RITUAL - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






RITUAL

“O Mal é um ponto de vista.”
– ENTREVISTA COM O VAMPIRO –

 

Era noite de sexta feira 13 quando Sandra entrou no quarto da avó e a encontrou na mesma posição da noite anterior: esparramada sobre a cama com os braços abertos, mãos retorcidas, pálpebras esticadas; os olhos virados para cima focavam o vazio e encharcavam os sulcos das olheiras com lágrimas amargas. Naquela noite Gertrudes tossia como se fosse cuspir os próprios pulmões. As paredes do quarto ostentavam filetes de catarro com resquícios de sangue e formavam desenhos monstruosos. Apesar de ver tudo isso Sandra continuava impassível. Torcia para que a morte viesse por sua avó.

Oculto — por entre os galhos de uma árvore — observei Sandra avançar até a cama e pegar o travesseiro. Ela o deixou suspenso sobre o rosto enrugado de Gertrudes e confesso que por um momento imaginei que todo o plano iria pelo ralo. Entretanto, por misericórdia dos deuses Sandra desistiu. Jogou o travesseiro ao chão e saiu do quarto. Bateu a porta e desceu as escadas; foi para a sala ligar a televisão.

Até ali o plano corria bem.

Saí de meu esconderijo e alcancei a janela de minha velha amiga. Testemunhei a luz da Lua penetrar pelo vidro da janela e iluminar aquela casca envelhecida; a camisola amarelada cobria a magreza do corpo doente e destacava os ossos que marcavam a pele. A respiração estava pesada, suor brotava na testa. O cadáver sobre aquela cama nem lembrava a Bruxa que minha amiga havia sido. Gertrudes apodrecia a olhos nus. Na época ver aquilo me abalou, mas nada poderia fazer além de observar e admirá-la ainda mais.

Páginas: 1 2 3 4 5 6

Wan Moura
RITUAL

“O Mal é um ponto de vista.”
– ENTREVISTA COM O VAMPIRO –

 

Era noite de sexta feira 13 quando Sandra entrou no quarto da avó e a encontrou na mesma posição da noite anterior: esparramada sobre a cama com os braços abertos, mãos retorcidas, pálpebras esticadas; os olhos virados para cima focavam o vazio e encharcavam os sulcos das olheiras com lágrimas amargas. Naquela noite Gertrudes tossia como se fosse cuspir os próprios pulmões. As paredes do quarto ostentavam filetes de catarro com resquícios de sangue e formavam desenhos monstruosos. Apesar de ver tudo isso Sandra continuava impassível. Torcia para que a morte viesse por sua avó.

Oculto — por entre os galhos de uma árvore — observei Sandra avançar até a cama e pegar o travesseiro. Ela o deixou suspenso sobre o rosto enrugado de Gertrudes e confesso que por um momento imaginei que todo o plano iria pelo ralo. Entretanto, por misericórdia dos deuses Sandra desistiu. Jogou o travesseiro ao chão e saiu do quarto. Bateu a porta e desceu as escadas; foi para a sala ligar a televisão.

Até ali o plano corria bem.

Saí de meu esconderijo e alcancei a janela de minha velha amiga. Testemunhei a luz da Lua penetrar pelo vidro da janela e iluminar aquela casca envelhecida; a camisola amarelada cobria a magreza do corpo doente e destacava os ossos que marcavam a pele. A respiração estava pesada, suor brotava na testa. O cadáver sobre aquela cama nem lembrava a Bruxa que minha amiga havia sido. Gertrudes apodrecia a olhos nus. Na época ver aquilo me abalou, mas nada poderia fazer além de observar e admirá-la ainda mais.

Páginas: 1 2 3 4 5 6