RITUAL - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






RITUAL

Gertrudes ficou entre a cruz e a espada inúmeras vezes. Naquela última, só percebeu que era chegada a hora de mudar quando o Mal de Alzheimer chegou. A Bruxa começou a esquecer coisas recentes como o que comia no café da manhã e lembrar de coisas antigas como a idade em que conjurou Cthulhu pela primeira vez. Certo dia lembrou de quando esteve na Torre de Babel e nas construções das pirâmides egípcias. Quando ela me confidenciou suas aflições juro que não fiquei triste, pois a morte é só mais uma etapa no plano sobrenatural que é a vida. No entanto, ao acordar semana passada com enxofre a inundar o quarto, o chão coberto de larvas e Getrudes abraçada a uma criança degolada vi que o Alzheimer poderia por fim ao seu reinado. Recordar que quase perdi Gertrudes ainda me dá náuseas.

Deixei a janela para trás e voltei para a árvore. Gertrudes começava a se debater quando olhei para cima e vi que a Deusa Lua navegava num oceano de nuvens esfarrapadas. Foi nesse instante que Gertrudes começou a gritar. Segurei meus instintos e apenas apreciei aquela canção sagrada.

Os gritos de Gertrudes traziam a lembrança do som das encruzilhadas, o gosto acre dos pântanos da Louisiana, o aroma de sangue fresco escorrendo das oferendas Astecas e o sabor da profanação numa tonalidade perversa e admirável. O chiado seco e áspero reverberava pela vizinhança como trovões numa tempestade, banhava com arrepios a pele e entupia de êxtase os tímpanos.

Sandra não compartilhava desse prazer sobrenatural. Ela acordou de supetão; os olhos úmidos e esbugalhados refletiam a luz da Tv; um filete de saliva escorria pelo canto da boca e manchava a pele alva da garota. Então veio outro grito e os pés da moça esbarraram no abajur ao lado do sofá. O vaso, presente dado a Gertrudes pelo Rei Nabuconodosor II, caiu sobre o vidro da mesa de centro. Um cinzeiro também despencou e jogou sobre o tapete persa cinzas para mancharem aquela beleza antiga.

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Wan Moura
RITUAL

Gertrudes ficou entre a cruz e a espada inúmeras vezes. Naquela última, só percebeu que era chegada a hora de mudar quando o Mal de Alzheimer chegou. A Bruxa começou a esquecer coisas recentes como o que comia no café da manhã e lembrar de coisas antigas como a idade em que conjurou Cthulhu pela primeira vez. Certo dia lembrou de quando esteve na Torre de Babel e nas construções das pirâmides egípcias. Quando ela me confidenciou suas aflições juro que não fiquei triste, pois a morte é só mais uma etapa no plano sobrenatural que é a vida. No entanto, ao acordar semana passada com enxofre a inundar o quarto, o chão coberto de larvas e Getrudes abraçada a uma criança degolada vi que o Alzheimer poderia por fim ao seu reinado. Recordar que quase perdi Gertrudes ainda me dá náuseas.

Deixei a janela para trás e voltei para a árvore. Gertrudes começava a se debater quando olhei para cima e vi que a Deusa Lua navegava num oceano de nuvens esfarrapadas. Foi nesse instante que Gertrudes começou a gritar. Segurei meus instintos e apenas apreciei aquela canção sagrada.

Os gritos de Gertrudes traziam a lembrança do som das encruzilhadas, o gosto acre dos pântanos da Louisiana, o aroma de sangue fresco escorrendo das oferendas Astecas e o sabor da profanação numa tonalidade perversa e admirável. O chiado seco e áspero reverberava pela vizinhança como trovões numa tempestade, banhava com arrepios a pele e entupia de êxtase os tímpanos.

Sandra não compartilhava desse prazer sobrenatural. Ela acordou de supetão; os olhos úmidos e esbugalhados refletiam a luz da Tv; um filete de saliva escorria pelo canto da boca e manchava a pele alva da garota. Então veio outro grito e os pés da moça esbarraram no abajur ao lado do sofá. O vaso, presente dado a Gertrudes pelo Rei Nabuconodosor II, caiu sobre o vidro da mesa de centro. Um cinzeiro também despencou e jogou sobre o tapete persa cinzas para mancharem aquela beleza antiga.

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