigá-lo a deixar o aconchego de seu lar e o calor de Cristina. Os gemidos de prazer da jovem de apenas 16 anos, não deixavam de ser um combustível, mas o que lhe impulsionava mesmo era o fato de ter suas noites de amor interrompidas de forma tão absurda. Não as com Cristina, essas continuavam a todo vapor graças aos remédios da Mãe de Santo Das Dores. Entretanto, suas idas ao pasto para foder suas amantes inumanas haviam diminuído por conta de ladrões que, além de furtarem suas vadias, matavam-nas e de alguma forma drenavam todo o sangue destes animais. Por incontáveis vezes o caseiro tentou alertar as autoridades, mas a partir do momento em que o interrogaram sobre resquícios de esperma encontrados na cocheira e até mesmo a constatação de doenças venéreas nos animais, Damasceno decidiu por bem resolver tal problema sozinho. Era mais fácil agir como um lobo solitário. Bem mais seguro na verdade.

Depois de algum tempo percorrendo aquela trilha, já às duas da manhã, Damasceno desabotoou sua camisa surrada e atirou-a longe. Fez o mesmo com o seu chapéu de palha e sua sandália. Colocou a espingarda no chão e se ajoelhou. Pegou uma porção de terra diante de si e fez o sinal da cruz. Benzeu-se por três vezes seguidas, enquanto olhava para a grande lua. Alguns metros à direita do velho, enfiada na terra preta, via-se uma estaca ostentando uma pequena placa. Nela, se João soubesse ler, notaria escrito com carvão em letras tortas e garrafais: “CEMITÉRIO SÃO CIPRIANO”. O velho ficou de pé, engatilhou a espingarda e com firmes passadas, seguiu adiante.

 

[…]

— Tô falando sério cara, foi desse jeitinho que aconteceu.

— Foi é? Tu mentes com a cara mais lavada do mundo Henrique!

— Mano, isso aconteceu com o primo do tio do meu vizinho, lá na ilha do Caranguejo. Sério mermo.

— Puta que te pariu Henrique! Quando falei da história do eletricista que foi cagar e um verme arrombou ele, tu não acreditou… Agora que tu fala dessas porras de disco voador, é pra eu acreditar?! Pelamor de Deus. Só falta dizer que já viu o tal do Chupa-Cabra que tá atacando por aí.

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Wan Moura
O doce aroma de sangue

A lua cheia deslizava preguiçosamente sobre os farrapos de nuvens naquela noite calorenta de outubro. Sob aquele céu na zona rural de São Luís, o velho João Damasceno caminhava a passos rápidos. Sua roupa se misturava aos vultos lançados pelos galhos das árvores ao caminho estreito que ia da Fazenda Santo Refúgio ao cemitério da região. Em sua cintura, o velho de sessenta anos carregava um facão amolado e oito cartuchos com duas balas cada, para recarregar sua espingarda fiel. Durante todo o caminho tortuoso, as folhas secas acompanhavam-no gritando sob o solar de sua sandália velha, partindo-se como os pensamentos que o incomodavam a ponto de obrigá-lo a deixar o aconchego de seu lar e o calor de Cristina. Os gemidos de prazer da jovem de apenas 16 anos, não deixavam de ser um combustível, mas o que lhe impulsionava mesmo era o fato de ter suas noites de amor interrompidas de forma tão absurda. Não as com Cristina, essas continuavam a todo vapor graças aos remédios da Mãe de Santo Das Dores. Entretanto, suas idas ao pasto para foder suas amantes inumanas haviam diminuído por conta de ladrões que, além de furtarem suas vadias, matavam-nas e de alguma forma drenavam todo o sangue destes animais. Por incontáveis vezes o caseiro tentou alertar as autoridades, mas a partir do momento em que o interrogaram sobre resquícios de esperma encontrados na cocheira e até mesmo a constatação de doenças venéreas nos animais, Damasceno decidiu por bem resolver tal problema sozinho. Era mais fácil agir como um lobo solitário. Bem mais seguro na verdade.

Depois de algum tempo percorrendo aquela trilha, já às duas da manhã, Damasceno desabotoou sua camisa surrada e atirou-a longe. Fez o mesmo com o seu chapéu de palha e sua sandália. Colocou a espingarda no chão e se ajoelhou. Pegou uma porção de terra diante de si e fez o sinal da cruz. Benzeu-se por três vezes seguidas, enquanto olhava para a grande lua. Alguns metros à direita do velho, enfiada na terra preta, via-se uma estaca ostentando uma pequena placa. Nela, se João soubesse ler, notaria escrito com carvão em letras tortas e garrafais: “CEMITÉRIO SÃO CIPRIANO”. O velho ficou de pé, engatilhou a espingarda e com firmes passadas, seguiu adiante.

 

[…]

— Tô falando sério cara, foi desse jeitinho que aconteceu.

— Foi é? Tu mentes com a cara mais lavada do mundo Henrique!

— Mano, isso aconteceu com o primo do tio do meu vizinho, lá na ilha do Caranguejo. Sério mermo.

— Puta que te pariu Henrique! Quando falei da história do eletricista que foi cagar e um verme arrombou ele, tu não acreditou… Agora que tu fala dessas porras de disco voador, é pra eu acreditar?! Pelamor de Deus. Só falta dizer que já viu o tal do Chupa-Cabra que tá atacando por aí.

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